A palavra “ciência”, quando usada em um debate, não é um conceito rigoroso, é uma figura de linguagem que compacta coisas enormemente separadas entre si – Olavo de Carvalho

“A palavra “ciência” em si mesma é ambígua, tem várias camadas de significado. Vejamos algumas, sem pretensão de sermos exaustivos. Em primeiro lugar, ciência significa o ideal de ciência tal como Sócrates, Platão e Aristóteles o formularam em oposição à doxa, ao mundo da opinião. Então a ciência, ou episteme, é aquele conhecimento que é demonstrativo, que não apenas afirma algo, que não apenas persuade as pessoas, mas fornece os elementos de prova necessários para saber que as coisas não podem ser de outro modo senão daquele modo a que a sua conclusão lógica levou. Então, a ideia de alcançar um conhecimento demonstrativo, apodíctico — apo quer dizer “não”, é um negativo, e deiksis quer dizer “destruir”, logo, indestrutível —, a ideia de um conhecimento indestrutível é o ideal inicial da ciência.

Aristóteles sabia perfeitamente que este ideal só pode ser realizado de maneira parcial e imperfeita. E, no entanto, era o mesmo ideal que dava forma e sentido aos esforços científicos ainda que frustrados. Aristóteles entendia o mundo da natureza como o mundo onde as coisas estão em constante transformação e, por isso mesmo, não acreditava em constantes da natureza, mas apenas em estabilizações provisórias — ele está muito mais perto da física quântica do que do mundo de Newton. E, por isso mesmo, ele dizia que o campo inteiro das ciências naturais não podia ser reduzido à ciência no sentido estrito e perfeito. Não existia uma episteme da natureza: isto é fundamental. Não existia uma ciência exata e perfeita da natureza, portanto o conhecimento da natureza teria de ser sempre tentativo (existe essa palavra em inglês, nós podemos adotá-la em português: tentativo, experimental). Ora, Aristóteles disse isso quatrocentos anos antes de Cristo.

E esta é a primeira camada de significado da palavra “ciência”: o ideal da ciência e a consciência de que, para a quase totalidade dos domínios da realidade, este ideal não será realizado, mas, ao mesmo tempo, você não pode abdicar dele, porque é ele que dá a forma lógica do esforço que você está fazendo. Ou seja, a ciência se aproxima do seu ideal de conhecimento apodíctico como numa assíntota, uma curva que vai chegando, chegando, mas nunca chega. Sendo, em qualquer momento, impossível dizer se você se aproximou mais ou menos, ou seja, não há uma distância absoluta, há uma distância que aumenta na medida em que diminui. Isso significa que a assíntota é caracterizada pelo paradoxo. Logo, a ciência efetivamente existente tem uma relação paradoxal com o seu ideal. É este o que determina a forma lógica pela qual nós reconhecemos uma atividade como científica, ele é a medida da cientificidade da ciência e, ao mesmo tempo, ele é a negação dessa cientificidade. Ou seja, comparado com o ideal de ciência nenhuma ciência é ciência, é apenas uma tentativa de ciência. Note bem que aí já estava dado tudo que o Popper vem a dizer mais tarde sobre a refutabilidade etc. etc. Tudo já estava dado ali.

A formulação que Aristóteles dá do método científico é a mais perfeita que alguém já deu. No entanto, quando a partir do século XVI começa a se formar uma nova intelectualidade que já não tem a formação escolástica completa, mas apenas aquele mínimo que as pessoas da nobreza recebiam frequentando alguns colégios durante algum tempo, duas ou três gotinhas de ensinamento escolástico, e achavam que conheciam a escolástica, Aristóteles etc. etc. Quando lemos Bacon, por exemplo, ele escreve toda sua obra como uma crítica do aristotelismo e uma inversão do aristotelismo, é o que ele imagina [fazer]. E diz o seguinte: “Aristóteles usa um método dedutivo no qual parte de afirmações gerais e conclui as particulares, portanto, ele despreza a observação e experimentação da natureza. E nós temos de fazer exatamente o contrário, nós temos de usar um método indutivo; ou seja, nós temos de observar os fatos e, gradativamente, ir criando as generalizações.” Mas observar os fatos e, gradativamente, ir criando as generalizações, foi justamente o que Aristóteles disse que era a única coisa com possibilidade de ser feita na ciência da natureza. Ou seja, é o mesmo que dizer: Bacon ignorava a filosofia de Aristóteles total e profundamente, e simplesmente não entendia o que estava lendo, ou então recebeu uma informação falsa. Do mesmo modo, Descartes também recebeu informação falsa.

