Se o universo é realmente mal, então a base do ser humano pode ser a guerra de todos contra todos, mas se fosse tão mal assim, já teríamos acabado – Olavo de Carvalho

“Tudo que o René Girard escreve existe, mas ele não tem a força explicativa que imagina ter. O fenômeno do desejo mimético, do bode expiatório etc., existem, mas afirmar que eles criaram a civilização é impossível. Você não pode criar todos os valores positivos a partir de um negativo — isso não existe. Por exemplo, eu digo que existe outra força positiva que, assim como Santo Agostinho dizia, é o amor ao próximo, a base da sociedade humana. Ou seja, os fenômenos do desejo mimético e do bode expiatório se dão sobre um fundo determinado pelo amor ao próximo; dão-se como mecanismos parciais que mostram a imperfeição do nosso amor ao próximo. Mas eles por si mesmos serem um mecanismo positivo? É como querer que o rabo abane o cachorro.

Tudo o que o Girard afirma existir em sua obra existe de fato, mas aquilo é uma série de observações antropológicas feitas a partir da interpretação de documentos escritos, não é uma teoria geral. Não chega a ser uma teoria geral, não há nada ali que permita sua transformação numa teoria geral. O que é generalizante ali dentro? O número de exemplos tomados? Se quer-se provar que uma coisa é geral e universal, pode-se somar o número de exemplos que for que não se provará nada, nem se fossem infinitos. A somatória de exemplos só tem o efeito de provar uma generalização se não houver exemplos em contrário. Seria preciso transformar esse tipo de exposição que ele faz, que é sempre uma interpretação de símbolos, numa discussão dialética de exemplos que vão em sentido contrário. Ou seja, [não é] confrontar todos os exemplos em que houve desejo mimético com os exemplos em que não houve, e sim com algum outro fator — um desejo não mimético, por exemplo. Em segundo lugar, é preciso demonstrar que o desejo mimético não é um componente da simples estrutura do amor ao próximo. É preciso criar, [também], a diferença entre o desejo mimético e a inveja que, na minha opinião, não são o mesmo fenômeno: se quero algo porque outra pessoa também o tem, eu posso estar tentando com isso destruí-la ou assimilar uma de suas qualidades. Por exemplo, vocês todos estão aqui por desejo mimético; tudo o que eu sei e que aprendi, vocês também querem aprender e saber. O que há de mal nisso? Precisamos sacrificar um bode expiatório? Não há nada de mal com esse desejo mimético — não faz mal a ninguém.

O aspecto tenebroso que o desejo mimético tem nos escritos do Girard é devido aos exemplos que ele escolheu. E nesses exemplos a coisa tem mesmo um aspecto macabro. Mas aquilo não é uma teoria, e sim um conjunto de fenômenos que existe, embora possa ser encarado de mil maneiras diferentes. Quando o René Girard esteve no Rio de Janeiro, eu lhe perguntei isso — se os seus escritos podem ser encarados de várias maneiras — e ele respondeu que de fato pode. O Girard é muito mais modesto do que vocês podem imaginar. Ele disse: “Só o que eu fiz foi apenas tomar um monte de fenômenos e descrevê-los.” — e tem toda razão.

E a guerra de todos contra todos? Também é um fenômeno. Mas quando começa essa guerra? A sua mãe acabou de dar à luz e já pensa em estrangulá-lo? Não, ela cuidará de você, limpará sua bundinha, lhe dará de mamar com toda a devoção, senão você não cresce em tempo de participar da guerra de todos contra todos. Eu acho que a origem da sociedade — isso eu expliquei no curso de Teoria do Estado —, inclusive a origem da autoridade, é o fascínio do bebê pela sua mãe, baseado no amor que ela tem por ele; sem isso, não existiria nada. Se a guerra de todos contra todos fosse um fenômeno básico, começaria no instante do nascimento. “Ah, mas tem o bebê que disputa o seio com o irmão”, disse Melanie Klein. Para isso ocorrer, é preciso que a mãe tenha, [primeiro], oferecido seu seio. Se ela começa a fazer guerra contra o bebê, não dá tempo dos irmãozinhos fazerem guerra entre si. Então, essas coisas existem dentro de uma base, mas ainda acho que Santo Agostinho tem a razão: a base da sociedade humana é o amor ao próximo.

