Os meios de comunicação de massa, que no início do século refletiam a alta cultura, começou a moldá-la, prenunciando o fim da alta cultura – Olavo de Carvalho

“Nos anos 70, eu escrevi um texto chamado “Imprensa e Cultura”, e eu tinha começado a observar que os meios de comunicação de massa, que no início do século refletiam a alta cultura, estavam começando a moldá-la, prenunciando o fim da alta cultura. Quer dizer, se tudo o que você fala tem de ter uma tradução jornalística direta, se cada estudioso já tem de falar para o público em geral, está tudo acabado!

O normal é o pessoal da alta cultura falar para os formadores de opinião, e os formadores de opinião falarem para a sociedade — essa seria a hierarquia normal. Não faz sentido dizer tudo isso que falo para vocês em artigos de jornal. Primeiro, porque não há espaço; e segundo porque esse tipo de coisa você fala para quem vem perguntar — a gente dá o estudo para quem quer estudar. Você não pode sair batendo de porta em porta e pedindo que “estudem, pelo amor de Deus!”. Você vai estar prostituindo o seu material, porque ele vale alguma coisa, e vale para quem pede: “E trata de pedir com educação, senão eu te mando embora. Não precisa pagar muito dinheiro, pode pagar baratinho porque nós não vamos fazer aqui seleção econômica. Mas a seleção é pelo desejo do coração. Eu quero ver a sua sinceridade. Se estiver sinceramente empenhado para aprender, eu faço tudo para você aprender, eu gasto meu tempo, meu dinheiro, tudo, tudo, tudo. Agora, se você vem com treta pra cima de mim, dou-lhe um pé na bunda que você vai parar lá em Vila Nhocuné. Não vou perder meu tempo com vagabundo.” Então, não vou ficar vendendo isso barato na mídia, não dá para fazer.

Eu fiquei mais de trinta anos no jornalismo, conheço muita gente. Não conheço muito bem o pessoal novo, mas os chefes deles, os chefes de redação, a elite jornalística, eu conheço toda. Se considerarmos a classe jornalística inteira, quantos destes estão habilitados a serem meus alunos? Nenhum. Eu não tenho os formadores de opinião para os quais falar, [porque] eles não têm a capacidade de acompanhar o que eu estou falando. Se me disserem que, agora, eu vou dar aulas para o Luís Garcia, de O Globo… Deus me livre! Lavar a cabeça de burro? Ele não tem capacidade para entender o que eu estou falando, nem para ler os livros do que eu estou dizendo. Você acha que o Luís Garcia é capaz de ler um livro de Aristóteles? Ou Edmund Husserl? Nunca, então acabou. Os formadores de opinião, que deveriam ser pessoas de formação universitária superior, embora não capacitados para exercerem as funções superiores, não têm a capacidade suficiente nem mesmo para acompanhar esses estudos passivamente.

No Brasil, essa situação é muito mais dramática, mas aqui [nos EUA] essa camada de intelectuais médios ainda existe, e este é o público para os quais falam os filósofos, os grandes escritores etc. Só que hoje não há mais os grandes filósofos, os grandes escritores — eu não vejo pensamento criativo. Aqui, tem-se um alto nível de muitas coisas, mas é só manutenção. A coisa realmente criativa não há. A única coisa criativa que eu vi sair da universidade foi esse livro que eu citei do Reinhard Koselleck, que é alemão e não é americano. Mesmo o pessoal do Eric Voeglin, que é quem tem o mais alto nível de conhecimento e erudição, não tem força criativa. Eles não são capazes de interpretar a situação atual de uma maneira profunda e séria, tendo aquela incerteza que tornam muitos deles dependentes da opinião dominante, ainda quando não concordem com ela.

A opinião perante a qual você não tem de aceitar passivamente, mas a cujo julgamento você tem de se expor, são as dos seus gurus: Aristóteles, Platão, São Tomás de Aquino, Duns Scot, Leibniz — é este nível. Eu não quero conversa com quem está abaixo disso, não quero nem saber a sua opinião. “Ah, mas o David Horowitz disse isso, o fulano de tal disse aquilo.” E daí? Não são autoridades para mim. Existe autoridade intelectual, sim, mas você tem o direito de escolher a autoridade intelectual ao qual você presta satisfações. Eu aprendi com o meu professor Padre Stanislaus Ladusãns. Quando ele pegava um problema, ele olhava-o sob todos os ângulos que os filósofos verdadeiramente grandes tinham enfocado, montava o problema a partir da opinião dos verdadeiramente sábios, e daí dava a solução dele. Quando eu vi o homem fazer isso, percebi que esse é o método.

Para chegar à verdade, você tem de aprender com quem sabe, não com a opinião dominante. Se você vai com a opinião dominante, vai parar muito mais longe da realidade. Quem, na década de 80, dizia que a União Soviética ia cair? Ninguém. Ao contrário, teve o livro do Paul Kennedy, Ascensão e Queda das Grandes Potências, que provava por “a” mais “b” que a economia americana iria para o brejo e a economia russa iria florescer — e o livro fez um sucesso desgraçado, todo mundo leu. Quando aconteceu o que aconteceu, o que fez o Paul Kennedy? Pôs a cabeça na privada e puxou a descarga? Não, ele está aí dando palpite até hoje. [É] isso que é a opinião dominante, são essas pessoas que a fazem. Não viram aquela besta quadrada, Kenneth Maxwell, dizer no CFR que não existia Foro de São Paulo nenhum? Agora o que ele fez? Meteu a cabeça na privada e puxou a descarga como deveria, sendo rejeitado até pelos cocôs? Não, está aí dando palpite, cagando regra. Esta gente é que faz a opinião dominante. Como eu posso levar a sério essa cambada? Como eu vou parecer normal a eles? Eu não estou tão louco assim, que eu precise que eles confirmem a minha normalidade. Quem precisa perguntar para o outro se está louco é porque está louco sim. Se você está em séria dúvida sobre a sua sanidade a ponto de precisar que a maioria prove que você não está, é porque você está realmente louco. Então, a própria preocupação de provar que não está louco mostra que já está. Como é que nós vamos levar isso a sério?”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 018, 08/08/2009.


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