Vivenciar imaginativamente as mais variadas possibilidades de vidas humanas, de situações humanas, de dramas humanos, de conflitos humanos, é o aprimoramento da sua imaginação moral – Olavo de Carvalho

“A frase do Louis Lavelle que lemos no início nos diz o seguinte: “O problema central das relações humanas é você passar de uma relação baseada na simpatia ou antipatia naturais (daqui a pouco eu vou explicar os limites desta expressão “naturais”) para uma relação que constitua para as duas pessoas envolvidas uma oportunidade de alcançar a sua própria realização espiritual, para realizar-se como seres espirituais que são.”

Então, quando ele diz “naturais”, é claro que está compactando a coisa, naturalmente, porque muitas das afeições espontâneas não são naturais, elas são culturais. Por exemplo, certos padrões de beleza. Desde a juventude, eu sempre fiquei muito impressionado ao observar repetidamente como os padrões de beleza oferecidos pela mídia, pela publicidade etc. etc., afetavam as pessoas. E elas passavam a achar bonitas e atraentes as pessoas que estavam de acordo com este padrão, e sentiam aquilo como se fosse uma atração natural e espontânea, porque nunca tinham se lembrado de procurar beleza em outro lugar. E devemos levar isso em conta ao interpretar o que o Louis Lavelle fala como natural. É claro que, só para mediatizar o termo “natural”, ele poderia escrever cem páginas; ou seja, ele quer dizer aquilo que você vivencia como natural e espontâneo, e não aquilo que é necessariamente natural. Nós não sabemos de fato o que seria simpatia e antipatia naturais.

Houve recentemente um teste — não me lembro em que universidade — para ver se bebês recém-nascidos tinham padrões de beleza. E tinham. Eles tinham atração e repulsa por certas imagens — mostrava-se uma fotografia, eles tinham atração ou repulsa. Logo, existe algo comum, instinto natural de beleza existe. Mas não é deste que o Louis Lavelle está falando, ele está falando daquele que você vivencia como natural e que pode não ser, pode ser inteiramente cultural e pode ser, na verdade, terrivelmente artificial. Do mesmo modo que existe o padrão de beleza, existe o padrão de atração e repulsa, não necessariamente sexuais: a atração que você tem por certas condutas, a admiração que tem por certas pessoas e o desejo de ser aceito em certos grupos. Tudo isso é o mundo de atração e repulsa naturais, no sentido em que o Lavelle está usando a palavra.

Ora, essa atração e repulsa naturais são eminentemente antropofágicas. Elas não têm absolutamente nada a ver com o amor no sentido mais elevado. Você tem atração por aquelas pessoas por obter algo delas, uma satisfação. E mesmo que você não dê nada a elas jamais, mesmo que passe a sua vida só as explorando e usando, você continua tendo aquela atração. Então, alguém diz: “Eu gosto de você.” Bom, você gosta de mim como o cachorro parado diante de um frango de vitrine. O frango está ali rolando e o cachorro está ali [olhando]; ele gosta daquilo. Ele não vai comer aquele frango, porque está fora da possibilidade, mas é o que ele gostaria de fazer. Então, ele está consumindo com os olhos. Muitas vezes o que nós chamamos de afeição na vida é simplesmente isto: uma antropofagia. Será isso a maior possibilidade do ser humano? Esse tipo de afeição qualquer macaco tem.

No outro extremo, está a frase de Jesus Cristo: “A perfeição da amizade é morrer pelos amigos.” E no meio dessas está a famosa frase do Léon Bloy: “O critério da amizade é o dinheiro.” Se eu peço dinheiro para um sujeito e ele me dá, ele é meu amigo; se não [dá], não [é meu amigo]. Isso é terrível, é uma coisa terrivelmente verdadeira, porque a pessoa diz para você: “Eu gosto de você.” “Então me empresta cem reais.” “Ah, não.” “Afinal, quanto você gosta de mim? Você gosta de mim para consumir, porque eu lhe dou um prazer, uma satisfação; porque de algum modo eu reforço o seu ego, só por causa disso. Mas se eu precisar de você, você não vai estar ali.” Isso eu constatei na vida.

