Todas as chamadas psicopatologias, todos os estados mórbidos da mente, vêm de uma diminuição da atividade psíquica – Olavo de Carvalho

“No livro Psicopatologia Geral — que eu acho um primor de tratado — mostra que a psicopatologia começa como uma espécie de desimaginação, uma perda da capacidade imaginativa. Porque, tal como foi explicado na outra aula, não se pode unificar o real a não ser na esfera imaginária — a razão não tem a capacidade de fazer isso. Por mecanismos racionais, você [não pode] chegar a uma concepção unificada, racional da realidade. Os maiores filósofos vão nessa direção, mas jamais conseguem.

No entanto, uma visão unificada é possível na esfera do imaginário — qualquer cultura tribal tem isto, tem o mito que mostra para ela a imagem do mundo. Se você sai da imagem unificada do mundo, o que quer que você diga é falso, porque se você nega a unidade do real, você está negando o princípio do próprio conhecimento. Teorias altamente elaboradas e racionais na sua estrutura interna se tornam totalmente negligenciáveis, desprezíveis, quando negam nas suas premissas a unidade do real. Então, tudo isso está muito bem feito, mas como nega a unidade do real, eu não vou prestar atenção, porque sem a unidade do real não há conhecimento. Assim, se a sua teoria, por bonitinha que seja, nega essa premissa, eu não posso fazer nada com ela. Claro que às vezes uma aparente negação da unidade do real pode ser apenas uma exploração de aspectos dialeticamente tencionais ou opositivos de dentro da própria realidade. E aí, nesse sentido, vale. Mas nunca valeriam como teoria geral.

No curso que eu vou dar aqui em Colonial Heights em setembro [“Introdução à Psicologia”, setembro de 2009], nós vamos explorar isso melhor, inclusive a investigação da natureza da psique — que é um dos componentes desse curso e que é um negócio que eu vou puxar de uma apostila antiga e atualizar. Vamos mostrar que todas as chamadas psicopatologias, todos os estados mórbidos da mente, vêm de uma diminuição da atividade psíquica — eles são apenas um fator quantitativo. Quer dizer, há menos atividade psíquica e há uma espécie de invasão da mente por outras linhas causais. Por exemplo, quando os seus estados começam a ser mais diretamente determinados por motivações fisiológicas, quer dizer que a psique perdeu o seu dinamismo próprio, houve uma diminuição da atividade psíquica. Eu acho que posso demonstrar isto, eu não tenho certeza, mas acho que posso, e acho que isso simplificaria muitas questões de psicopatologia. Mas eu não vou poder explicar, demonstrar isso agora, porque eu preciso justamente de um curso inteiro para fazer isto.

O aluno pergunta se há diferença entre o sadio e o louco no que se refere à imaginação. Certamente! Quer dizer, a imaginação do sujeito que está doente perdeu o seu dinamismo próprio, ela começa a refletir uma outra linha causal. Na verdade, parece que o sujeito que está delirando está inventando muito, mas ele está é inventando de menos. Tanto que o Lipot Szondi comparava a mente normal a um palco giratório onde os papéis estão sempre mudando, onde os vários impulsos que dominam o sujeito circulam e se modificam conforme a situação real. E de repente existe um travamento, o palco não gira mais, e há uma repetição compulsiva. Se entrou no compulsivo, então a imaginação perdeu a flexibilidade, perdeu riqueza — o louco, de fato, imagina menos, mesmo se for o louco mais criativo que você encontrar. Aquele Bispo do Rosário, por exemplo, que o pessoal diz que era criativo, você vai ver que as fórmulas, que os esquemas geométricos dele são infinitamente repetitivos. Ele tinha um excesso quantitativo de imaginação, mas não tinha flexibilidade.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 18, 08/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui para ver todos os fragmentos do Curso Online de Filosofia.


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