Nós conseguimos fazer discursos lógicos porque temos o senso da unidade do real, mas ao mesmo tempo, no conteúdo do discurso que criamos, podemos consciente ou inconscientemente, negar a unidade do real – Olavo de Carvalho

“Quando as pessoas dizem: “Nós temos de nos ater às explicações racionais”, elas não sabem o que é razão. O raciocínio lógico é chamado de racional porque ele tem a propriedade da não-contradição, não se desmente a si mesmo. Raciocínio lógico significa unidade do discurso; quando você chega à frase número 52, você não desmentiu a frase número 1.

Ora, pergunto eu: como nós poderíamos ter a noção e a percepção da unidade do discurso, se não tivéssemos dentro de nós a percepção de unidade e totalidade em geral? É por termos uma antevisão, um conhecimento da unidade do real que nós somos capazes de raciocínio lógico; então, raciocínio lógico é uma expressão particular de nossa capacidade de perceber a unidade do real. Isso está mais explicado no vídeo que indiquei: A Imaginação e a Unidade do Real. Por favor, ouçam isso o quanto antes. A unidade do real é a condição sem a qual não existe nenhum conhecimento e nenhuma possibilidade de ação humana, nenhuma ação racional, nenhum planejamento. Se não existe uma realidade, mas existem realidades totalmente separadas e independentes, se existem abismos ontológicos separando várias partes da realidade, então eu não posso sequer completar uma frase porque eu não tenho certeza de se quando eu chegar ao fim da frase eu ainda estarei me referindo à mesma realidade; ou seja, no salto entre os mundos houve um corte. Então, essa admissão natural e imediata da unidade da realidade está presente em todos os seres humanos, eles têm isso quase instintivamente. E é porque têm isso que são capazes de raciocínio lógico. Acontece o seguinte: se o discurso lógico é uma função derivada da unidade do real, é possível que um discurso lógico inteiramente coerente desminta no seu conteúdo a unidade do real. Você usa seu pressentimento da unidade do real para construir um raciocínio lógico. E como você tem esta capacidade de perceber unidade, totalidade, coerência, então você é capaz de fazer um raciocínio lógico; mas acontece que no conteúdo o raciocínio lógico pode ter implicações que desmintam a unidade do real. Aliás, isso acontece com uma freqüência extraordinária.

Vamos considerar uma frase de Michel de Montaigne: “Nós não temos nenhum acesso ao Ser.” Ele pode criar um discurso lógico para demonstrar isso. Este discurso lógico será coerente em si mesmo, mas pergunto eu: em que universo está colocado este discurso? Em que universo Michel de Montaigne disse isso? Ele imagina que disse isso em um universo separado que é sua própria mente. Ele está dizendo: a minha mente tem uma totalidade, uma unidade, e dentro dela eu chego a uma conclusão de que não tenho acesso ao Ser. Portanto, este discurso se desenrola em um mundo separado que não é o mundo do Ser. Mas se é assim, como é que conseguimos ler este discurso? Se você não tem acesso ao Ser, como é que eu tenho acesso ao seu texto? O fato de que eu, transcorridos quatro séculos da morte de Michel de Montaigne, possa ir a uma livraria comprar uma edição do livro dele, isso se desenrola no mundo mental de Michel de Montaigne? Não é possível. Então, o conteúdo da afirmação “nós não temos acesso ao Ser”, desmente a unidade do real porque está pressupondo um mundo mental separado. O fato de que nós consigamos criar um discurso e prestar atenção somente nele, fazendo abstração de tudo o mais, é algo que evidentemente nos engana, pois não é por você prestar atenção só em uma coisa que todas as outras desaparecem. Por exemplo: para que Michel de Montaigne tivesse dito isto foi preciso que ele tivesse nascido algum dia, e para isso papai e mamãe Montaigne tiveram de praticar certos atos libidinosos que não fazem parte de maneira alguma do mundo mental de Michel de Montaigne, o qual naquele momento ainda não existia.

Se eu sei que nasci, como posso dizer que não tenho nenhum acesso ao Ser? Se minha própria existência física não é um elemento do meu mundo mental, mas é, ao contrário, um pressuposto externo do meu mundo mental— externo e anterior. Nós conseguimos fazer discursos lógicos porque temos o senso da unidade do real, mas ao mesmo tempo, no conteúdo do discurso que criamos, podemos consciente ou inconscientemente, voluntária ou involuntariamente, negar a unidade do real. Assim, nós nos colocamos dentro de um mundo fictício de discurso que imaginamos estar separado da unidade do real, mas que de fato não está. Este é o princípio de todos os enganos em filosofia. A capacidade de raciocínio lógico encanta de tal modo seu possuidor, que este acredita mais no conteúdo do raciocínio lógico que ele mesmo criou do que nas condições existenciais, reais, efetivas que permitiram que ele criasse este discurso. Exatamente como o sujeito que serra o galho no qual está sentado. Isso acontece em filosofia com uma constância incrível.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 017, 01/08/2009.


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