(…) Essa atração e repulsa naturais, na melhor das hipóteses, não têm nenhum significado moral. São apenas um fenômeno da natureza, aí incluída a sociedade humana, porque os macacos também têm a sua sociedade, as hienas têm a sua sociedade, as formigas têm a sua sociedade, e dentro de todas essas sociedades, existe atração e repulsa nesse sentido. Por exemplo, se em um grupo de pessoas existe um sujeito que tem certa força psicológica, ele tem liderança, impressiona as pessoas, então metade das pessoas vai adorá-lo, porque de algum modo ele as preenche, e a outra metade vai invejar e querer destruir o cara. Isso é sempre assim.

E nenhuma dessas duas reações tem significado moral, porque a opção, a escolha, a reação, na verdade, é inteiramente determinada pelos interesses orgânicos do indivíduo, interesses psicofísicos, por assim dizer.

Uma outra coisa que eu observei é que as pessoas que são muito inteligentes e muito cultas tendem a achar que todo mundo é muito inteligente, e as pessoas que são mais burras e medíocres tendem a achar que até os inteligentes são burros; elas depreciam as maiores inteligências. Por que isso acontece? Porque se o sujeito é realmente inteligente e culto, ele vê as pessoas não apenas no seu estado atual, mas pelas suas possibilidades interiores. E o outro, ao contrário, mede as pessoas apenas como concorrentes, numa espécie de concurso de prestígio. Portanto, se alguém é burro, o sujeito se sente satisfeito porque é superior ao burro; e se alguém é inteligente, ele tem de demonstrar que o sujeito é burro para não se sentir inferior. Então, este julga as coisas apenas em função do seu interesse. As pessoas que vivem na relação natural e espontânea são 100% egoístas. O que quer que digam, só estão pensando em si mesmas. Isso significa que de fato elas não se comunicam com o outro. Elas o transformam numa peça do seu imaginário pessoal e usam-no para se reforçar, para se satisfazer etc; e quando o outro não serve mais, ela se afasta. Essa relação é, na verdade, amoral na melhor das hipóteses, mas em 99% dos casos é imoral. Se na sociedade humana existisse apenas este tipo de relação, a sociedade seria aquilo que Hobbes descreve como a “guerra de todos contra todos”, porque isso sempre vai terminar mal. Se cada um está buscando apenas o seu interesse, isso vai naturalmente terminar mal.

(…) No outro extremo, o ser humano tem a possibilidade de conceber o outro como um ente espiritual eterno e, portanto, como uma imagem de Deus. E também tem a possibilidade de perceber qual é a diferença que existe entre esta pessoa, como uma imagem de Deus, e esta pessoa no seu estado atual subjetivo. Ou seja: podemos olhar uma pessoa que está 100% envolvida, 100% absorvida no seu próprio interesse orgânico sabendo que ela pode ser infinitamente mais do que isso, bastando que submeta esse interesse orgânico a um “algo mais”. Acontece que este “algo mais” é inconcebível fora da alta cultura. Porque você olha as coisas de acordo com o meio linguístico e simbólico no qual está, que equivale ao seu meio social de referência. Porém, só quando o seu meio social de referência é constituído, não pelo grupo imediato, e nem pelo seu tempo histórico, mas pelo conjunto dos homens melhores de todas as épocas, aí é que você pode conceber as possibilidades superiores, senão, você não pode.

