No mundo moderno, depois que uma série de acontecimentos na história do Ocidente foi isolando a religião da sociedade, a palavra religião adquiriu o sentido de uma atividade quase especializada – Olavo de Carvalho

“Charles de Gaulle dizia o seguinte: “O que compõe a identidade de um país são três elementos: língua, religião e alta cultura.” Mas alta cultura é sobretudo a compreensão da língua. Então, nós não temos três elementos, temos dois. E esse cultivo da alta cultura é a religião.

No mundo moderno, depois que uma série de acontecimentos na história do Ocidente foi isolando a religião da sociedade, a palavra religião adquiriu o sentido de uma atividade quase especializada. A religião consiste em você ir à igreja, ler a Bíblia, fazer certos rituais e agir de acordo com certas regras. Isso é religião. E o resto? O resto é cultura, é política, é economia etc. etc., mas isso é religião? Não, isso é a religião tal como os inimigos da religião a definiram. Os primeiros inimigos que a definiram foram os reis, que criaram os Estados Modernos. Os Estados Modernos surgem em função da necessidade de extinguir as guerras de religião. Depois que aparece a Reforma Protestante, a situação vira uma anarquia, estão todos contra todos, e cada um se acredita no direito de matar o próximo em nome de Jesus. A sociedade, naquela época, já não era muito organizada, existia o banditismo, uma desordem infernal, semelhante ao Rio de Janeiro, e com as guerras de religião a situação piora. Então, alguns fulanos decidem que eles têm de criar uma autoridade que esteja acima das dissensões religiosas, e assim eles criam o Estado Moderno. No Estado Moderno, a situação é a seguinte: existe o rei e, ou você segue a religião do rei (se você não seguir você tem de ir embora), ou então, se o rei governar sobre várias comunidades religiosas diferentes, ele está acima de todas elas. Isso quer dizer que a estrutura das leis que compõem o Estado fica colocada acima do critério da moral religiosa. A moral religiosa se torna uma questão pessoal. Embora isso tenha tido de fato a virtude de acalmar as guerras religiosas, porém, mais tarde os Estados Modernos acabam criando guerras piores; essa decisão foi uma falsa solução. As guerras de religião não se comparam às guerras que os Estados Modernos criaram, não tem nem comparação, mas no momento pareceram [equivalentes].

É como aquela história do filme do Clint Eastwood, em que o sujeito se jogou sobre um cacto. Depois estão tirando os espinhos e lhe perguntam: “Por que você fez isso?” E ele responde: “Na hora me pareceu uma boa idéia.” O Estado Moderno também foi assim, na hora pareceu uma boa ideia para acabar com as guerras, mas depois criou guerras muito piores. Além de criar guerras muito piores, na medida em que se cria um Estado acima da consciência religiosa, cria-se uma duplicidade: por um lado, cada um tem sua crença interior enquanto ser humano real, e por outro lado, cada um tem sua crença enquanto cidadão ou súdito.

As consequências intelectuais disso foram absolutamente devastadoras, e uma delas foi a criação da ciência ficcional por Descartes. Outra foi criar a disseminação da falsa biografia. A autobiografia de Descartes é falsa, a de Michel de Montaigne é falsa, a de Maquiavel é falsa. Nenhum deles tem mais aquela sinceridade que se observa na biografia antiga de Santo Agostinho. O gênero autobiográfico nasce com Santo Agostinho, e tão logo nasce, entra em decadência. Eu acho que é só no século XX que se volta a ter a possibilidade de uma autobiografia realmente sincera, como se vê em alguns escritos. O diário [Jeunes Années] de Julien Green, por exemplo, eu acho que é o maior diário que alguém já escreveu, são milhares e milhares de páginas. Ali é possível ver realmente a história de uma alma, tal como se vê em Santo Agostinho. Mas, Os Ensaios de Michel de Montaigne, que são escritos autobiográficos, não são histórias de uma alma de maneira alguma, são histórias de um personagem, uma coleção de disfarces. E a de Jean-Jacques Rousseau, então, nem se fala. E assim, há várias consequências intelectuais absolutamente devastadoras.

