Schelling tinha razão quando ele disse que na passagem da escolástica para a filosofia moderna, a filosofia se puerilizou de alguma maneira – Olavo de Carvalho

“Platão e Aristóteles criaram as bases da filosofia e nós não temos o direito de voltar abaixo do nível que eles criaram. (…) Eles podem cometer, por exemplo, um erro de informação: você tem uma informação deficiente sobre alguma coisa, então você tira conclusões erradas porque a informação está deficiente. Podem cometer um erro de lógica: você está fazendo uma dedução, tropeça no caminho por distração e tira uma conclusão errada. Podem, ainda, cometer erros de generalização: você tem um mostruário mais ou menos deficiente, pequeno, mas você não sabe que é pequeno, então generaliza e a partir daquilo tira conclusões erradas. Todos esses erros eles podem ter cometido, mas erros de trocar categorias, trocar predicáveis, trocar causas próximas com causas remotas, isto eles não fizeram. E todos os filósofos da modernidade, praticamente sem exceção, fazem isto. Essa é uma das coisas que me leva a crer que Schelling tinha razão quando ele disse que na passagem da escolástica para a filosofia moderna, a filosofia se puerilizou de alguma maneira.

Se a lição da filosofia clássica não foi realmente aprendida, você vai baixar de nível, vai enfocar no problema de uma maneira que não precisa, porque você está cometendo algum erro que Platão e Aristóteles já resolveram. Como disse alguém: “Isso aí é que astravanca o pogresso” — assim não vai. Se você voltar atrás e fizer a mesma burrada de novo, nós nunca sairemos do mesmo lugar e não chegaremos à conclusão alguma. A primeira obrigação do estudioso de filosofia é não deixar a bola cair, isto é, você não ir abaixo do patamar alcançado; você pode ir adiante, pode ficar no mesmo lugar — confirmar o que eles disseram —, ou descobrir algo a mais.

Eu vejo que, principalmente a partir da Renascença, os filósofos viviam com a ideia de que iriam superar Platão e Aristóteles, sendo que geralmente o que eles faziam era ir pra trás, abaixo do que Platão e Aristóteles já tinham alcançado. O exemplo mais característico disso é Francis Bacon — já mencionado na outra aula — que tinha um conhecimento tão primário e besta de Aristóteles, e o seu modo de entender Aristóteles é tão pueril, que quando diz que vai superá-lo, ele faz duas coisas: ou ele repete Aristóteles sem saber que é Aristóteles, ou comete alguma burrada que Aristóteles jamais cometeria. A primeira burrada é tomar a experiência como instância suprema de julgamento em todas as circunstâncias ; dizer que só a experiencia é o juiz supremo é impossível! O número de coisas que nós podemos averiguar pela experiência é sempre mínimo. Para nós podermos fazer uma única experiência, por nossa própria conta, nós precisamos confiar em tantas coisas que nos foram legadas pelas gerações anteriores, que a experiência vai apenas complementar isso aí; ela nunca pode ser o centro do conhecimento porque é impossível. Aquilo que nós conhecemos por experiência é apenas uma fração daquilo que nós podemos imaginar e conceber, e que só conhecemos por experiências ou narrativas de terceiros.

Se a experiência fosse o único critério admissível, Francis Bacon não poderia ter dito nem isto, porque não há nenhuma experiência que confirme que ela mesma é o juiz supremo do conhecimento. Não é possível provar isso por experiência, que, aliás, prova precisamente o contrário. A experiência histórica mostra que só raramente ela é o juiz supremo, porque a experiência de cada ser humano é muito limitada, e sem a experiência transmitida — sem a herança cultural — nós não podemos sequer começar a pensar. Como é que você vai ignorar toda a herança cultural e decidir que não vai acreditar em mais nada, somente naquilo que você conhece por experiência? Fazendo isso, você vai voltar ao nível do Homem de Neandertal, pois dali para frente houve tanta experiência que você jamais poderá refazer, e que, ou você confia nesse legado, ou você não vai sair do lugar.

Isso que eu digo é uma coisa tão óbvia que Aristóteles jamais poria em dúvida; ele sabia que existem várias fontes de conhecimento e que, embora sendo de confiabilidade diferente, todas elas são necessárias. Ele sabia, por exemplo, que quando você toma determinada questão para investigar, você nunca é o primeiro, porque para uma questão chegar a se tornar uma questão pensável é preciso haver muita experiência acumulada; precisa haver uma massa crítica de discurso em torno daquilo para você poder começar a investigar. Então o que Aristóteles fazia? Ele começava sempre procurando todas as opiniões anteriores sobre o mesmo assunto e as articulava e catalogava. “Todo conhecimento depende de algum outro conhecimento”, ele próprio disse. E os primeiros conhecimentos? Esses estão arraigados na noite da sua percepção infantil, e você não lembra mais disso aí, não sabe onde começou o conhecimento.

Tanto a ideia cartesiana da tábua rasa — duvidar de tudo —, quanto a ideia do Bacon de testar tudo pela experiência, são tão inviáveis que só uma criança pode pensar nisto: “Agora vou duvidar de tudo e só vou acreditar naquilo que pode ser provado” ou “Penso, logo existo”. Tem um sujeito que pensa e outro que existe… prove que é o mesmo. Estão vendo como vocês já tem de acreditar em alguma coisa sem prova para poder provar algo?

Essas negações pueris da herança cultural não levam a parte alguma, elas são bravatas, fanfarronadas. Toda a filosofia de Descartes e Bacon são baseadas em uma fanfarronada pueril que eles mesmos não podem realizar. Se fosse por inexperiência, nós poderíamos perdoá-los. Os pré-socráticos, por exemplo, quando estavam tentando especular algo, falaram muita besteira, mas eles foram os primeiros a lidar com o assunto, então estão perdoados. Mas quando Descartes e Bacon chegaram, a filosofia já tinha quase dois mil anos — Aristóteles é de 400 anos a.C..”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 018, 08/08/2009.


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