Estamos tão pervertidos hoje que buscamos explicação para tudo na sacanagem, no mal. Isso é gnóstico. Se o universo é realmente mal, então a base do ser humano pode ser a guerra de todos contra todos, mas se fosse tão mal assim, já teríamos acabado. Minha mãe não fez guerra contra mim; quando nasci, ela não me jogou pela janela. É claro que depois de crescer, eu fiz um monte de sacanagem — uma vez, dei uma bengalada na cabeça do meu irmão. É preciso ter alguma saúde para fazer tudo isso, e esta saúde vem dos cuidados da sua mãe com você — o pai também tem importância, mas a mãe é básica. Qual a primeira encarnação do poder que você presencia? Não é um poder destrutivo e sim um poder benéfico, que lhe dá a vida. É o primeiro sinal que você tem. Qual é a relação do bebê com a mãe? O fascínio da imagem de Deus. É ali que tudo começa. Se você cavar até o fundo, não encontrará a guerra de todos contra todos; para fazer a guerra, há de se ter saúde.

Mas dizer que a base da sociedade humana é o amor ao próximo nos parece às vezes simplório e ingênuo; temos de ser maquiavélicos, há de haver sacanagem por trás de tudo — isso sim é ingenuidade. A guerra de todos contra todos existe, mas não é a base da sociedade humana. É preciso que a última exista para haver guerra de todos contra todos. Até para que haja a guerra de um contra um, é necessária a existência da sociedade, caso contrário é impossível. O Dr. Freud, o Wilhelm Reich, os antropólogos, todos procuram uma grossa sacanagem na origem das coisas. Meu Deus do céu, não foi nada disso! Foi um Deus amoroso e bondoso que criou tudo na base do amor ao próximo, e depois de vocês terem estragado o negócio, tentam encontrar uma sacanagem divina por trás. Isso é gnosticismo do brabo, é inviável e impossível. Se há uma coisa impossível é a origem da sociedade na guerra de todos contra todos. Quem deu comidinha para eles chegarem lá e fazerem a guerra? Para que fosse assim, a guerra teria de ter começado logo após o parto: a mulher pare a criança e já começa a enchê-la de porrada, joga-a no chão… É assim que se faz? Não. Quando alguém é ruim, não lhe falamos “você não teve mãe!”? Se você teve mãe, ela deve ter lhe dado pelo menos um pouquinho de leite. Negou-lhe comida desde o primeiro instante? Estrangulou-o? É uma coisa tão óbvia.

Eu leio Hobbes e dou risada. Não é possível, o homem era maluco, ele via coisas. Nessa época, todo mundo via coisas: Hobbes via coisas, René Descartes via coisas, Francis Bacon via coisas — eram todos malucos. Se você rompe com a grande linha da filosofia, está maluco. É possível discutir com eles, é claro, mas é necessário primeiro absorver o que eles deram. Francis Bacon diz que Aristóteles usa um método dedutivo, que põe princípios gerais e deduz. Pois eu li no Aristóteles precisamente que esse método jamais produz conhecimento. Que raio de Aristóteles foi esse que ele leu? Não leu nada, é um ignorante. “Como você pode falar isso de Francis Bacon?” — ele é grande, mas não é dois. Eu respeito gente séria e sincera; a primeira coisa é a sinceridade. Se você diz que estudou Aristóteles, vamos ver se estudou com sinceridade. Não estudou nada! Um padreco lhe falara duas coisas e você achou que já sabia Aristóteles.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 18, 08/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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