A função desses estudos é precisamente fazer com que o seu meio de referência não seja nem o seu meio imediato e nem a opinião dominante – Olavo de Carvalho

“Em todas as discussões públicas, sejam de domínio político, cultural ou científico, nota-se que a autoridade imediata à qual se apela é realmente a da opinião majoritária — a chamada mainstream opinion. É a opinião dominante entre as pessoas que aparentemente sabem do assunto.

Para Aristóteles, a opinião dominante era o começo do problema. O que ele fazia era pegar, antes de tudo, a opinião dominante e usá-la como material para investigar o assunto. Ou seja, o que interessa na opinião dominante são, justamente, os seus aspectos problemáticos e opositivos. Dentro da opinião dos sábios, como ele chamava, nós temos de explorar, sobretudo, as divergências, porque elas nos mostrarão os vários aspectos do objeto que chamaram a atenção das pessoas que nele prestaram atenção, e isso nos dá uma dica sobre quais são as perguntas que nós devemos fazer sobre um objeto.

Hoje em dia, a opinião dominante é tida não como o começo da investigação, mas como o seu fim, como a sua solução, e quando as pessoas se afastam dessa opinião dominante, elas se sentem inseguras e têm medo de parecer ou de, até mesmo, ficar loucas.

Vocês vejam o efeito que teve na nossa sociedade a formação e a atuação dessas sociedades de pensamento a partir do século XVIII. Elas conseguiram criar um mecanismo de intimidação que inibe a mente humana de modo que ela não pode nem começar a investigar o assunto. Se você aceita que tais ou quais assuntos já são conhecidos e que as pessoas letradas, as pessoas cultas ou as pessoas importantes já sabem a solução daquilo, a sua inteligência [já] bloqueou na mesma hora. Você não pode nem começar a pensar, não pode montar a questão dialeticamente.

O que estou assistindo aqui nos EUA, com relação a esse problema da certidão de nascimento de Barack Obama, eu acho muito impressionante porque não há prova documental de absolutamente nada. Então, o que é certo? Ninguém sabe nada! E se ninguém sabe nada, qual é a atitude razoável? Colocar um ponto de interrogação e deixá-lo ali até que a coisa se resolva.

Quando vemos a facilidade com que as pessoas proclamam como uma certeza absoluta: “Barack Obama nasceu no Havaí no dia tal, é filho de seu fulano etc.”. Desculpe, mas como você sabe? De onde vem essa sua certeza? É incrível! Agora, se escapa dessa certeza, você é tido como louco. E pior é que como você é tido como louco, você começa a agir como louco mesmo, porque a insegurança que essa sociedade de pensamento inocula penetra dentro de você. Não é porque você está contra elas que você está habilitado a enfrentá-las. Para se opor efetivamente a uma opinião dominante, você precisa tê-la superado realmente, ou seja, não precisa depender dela por mais mínimo que seja, e isso só é possível se você tiver seguido o método de Aristóteles: você vai partir da opinião dominante, vai examiná-la e vai usá-la como material para equacionar o problema. Daí você não depende mais dela, porque sabe que a opinião dominante não é a instância julgadora, [mas] é parte do problema. Aliás, ela é o começo do problema. Fora disso, se você está simplesmente contra essa opinião e não gosta dela, ainda assim pode estar raciocinando de acordo com o parâmetro que ela lhe prescreveu — ela vai afirmar uma coisa e você vai afirmar o contrário dela. E o problema pode não ser realmente esse.

Aqui nos EUA, a opinião dominante é obamista, então o importante para eles é reforçar tudo o que dê uma credibilidade, dê uma legitimidade ao Obama como presidente da república. O que o outro lado fez foi negar a legitimidade, mas eles também não podem fazer isso, porque não têm elementos para negar; eles só têm elementos para perguntar. Se não tem uma prova séria de que o Obama nasceu exatamente onde ele diz que ele nasceu, você também não tem uma prova de que ele nasceu em outro lugar.

Quando examinei tudo isso, eu perguntei: “Do que nós temos prova, qual a única coisa substantiva que temos?” Pensei, examinei e concluí que só temos uma coisa de substantivo, que é o alistamento militar do Obama, assinado em 1988 num formulário que só foi impresso em 2008. Então, nós temos uma prova material do que chamaremos no Brasil de falsidade ideológica. O sujeito falsificou um documento, disso nós sabemos. Eu não sei se ele nasceu no Havaí, se nasceu na Bahia, se nasceu no Quênia ou se nasceu no “raio que o parta” — ninguém sabe isso, ninguém! E quem quer que diga que sabe, está mentindo. E quem diz que sabe que ele nasceu no Quênia, também está mentindo, pois ninguém tem prova disso. Mas o alistamento militar está provado! Então, qual deveria ser o centro do debate? Este aqui, porque este dá para resolver. No entanto, ele foi o menos discutido até agora.

