Você vai se extraindo do julgamento dos outros na medida em que adquire a certeza das suas intenções – Olavo de Carvalho

“A primeira coisa é você reconhecer que quer a integração social, ou seja, ser sincero consigo mesmo. [Dizer]: “Eu estou fazendo certas coisas porque eu quero que certas pessoas me aprovem e gostem de mim.” Na hora em que você sabe que quer que as pessoas gostem de você, já não vai confundir suas motivações, ou seja, aquilo que fizer para obter esse efeito será feito conscientemente com esse objetivo. E então você pode se colocar também, claramente, o problema de quais as condutas que você aceita ter para conquistar simpatia.

Assim que aprender o conjunto de mecanismos para conquistar simpatia, você poderá também julgar o uso desses mecanismos em função de considerações mais altas. Por exemplo, uma coisa que conquista simpatia inevitavelmente é as pessoas perceberem que você está interessado nelas, fazer perguntas sobre elas, fazê-las falar sobre elas mesmas. Ninguém resiste a isso. Faça perguntas que estimulem as pessoas a falar sobre aquilo que elas querem falar. Isso é um mecanismo muito simples de conquistar simpatia, e ao mesmo tempo já tem um sentido moral embutido, porque você não pode fazer isso se não tiver um interesse genuíno pela pessoa. Então você verá o seguinte: primeiro você quer conquistar simpatia; para conquistar simpatia, é preciso mostrar interesse pelas pessoas. Só que se você estiver interessado nelas só para conquistar simpatia, não está verdadeiramente interessado, o seu foco de atenção não são elas, mas você, então vai falhar. A prática disso o ensinará a ter interesse genuíno pelas pessoas. Ou seja, eu não preciso pensar na simpatia. Por quê? Porque ela está implícita, eu vou ter simpatia de qualquer maneira. Se eu estiver realmente interessado em ouvir a pessoa, ela vai simpatizar comigo mesmo que eu não esteja pensando nisso; então para que eu vou tentar conquistar simpatia, se a simpatia já vem embutida? Então o foco se desloca da conquista de simpatia para o interesse genuíno, e assim [acontece] em muitas outras coisas. Ou seja, vai havendo uma mudança do eixo da conduta, e então você vai ver que não vale a pena o esforço pela simpatia que você quer conquistar, porque ela é muito fácil.

Por exemplo, eu tenho uma teoria: não existe amor não correspondido. Eu digo isso e as pessoas às vezes não entendem. O seu amor é não correspondido quando você está morrendo de dó de si mesmo porque aquela pessoa não lhe deu atenção. Então você está mortalmente apaixonado por si mesmo, está cuidando de si mesmo, e assim é claro que a mulher nem vai dar atenção a você. Mas se você tiver verdadeiro amor por ela, quiser o bem dela, quiser a felicidade dela e esquecer de si, ela vai amá-lo de qualquer jeito. É irresistível. Então o problema não é “como vou conquistar o amor da fulaninha?”, mas “como vou amá-la verdadeiramente?” Na hora em que você tiver isso… é irresistível; só se ela for uma pessoa totalmente pervertida e louca. Tem gente que é assim, tem duas ou três que são assim. Cuidado com essas.

(…) Através da cultura você vai esquecendo de si mesmo e passa a ter preocupações maiores que o abrangem e que resolvem aquelas primeiras: é assim que faz a passagem. Então você sai do subjetivismo da adolescência na hora em que perceber que tem verdadeiro amor por uma pessoa, ou por várias pessoas, não só no domínio sexual, evidentemente. E note bem: se você tem verdadeiro amor e esse amor é rejeitado, você não se sente deprimido, não se sente diminuído, você fica é com dó da pessoa e diz: “Mas que cretina. Eu aqui oferecendo amor e ela não quer, ela quer se ferrar. Que se dane, não estou aqui para perder tempo com idiota.” Ou seja, à medida que a sua preocupação vai subindo, você vai perdendo aquele medo, aquele temor de não ser aceito, de não ser gostado. Ser gostado é a coisa mais fácil do mundo. Por que perder tanto tempo com essa besteira? Não precisa. Tenha um interesse genuíno, tenha um amor verdadeiro pelas pessoas, e elas vão gostar de você; e se não gostarem, aí você vai ter a certeza de que são idiotas. Em suma, aos poucos, você vai se extraindo do julgamento dos outros na medida em que adquire a certeza das suas intenções. Não é que você vai desprezar a opinião dos outros — a gente nunca deve desprezar a opinião do outro —, simplesmente você não precisa dela porque já sabe o que está fazendo.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 17, 01/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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