Todas essas práticas são feitas com o objetivo de aprimorar o caráter de tal maneira que a sua vida intelectual não se constitua só de técnicas, mas da sinceridade – Olavo de Carvalho

“Goethe dizia: “O talento se aprimora na solidão; o caráter, na agitação do mundo.” São dois aspectos da educação. Eu tenho dado vários exercícios de aprimoramento do seu talento, mas eu também tenho lhes dado várias sugestões quanto à conduta no mundo para aperfeiçoar o caráter, e as duas coisas são articuladas.

Por exemplo, tudo o que eu falei sobre o tratar dos filhos: seguir uma ética, uma moral no trato com os filhos, saber que tem o dever de não atormentá-los. (…) Essa parte é a educação moral e ela é complementar aos exercícios. Os exercícios intelectuais são solitários, mas as práticas morais são para a sociedade humana. Todas essas práticas são feitas com o objetivo de aprimorar o caráter de tal maneira que a sua vida intelectual não se constitua só de técnicas, mas da sinceridade, que é a suprema virtude intelectual. Eu não estou dizendo para você deixar de fumar, de transar, de beber, de dar — não falei nada disso. Tudo isso é compatível com a vida intelectual. Você pode ter todos os defeitos do mundo, mas não pode ser um farsante, um mentiroso; tem de ser sincero. Por isso, a arte da confissão é básica para a vida intelectual e pressupõe o seguinte: você não venderá para os outros nem para si mesmo os seus próprios pecados como se fossem grandes méritos. Quando você pecar, admita: “Eu sou só mais um pecador medíocre e idiota como qualquer outro. Não ficarei me batendo, me atormentando, nem cairei num remorso demoníaco por causa disso. Tentarei melhorar de pouquinho em pouquinho.” Quando alguém reclamar dos defeitos, fale: “Está bem. Daqui a quinze anos estarei livre desse defeito. Farei o possível para melhorar. Dê-me um tempo.” Seja paciente consigo mesmo e paciente com os outros. A base da convivência humana é o perdão, mas você não pode perdoar ninguém se acha que o que ele fez não é errado. Se você aprova o que ele fez, não tem o que perdoar. Perdoar não significa que você terá de tolerar para sempre. Você pode perdoar o que o sujeito já fez; amanhã, não está garantido.

Este não é um curso de moral. Não estou dando receita de moral para vocês, mas eu dou algumas porque são inerentes à vida intelectual e à vida filosófica, sem as quais você não aprenderá e a sua inteligência será bloqueada — você sairá falando besteira. Por isso, nesta parte [do curso] eu dou dicas de moral por elas serem fundamentais, funcionais. Todos os defeitos e vícios são compatíveis com a vida intelectual desde que você não os joguem contra ela. Nós todos temos de arcar com nossos defeitos, pecados, vícios — todos nós os temos. Faça o seguinte: (a) não os transforme no centro da sua vida; (b) entenda a diferença entre arrependimento e remorso. Remorso significa “remorder”: você morde e continua mordendo – o que é demoníaco e você nunca o pode fazer. Se você é incapaz de se arrepender com alegria sabendo que será perdoado e terá mil chances, então nem se arrependa, porque é melhor continuar a fazer a mesma coisa do que ficar com remorso. Não se preocupe em demasia com essas coisas.

As pessoas que estão à sua volta têm defeitos e vícios. Você faz questão que elas parem com tudo isso amanhã mesmo? Não. Se você sabe que vai ter de aguentá-las mais um pouco, então por que não fazer o mesmo consigo? Tenha paciência consigo. Faça um voto sério: “Eu tentarei melhorar todos os dias, mas se alguém vier jogar meus defeitos na minha cara, não me preocuparei.” Não ligue para a crítica de ninguém, isso só imbeciliza. Se alguém lhe fez uma crítica, feche os olhos e pense que você está conversando com Santo Tomás de Aquino. O que ele lhe diria?

(…) Eu vou lhes dar um conselho: pare de pedir conselhos a idiotas; peça-os somente aos sábios. Se você não conhece nenhum sábio, imagine um. Leia-os e verá como são. Pense assim: “O que Aristóteles diria?” Ele tentaria analisar o problema da melhor maneira e achar o caminho mais fácil e menos doloroso. Esta é a norma do meu professor de arte marcial, Michel Weber: “Se doeu, é porque está errado. Não é para doer.””


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 18, 08/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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