Ora, se o sujeito não sabe onde está a atividade dele dentro do desenvolvimento histórico da disciplina que está praticando, então ele já está fora da realidade. Ou seja: a referência que ele tem, a totalidade do que ele sabe sobre o que está estudando está colocada fora da realidade histórica dessa mesma atividade. E isso já é um elemento de alienação gravíssimo, porque ele não sabe qual é o status quaestionis. Então podemos dizer: todos os críticos de Aristóteles, da Renascença para adiante, que criaram a ciência moderna, não tinham a menor ideia do que é [a filosofia de] Aristóteles.

Foi só no século XX que os estudiosos descobriram que a famosa dialética de Aristóteles é o método científico, afinal de contas. Isso hoje em dia, entre os estudiosos especializados da área, é um consenso total. Mas durante quatro séculos a história das ciências se desenrola numa complacente ignorância do seu próprio lugar na história do desenvolvimento do método científico. Esse deslocamento, essa defasagem, entre o conteúdo das ciências e o lugar que elas ocupam historicamente vai afetar profundamente o conteúdo das próprias ciências. Do mesmo modo que, por exemplo, você supõe que é Napoleão Bonaparte e começa a agir logicamente em função da premissa de que você é Napoleão Bonaparte, é absolutamente impossível que a falsidade da premissa não acabe se introduzindo nos próprios atos que você está praticando. A ciência é a mesma coisa.

Ou seja: quando nos deixamos impressionar, por exemplo, com o que as pessoas dizem: “Ah, mas como você diz isso se a ciência fez foguetes interplanetários, fez a internet, fez isso, mais aquilo, mais aquilo?” Ora, em primeiro lugar: todas estas conquistas, cada uma delas é apenas uma aplicação tecnológica, não há nenhuma aplicação tecnológica que possa ser reduzida inteiramente a uma explicação científica. Toda técnica consiste em fundir conhecimentos heterogêneos, irredutíveis a um princípio explicativo comum, e dar a eles uma existência corporal, dar a essa heterogeneidade de linhas causais uma existência corporal. Ou seja, jamais a eficácia de uma técnica qualquer comprova ciência alguma. Existe um abismo entre as duas coisas.

(…) Então, todo produto tecnológico nunca pode depender de um princípio científico apenas, isso é absolutamente impossível. Por exemplo, os princípios que explicam a propulsão do foguete não podem por si mesmos explicar a resistência maior ou menor dos metais de que se compõe o foguete, isso depende de uma outra linha de explicação científica que não tem nada a ver com a propulsão, e assim por diante. Imagine a quantidade de materiais diversos e de elementos técnicos diversos necessários para construir um foguete; reduza todos eles a um princípio científico comum. Não é possível. Jamais podemos confundir os sucessos da tecnologia com a capacidade que a ciência teria de lhe dar uma explicação real dos fenômenos. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, absolutamente nada. Então não se impressione com essas coisas. Vamos julgar a ciência não pelos efeitos laterais que ela teve através da sua fusão com a tecnologia, e sim por sua ambição declarada de nos dar uma explicação naturalística do fenômeno.

Então, temos a primeira camada de significado: o ideal de ciência; segunda camada: a dificuldade, a tensão que existe entre a ciência e, se possível, o seu ideal; terceira camada: todo o conjunto das observações e teorias historicamente existentes, incluindo as erradas; ou seja, é a ciência como conjunto de conhecimentos enormemente variados, não só no seu conteúdo, mas no seu nível de validade; quarta [camada]: a ciência como atividade socialmente existente, como profissão, que implica a existência de entidades, de subsídios, de uma série de elementos políticos que possibilitam a sua existência; quinta [camada]: a ideia de ciência como autoridade social, como aquela instância que, perante o povão, está habilitada a separar o verdadeiro do falso; sexta [camada]: a ciência como fundamento alegado de certas crenças filosóficas gerais como, por exemplo, o naturalismo.

Quando se fala “ciência”, fala-se nesses seis sentidos ao mesmo tempo. Então basta isso para você entender que a palavra “ciência”, quando usada em um debate, não é um conceito rigoroso, é uma figura de linguagem que compacta coisas enormemente separadas entre si. E, frequentemente, quando num debate a pessoa alega a autoridade da ciência, ela está alegando a autoridade de uma impressão de conjunto criada por tudo isso. E para complicar ainda mais, a história do método científico é composta de uma falsidade inaugural que é a cometida por Bacon, Galileu e não sei quantos, com relação ao pensamento escolástico-aristotélico: eles criaram uma falsa ruptura. Ou seja, a partir de um conhecimento extremamente deficiente, para não dizer totalmente falso, do que era a ciência escolástica antiga, eles acreditavam que estavam criando algo novo, quando não estavam: estavam simplesmente repetindo a mesma coisa. E como é que uma atividade tão importante, que tem tanta autoridade sobre a sociedade, pode ser tão ignorante da sua própria história e, portanto, das fontes dessa mesma autoridade?”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 017, 01/08/2009.


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