Se o ser humano não tivesse uma capacidade de conhecimento que vai infinitamente além da sua capacidade de prova, ele jamais saberia nada – Olavo de Carvalho

“Como acreditar somente naquilo que se tem prova, sendo que, para obter a prova de algo, você precisa acreditar em um milhão de outras coisas sem prová-las? Como é que acreditam em uma besteira desta? A começar pelo fato de raciocinar em uma determinada língua que não foi você que inventou. Você sabe exatamente a conexão entre as palavras dessa língua e a realidade? Não sabe; então, você está tateando, está andando no escuro.

Se o ser humano não tivesse uma capacidade de conhecimento que vai infinitamente além da sua capacidade de prova, ele jamais saberia nada! É justamente esta capacidade de conhecer sem provas que é decisiva. Afinal de contas, para que serve a prova? Ela só serve para outra pessoa. Por exemplo, se você viu um sujeito matar outro, e foi a única testemunha do crime. Como é que você vai provar o seu testemunho? Você não tem a prova porque você [mesmo] é a prova, é um elemento de prova. Se você colocar em dúvida para si mesmo o seu próprio testemunho e exigir de você mesmo uma prova, você não pode dá-la. Se você começa por exigir uma prova, você trava o mecanismo da própria prova — sempre se prova uma coisa a partir de outra que já está provada ou que é autoevidente. Exigir uma prova de tudo o paralisa na mesma hora.

Do mesmo modo, qualquer experiência que você tenha depende de todo o seu conhecimento acumulado, do qual não se tem prova alguma. A prova é apenas um complemento do conhecimento, e exigir prova de tudo é uma coisa tão anormal e tão louca que seria motivo suficiente para internação. Se você duvida de tudo é porque já está possuído por um sentimento de que tudo é um engano, que tudo são aparências enganosas e que o único sujeito confiável é você. Você acha que isso é normal? É um bom começo para a filosofia? O sujeito primeiro fica louco e depois inventa uma filosofia para sair da sua própria loucura. Isso não é um bom meio, com isso você cria um falso problema.

A falta de confiabilidade de tudo não é um problema de maneira alguma, porque para você dizer que desconfia de tudo é necessário já confiar em tudo, você tem de confiar em várias coisas. Quando Descartes fala “penso, logo existo”, ele pode chegar a esta conclusão porque ele já partiu desta mesma conclusão, ele já sabia disto desde o início, senão jamais chegaria até ela.

A prova é um elemento do discurso e não da percepção; não existem provas na percepção, só existem dados. A prova não entra no exercício do conhecimento, mas no exercício da discussão, ou seja, na transmissão do conhecimento. Se vi algo, não preciso provar aquilo porque eu sei, mas se eu digo aquilo para uma segunda pessoa, ela tem o direito de duvidar; então, eu tento provar, mas posso não consegui-lo. A prova é um elemento que diz respeito, sobretudo, ao convívio social e não ao conhecimento. Se você só quiser conhecer aquilo que possa provar e possa tornar, por assim dizer, obrigatório para os outros, você não saberá nada na vida. Saber é saber o que os outros não sabem, e saber coisas que, na maior parte dos casos, você não vai poder transmitir aos outros. O que você pode transmitir é uma fração do que você sabe, viu, acumulou etc.

O que acontece se nós reduzirmos o conhecimento humano a esta fração comunicável? Você tem um universo de discurso que está gravado em livros, DVD etc., e isto constitui uma espécie de microcosmo, que comparado ao mundo real é nada, é um zero. É preciso saber em qual dos mundos você quer penetrar: o mundo do conhecimento ou o mundo real. O mundo do conhecimento é uma ferramenta para chegar ao mundo real, mas ele tem seus próprios problemas internos, suas dificuldades internas, e você pode estacionar ali e ficar nelas o resto da sua vida sem jamais chegar a conhecer nada da realidade.

Todas essas dificuldades aparecem logo no início de uma carreira de estudante de filosofia, porque a tradição filosófica moderna já coloca tudo isso em cima de você.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 18, 08/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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