O negócio não é estudar a filosofia de Platão e Aristóteles, é estudar a realidade usando as dicas que eles te deram – Olavo de Carvalho

“Quando você vai ler Platão e Aristóteles, você já os lê com os olhos dos seus intérpretes modernos, que podem criar muita confusão. Primeira dificuldade: o intérprete moderno está interessado na filosofia de Platão e de Aristóteles, e não na realidade que eles examinaram — as filosofias de ambos são objetos de investigação. Platão nunca estudou a filosofia de Platão e Aristóteles nunca estudou a filosofia de Aristóteles. Eles estudaram a composição do Estado, a natureza da percepção, a estrutura da realidade e mil outros assuntos; eles jamais estudaram a sua própria filosofia. Agora, se ela própria se torna objeto do seu conhecimento, então [aí está um problema].

A filosofia de Platão e de Aristóteles, por mais completa que seja, não pode ter abarcado toda a realidade que eles conheciam, ela é constituída apenas de fragmentos. Ela jamais fará sentido se tomada sozinha, como conjunto, sem ter-se em conta a realidade da qual ela partiu; ela não completa nada, e você ficará o resto da vida levantando problemas sobre a coerência e a integridade da filosofia de Platão e Aristóteles que você jamais chegará a resolver. Essas coisas não têm solução! Ninguém pode fazer uma filosofia tão completa, que ela possa ser compreendida fazendo-se a abstração da realidade que ela investigou. Então, se você presta atenção demais à filosofia de Platão e Aristóteles, você fica louco! Porque o negócio não é estudar a filosofia de Platão e Aristóteles, é estudar a realidade usando as dicas que eles te deram — é só isso. Nenhum filósofo pretende ser completo, completo é só o universo real — na verdade, completo é só Deus, nem o universo é completo.

Durante o século XX inteiro houve um debate: a filosofia de Aristóteles é coerente e tem unidade desde o começo, ou Aristóteles mudou de ideia e passou por etapas? Sabem qual é a conclusão que chegaram até hoje? Nenhuma. Nem vão chegar, porque você olhando de um jeito parece de um certo modo, e olhando de outro jeito parece de outro modo.

Será que foi para isso que Aristóteles teve todo aquele trabalho? Se ele estivesse interessado nisto, ele teria escrito um livro chamado Aristóteles, ou um livro chamado O Pensamento de Aristóteles, mas ele nunca escreveu. Ele escreveu sobre os meteoros, a física, política, moral, conhecimento, mas nunca escreveu sobre a filosofia de Aristóteles. Então, é claro, a filosofia de Aristóteles não pode ser o objeto do nosso estudo — nunca! Isso é uma coisa de uma alienação tão terrível, que pode danificar um cérebro humano para o resto da vida! Ou seja, nós temos de estudar Platão e Aristóteles tendo em vista as coisas, as realidades da vida das quais eles falaram. Se não tem acesso direto a essas realidades, você pode tê-lo através da imaginação. Você lê outras coisas, obtém as informações necessárias sobre os assuntos dos quais eles estavam falando e, através disso, vai fazer uma série de analogias com a sua própria experiência real. [Assim], você vai entender de que eles estavam falando, sem nunca ter certeza de que você é o detentor da interpretação exata. “Eu cheguei aqui na interpretação exata da filosofia de Aristóteles” — nem Aristóteles nem Platão jamais lhe pediram isso, e se pedissem seriam completamente loucos.

Oitenta por cento da atividade acadêmica no mundo e nos centros de estudo mais sérios que há, consiste em esmiuçar textos de filósofos para chegar a uma interpretação exata do que eles estão falando, ou seja, é uma atividade terrivelmente alienante. Vejam que nas ciências físicas não há esse problema. No caso da teoria da relatividade, por exemplo, as pessoas não estão interessadas no texto e na obra em que Einstein expôs a teoria, eles estão interessados em saber se ela funciona no mundo real. Considerando a totalidade dos físicos que existe no mundo, quantos deles estudaram a teoria da relatividade no original de Einstein? Só dois ou três! A maioria estudou de segunda, terceira ou quarta mão! Eles não estão interessados na precisa interpretação do texto, mas na sua aplicação ao mundo real — e em filosofia deveria acontecer a mesma coisa, porque ela também está falando do mundo real.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 18, 08/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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