Se você não tem os meios de você mesmo povoar o imaginário do seu filho com coisas verdadeiras, então ela vai ser povoada com outra coisa, certamente – Olavo de Carvalho

“Se a experiência de uma geração não é condensada em um número suficiente de obras literárias — e portanto teatrais, cinematográficas etc. —, ela não passa para a geração seguinte. E se você como indivíduo tenta passar, não adianta, porque você está falando uma coisa, mas todo o imaginário do seu filho foi formado por outra ideia. Nenhum pai pode concorrer com a televisão, a escola, a mídia, tudo ao mesmo tempo. Você quer aprender a concorrer com isto? Transforme-se, então, em uma potência intelectual que possa mais do que tudo isso, e seus filhos prestarão atenção em você sem que você precise forçar nada em cima deles. Eu não forço nada em cima dos meus filhos e eu sempre fui uma influência muito mais forte do que tudo isso. Você quer saber por quê? Não é por falsa modéstia, mas eu sou mais interessante, tenho mais para dar do que tudo isso. E é assim que eu quero que vocês sejam. Se começou tarde, corra! Agora, não adianta forçar. Se você não tem os meios de você [mesmo] povoar o imaginário do seu filho com coisas verdadeiras, então ela vai ser povoada com outra coisa, certamente.

Porém, se tiver na sua casa uma central de produção intelectual, que está continuamente produzindo novas ideias e dando novos exemplos, você não precisa forçar ninguém. O pessoal vai ir atrás de você. Todo mundo acha que criança nasce instintivamente rebelde, mas eu não acredito que criança seja — eu já falei isso mil vezes. Da onde tiraram essa ideia? Essa é a coisa mais anti-natural que existe! A tendência natural da criança é obedecer pai e mãe, ela só pára de fazer isto se houver algum problema. Você veja, por exemplo, a gata que tem gatinhos. Os gatinhos saem imitando ela; e vão imitar quem? Os seus filhos também vão imitá-lo. Mas se você já acha que eles estão aí para serem rebeldes, se acha que é anti-natural eles lhe obedecerem, então vai ser difícil eles lhe obedecerem.

Eu já dei este conselho mil vezes: dê pouco palpite, interfira pouco na vida dos seus filhos, reserve para eles o máximo de liberdade que você possa. Tudo que eles perguntarem — “pai, pode isto?”, “pai, pode aquilo?” —, você responde que sim. E quando for algo realmente sério, você diz que não pode, para quando você falar um “não”, eles saberem que é pra valer: “Pai, pode dormir sem tomar banho?” “Pode”; “Pai, pode não jantar hoje?” “Pode”; “Pode comer só sorvete?” “Pode”; “Pode andar pelado?” “Pode”; “Posso torcer o pescoço do meu irmãozinho?” “Não, não pode”. “Por quê?” “Porque eu falei não!” E daí a criança concorda. Eu repeti essa experiência com 8 crianças e deu certo.

Outro dia eu ensinei a minha filha Inês como fazer isso com a filhinha dela, a Tetê. A Tetê é uma criatura adorável, só que de vez em quando ela armava um berreiro e começava a fazer chantagem emocional. E a Inês me perguntou como fazer. Eu disse o seguinte: você fala “não” e olha para ela com um olhar assassino. Daí, eu mostrei umas 2 ou 3 vezes como é que se fazia — e até a chupeta caia da boca. Pronto, acabou. Faça isso uma vez por mês e no resto você deixa ela fazer o que ela quiser, do jeito que ela quiser, deixa ela livre e seja você o guarda protetor da liberdade dela. E quando você falar “não”, ela sabe [o que] aquele olhar assassino [significa]: “Epa! Aí acabou, cheguei no limite”. É muito simples. Mas não ponha limite em tudo quanto é lugar. As pessoas querem decidir o que a criança veste, o que a criança come, que horas vai dormir… Por que isto? Está escrito na Bíblia: “Não atormente o seu filho”. E se desobedece a Deus, você vai querer que seu filho obedeça a você? Ora, não dá! Então, dê poucas ordens, interfira pouco e, quando interferir, interfira a favor dele.

Uma vez, a minha filha, quando pequenininha, chegou chorando porque ela estava andando pelada na praia e o vizinho foi dar uma bronca nela. E o sujeito acha que é indecente uma criança pelada? É louco! Se dissesse ao ver a minha mulher andando pelada, aí está bom, está certo. Mas era a minha filha de 5 anos! Daí ela veio chorando: “Ah, o fulano me deu bronca porque eu estou pelada”. Eu estava vendo o sujeito falar com ela, daí eu falei para ela voltar lá e dizer assim: “Meu pai disse que é para você ir tomar no cu”. “Com essas palavras; aprendeu? Repete aí”. E ela foi lá e falou para o cara. O sujeito ficou sem reação e ela continuou pelada tranquilamente. Quer dizer, eu sou o defensor da liberdade dela, eu garanto esta liberdade. Então a criança se sente reforçada, apoiada, tem “costa-quente”. E isso você precisa fazer muitas vezes, precisa garantir a liberdade dela para quando você limitar esta liberdade ela poder respeitar.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 018, 08/08/2009.


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