Conhecimento científico, sem uma compreensão filosófica adequada, não significa absolutamente nada – Olavo de Carvalho

“Um elemento fundamental para a aquisição da alta cultura é a perda do temor reverencial ante as ciências. Mas esta perda tem de ser completa. Por exemplo, a teoria quântica, a mais certa, e eu acho que não há outra que tenha sido confirmada tantas vezes em laboratório, é o que aparenta ser uma certeza. Até hoje ninguém sabe como articulá-la com a relatividade nem sabe sequer sua significação para a concepção do mundo em geral. Eis o máximo que uma ciência pode fornecer, isso quando ela chega ao auge, ao máximo do máximo do máximo. Ora, isso não significa que eu estou desprezando essas conquistas, ao contrário: elas têm imenso valor. Porém, o valor que elas têm depende inteiramente da capacidade humana de julgar esses conhecimentos em função do conhecimento que cada um tem da unidade do real. Por exemplo: existe o famoso livro de Jean Piaget, intitulado Sabedoria e Ilusões da Filosofia, onde ele diz o seguinte: “Conhecimento mesmo só a ciência fornece. A filosofia não fornece conhecimento, ela é um instrumento não de conhecimento, mas de orientação na realidade. Ela vai lhe dar um corpo de valores e critérios para orientação na realidade.”

Ora, o que significa um conhecimento no qual não haja orientação e senso de valor e critério? Não é conhecimento de maneira alguma. Então, Jean Piaget tem razão. A função da filosofia não é fornecer conhecimento científico. Mas conhecimento científico, sem uma compreensão filosófica adequada, não significa absolutamente nada. É apenas um elemento de ostentação de autoridade indevida. Pior ainda, ao examinar a ciência como atividade social, é possível ver o seguinte: a pesquisa científica custa dinheiro, então existe uma constante disputa por verbas (e isso é assim já há duzentos anos); a obtenção de verbas para a sua pesquisa depende de que o cientista consiga demonstrar a uma pessoa externa, a um funcionário, que não faz parte da sua pesquisa e que não é alguém da sua especialidade, que a sua pesquisa é mais importante que as outras. Isto é um elemento falsificador constante em toda pesquisa científica. Para disputar verbas, os cientistas mentem contra os seus próprios colegas o tempo todo. Por quê? Como a pesquisa não está concluída, ninguém sabe se aquilo é realmente importante ou não. A pesquisa pode não dar nada, mas o cientista desde já tem de provar que aquilo é importantíssimo. Então é claro que se trata de um argumento retórico, um argumento de mera verossimilhança; e todo o funcionamento do aparato científico no mundo depende desse discurso de verossimilhança. Então imaginem o total descontrole intelectual a que isso pode chegar.

Como podemos nos orientar em face disso? A própria ciência nos fornece algum elemento para isso? Não. Isso depende inteiramente da sua orientação na estrutura unitária do real. Então, a alta cultura consiste em adquirir uma orientação dentro do senso da realidade. O senso da realidade não é o senso de uma coisa que existe, é o senso da participação de sua consciência em uma realidade que a abrange. E é isso que tem de ser constantemente aperfeiçoado e afinado.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 017, 01/08/2009.


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