À medida que o tempo passa, a religião vai se tornando uma atividade especializada. Ora, antes do advento do Absolutismo, não existia o que se chama hoje política propriamente dita. Havia o direito e a moral. A atividade política consistia no direito e na moral, tanto que se o sujeito quisesse ter uma atividade política fora do direito e da moral, ele podia fazer isso, mas era um ato de força, como, por exemplo, o fundador do reino de Portugal, Dom Afonso Henriques, que matou todos os seus concorrentes e tomou as terras deles. Isso podia acontecer no contexto medieval, mas era considerado ilícito. Ao passo que, a partir do advento do Absolutismo, toda a imoralidade da política tem uma autoridade superior à moralidade da religião. É uma situação nova na história, nós nos acostumamos tanto com isso que achamos natural. Não, isso foi natural na Antiguidade. Eu li o livro do Fritz Kern, O Reinado e a Lei na Idade Média, uma pequena obra-prima, e também o livro do Friedrich Meinecke, A idéia da Razão de Estado, outra obra-prima. Eu comento isso bastante nessas gravações, em outros escritos e no livro A Mente Revolucionária. Ali é possível ver que em Roma, por exemplo, Cícero dizia: “Muitos pecam pelo bem da República.” Eles admitiam que o governante podia fazer certas sacanagens que eram pelo bem do Estado, pelo bem da República. Mas, pelo menos em Roma, eles não entendiam o Estado como uma entidade superior à própria sociedade e superior à cultura. O Estado não era uma entidade jurídica própria, o Estado era a própria sociedade, a República era a própria sociedade. Mas quando surge o Absolutismo moderno, então, essa ideia da razão de Estado antiga vem com uma vingança. O Estado passa a ser uma entidade metafísica. E nós nos acostumamos com isso porque isso já faz quatro séculos ou mais.

À medida que o Estado se constitui como uma entidade independente da religião e da cultura, e superior a ambas, então é claro que a religião vai sendo isolada cada vez mais. Já no século XIX, Jacob Burckhardt falava dos elementos, das forças que determinam a história: o Estado, a religião e a cultura. Ou seja, já se concebia a cultura como uma coisa fora da religião. Mas desde o advento do Cristianismo até 1300-1400, isso era absolutamente inconcebível, porque era a própria religião que criava a alta cultura. E a partir do momento que existe essa ruptura, surge uma “alta cultura” diminuída, criada por membros da aristocracia que já não tinham a cultura escolástica, e nem a compreendiam, e que se achavam superiores a ela pelo simples fato de que não a compreendiam, como é o caso de Francis Bacon ou René Descartes. A perda técnica que houve na filosofia foi absolutamente monstruosa. As pessoas voltam a colocar as questões de uma maneira pueril, como se fossem filósofos do tempo helenístico. Como, por exemplo, colocar a natureza e Deus como se fossem dois elementos que podem ser confrontados. De onde surge esse dualismo entre ciência e religião? Mas é tão pueril essa maneira de colocar as coisas. De fato, não é assim. Nós acabamos de ver, no mínimo, seis camadas de significado que tem o termo “ciência”. Como é que se pode confrontar isso com outro negócio chamado religião? Isso não existe. Isso é coisificar elementos que na verdade são tensionais, conflitivos, contraditórios.

Então, é por isso que as pessoas acham perfeitamente possível praticar religião sem alta cultura, mas estão enganadas. Notem bem: o camponês medieval podia ser analfabeto, mas as ideias dele eram exatamente as de Santo Tomás de Aquino. Havia perfeita continuidade. Hoje não. A religião desligada da alta cultura é uma falsa religião. Ela pode ser verdadeira no seu conteúdo verbal, você está repetindo as mesmas verdades que Jesus Cristo disse, mas o que você está entendendo daquilo é deficiente, é errado, é contraditório, e quanto mais bonzinho você quiser ser, mais besteira vai fazer. Como é possível, por exemplo, que tantos milhões de cristãos tenham aderido, explícita ou implicitamente, até inconscientemente, a uma porcaria como a Teologia da Libertação, que é uma coisa tão falsa e tão imbecil, que não merece sequer a atenção da crítica. A crítica para a Teologia da Libertação é um tapa na cara e pronto. Não vem com essa ideia, porque é tão idiota que não dá nem para começar a conversar. Como foi possível que dentro da Igreja acontecesse isso? Como foi possível que, quando começou a infiltração da Igreja pela KGB nos anos 30, pouquíssimos membros do alto clero percebessem a coisa ou lhe dessem importância? Como puderam ser tão cegos assim?”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 017, 01/08/2009.


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