“Ah, mas e a religião?!” Eu digo: se você ler a Bíblia o dia inteiro, isso não vai adiantar nada. Por quê? Porque você vai entender a Bíblia sempre em função daquele seu interesse predominante que é o interesse orgânico, ou o interesse do seu grupo social. Você não verá a coisa na dimensão humana e universal. Ou seja: a aquisição da alta cultura é o único meio que você tem para ter uma conduta moral que preste. Fora disso, você está no mundo da irresponsabilidade moral. Por exemplo, existe um escritor inglês, Frank Raymond Leavis, que dedicou sua vida a mostrar para as pessoas que a literatura de ficção é uma meditação sobre as possibilidades da vida moral humana. Na medida em que concebe enredos e situações possíveis, você está pesando um nível de responsabilidade moral que está presente na infinidade das situações humanas mais particulares e até indescritíveis. Ora, São Tomás de Aquino dizia que o “grande problema da moral é que a regra é a mesma, mas as situações são infinitamente variadas”. Então, você não sabe como entender a regra geral em relação a cada situação. Ao mesmo tempo, você não pode viver todas as situações humanas, mas pode imaginá-las. Você pode ampliar o seu imaginário até ser capaz de compreender as situações humanas, as mais diferentes possíveis, e as mais afastadas da sua experiência imediata. Como é que nós fazemos isso? Por imaginação e pela literatura de ficção. Sem isto, você simplesmente não compreende as situações. Não compreende a delicadeza e a sutileza das situações. Se você não compreende a delicadeza e a sutileza das situações, você vai julgar os seres humanos mediante uma projeção ingênua da sua própria pessoa sobre eles, sem entender exatamente o que está se passando com eles. Portanto, e esse é o ponto, é o cavalo de batalha de Leavis: a existência de um público habilitado a ler e a compreender a grande literatura é a condição de manutenção da moralidade nesta sociedade. E ele tinha toda a razão. Isso quer dizer que para ele a obra de arte literária era exatamente o que era para Aristóteles: uma representação do possível, não do real. Mesmo quando uma obra literária lida com situações reais, como o romance histórico, ela lida não enquanto reais, mas enquanto possibilidades.

Vivenciar imaginativamente as mais variadas possibilidades de vidas humanas, de situações humanas, de dramas humanos, de conflitos humanos, é o aprimoramento da sua imaginação moral, e não há outro instrumento para isso. Portanto, a grande literatura tem uma função eminentemente educativa e, pior: só ela tem essa função educativa. O simples raciocínio lógico, moral, não serve para isso. Mesmo as obras de filosofia moral e de teologia moral mais sublimes que existem, não servem para isso; por exemplo, uma grande obra-prima como a Teologia Moral de Santo Afonso de Ligório, são oito volumes onde ele vai estudando as mais diferentes situações. Santo Afonso de Ligório era bastante detalhado, mas em comparação com a variedade real das situações humanas, aquilo é nada. Ou seja: o pensamento lógico jamais poderia abranger a totalidade das situações, é necessário uma imaginação poderosa, porque através da imaginação você se identifica com a situação do outro. (…) Portanto, é só por imaginação que podemos fazer isso. Mas se nós não ampliamos a nossa imaginação, a nossa capacidade de nos identificar com os seres humanos se reduz àquelas situações corriqueiras que estamos habituados a viver e, pior, interpretamos essas situações em função do nosso auto-interesse.

(…) O tempo que eu vejo as pessoas perdendo, fazendo julgamentos morais sobre coisas que não entendem, é um negócio terrível. Então, por que em vez de fazer julgamentos morais, se tem tanto interesse em moralidade, você não tenta ampliar a sua percepção moral através da leitura das grandes obras de literatura? Não há uma grande narrativa, romance, conto, novela, peça de teatro que não seja baseada num conflito moral. Pelo número de romances, contos, novelas e peças de teatro existentes, você imagina o número de conflitos morais diferentes que podem existir.

(…) A aquisição da grande literatura só tem sentido se você entender exatamente como o Frank Raymond Leavis entendia. Não se trata de contemplação estética, mas da aquisição de uma linguagem que lhe permita conceber a infinidade de situações morais humanas. E por isso mesmo, como ele dizia com toda a razão, se nós perguntarmos: quem são os grandes romancistas? São aqueles nos quais a consciência, a percepção moral é mais aguçada. Invariavelmente são esses. E é justamente para isso que serve a grande literatura.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 017, 01/08/2009.


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