Eu acredito que haja algo de falso na certidão de nascimento originária dele, ou algo de comprometedor. Por quê? Porque eu sei que ele já falsificou um documento — quem fez uma, faz duas. Então, eu sei que nenhum documento de Barack Obama é confiável — esse é o ponto. Mas, quando o pessoal dos chamados birthers decidiram se apegar à questão da nacionalidade e da legitimidade, transformando, portanto, o debate numa questão de direito constitucional, eles reforçaram o adversário. Por quê? Se pode alegar contra um sujeito um crime de falsificação material, se pode alegar contra ele o código penal, para que você vai alegar o direito constitucional? Se a discussão está na esfera do direito constitucional, não está na esfera do crime, está numa esfera muito mais elevada, muito mais elegante. Você está apenas questionando o direito dele ser presidente da república, enquanto que questionar o lado penal seria questionar o direito dele andar na rua — ele teria de estar na cadeia!

Mesmo as pessoas que odeiam a opinião majoritária são influenciadas negativamente, no sentido de que você tende a se opor mecanicamente a ela. De certo modo, ela está determinando o repertório dos seus pensamentos, e você vai ser vítima dela de qualquer maneira.

Infelizmente, eu mesmo percebi isso demasiado tarde. Eu só percebi acho que dois ou três dias antes da eleição. O problema do alistamento militar estava bem na minha frente havia já uns dois meses, publicado na coluna da Debbie Schlussel e, de repente, eu me toquei: para que levantar contra o sujeito uma acusação duvidosa se tem uma certa?

De onde veio esse erro? Por que as pessoas erraram nisso? Esse caso é muito, muito ilustrativo de tudo que eu estou dizendo. Eles pegaram o problema na categoria errada, porque todo o problema já aparece para eles como uma questão eleitoral. Portanto, trata-se do exercício regular de um mecanismo usual da democracia, que é a eleição. Então, naturalmente, você vai enfocar aquilo como um problema eleitoral, e, dessa forma, [como] um problema de legitimidade. Se é um problema de legitimidade, então se trata de uma questão que é também normal no processo eleitoral democrático. Por que é normal? Tinham acabado de examinar os documentos de John McCain, que nasceu numa base americana no Panamá. Assim, questionaram se ele tinha legitimidade para ser candidato; e ele provou que tinha, porque a base americana é território americano — e ponto final. Mas ele teve de provar tudo.

No caso do Obama, houve uma inibição de fazer o mesmo exame. Por quê? Porque não havia uma prova de que ele tinha nascido em outro lugar, havia apenas uma dúvida. Então, eles escolheram, por lapso, o argumento mais fraco, que é o argumento da legitimidade. Você vê, assim, como o domínio que um certo grupo de pessoas — um grupo enorme evidentemente, mas um grupo no fim das contas – tem sobre a opinião majoritária, limitando o pensamento de todo mundo, inclusive daqueles que odeiam isso.

Ora, para você sair disso, é preciso um processo que chamamos justamente de uma “desaculturação”, quer dizer, você precisa sair de dentro da sua cultura e começar a ver com olhos de outras. (…) Você tem de sair da sua cultura não geograficamente, mas temporalmente, historicamente — olhar com olhos de outros tempos. E quando faz isso, você frequentemente descobre que aquilo que é incompreensível pelo olhar de hoje é facilmente compreensível, às vezes, para um filósofo de outras épocas.

Coisas que parecem enigmáticas para nós seriam facílimas para Platão ou Aristóteles, porque eles já tinham entendido isto. Então, você se desacultura, deixa de ser uma vítima da pressão da sua própria cultura, na medida em que absorve o legado de outras épocas e incorpora na sua pessoa, de modo a dizer: “Eu não sou mais um homem de minha época, eu sou um homem de qualquer época; eu estou tão à vontade na Grécia [Antiga] quanto agora”. Na Grécia, ou na Ásia, ou na Índia — “Eu não estou preso a essas categorias”. A função desses estudos é precisamente fazer com que o seu meio de referência não seja nem o seu meio imediato e nem a opinião dominante, o mainstream. Tem de ser a opinião dos sábios de todas as épocas, o olhar dos mestres, de que falava São Tomás de Aquino. É perante esses que eu não quero fazer papel de louco.

Mas, e perante o New York Times ou perante a universidade de Harvard? Esses são crianças e nós não podemos respeitar a opinião deles, [porque] é gente inculta, na verdade. Se você verificar o debate público americano — não o brasileiro, pois está fora do páreo —, verá que todo ele é empreendido por intelectuais de médio porte, o pessoal do nível da mídia. Não são intelectuais “peso-pesado”, que praticamente não existem mais — existem dois ou três, mas a conexão orgânica entre os formadores de opinião e os grandes intelectuais acabou. Se você recuar, por exemplo, até os anos trinta ou quarenta, vai ver que qualquer jornalista que discutia literatura sabia que tinha de prestar atenção no que estava falando, porque estava ali o T. S. Eliot olhando para ele, o F. R. Leavis, o Ezra Pound, e, portanto, tinha que ter cuidado no que ia falar. Acima da intelectualidade falante havia intelectuais de primeiro plano, o que, hoje nos EUA, não há mais — no Brasil não se vê nem a camada média, [pois] é toda constituída de analfabetos.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 18, 08/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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