Eu acho que uma das finalidades da educação seria ensinar as pessoas operar a inteligência da maneira mais simples e com menos espírito crítico – Olavo de Carvalho

“Muitas vezes na vida nós somos confrontados com essa opção: ou eu entendo a coisa e não a explico para ninguém; ou eu tento explicá-la e eu mesmo acabo não entendendo mais nada. É aquele famoso negócio de Santo Agostinho em que, quando perguntaram para ele o que é o tempo, ele diz: “Quando ninguém me pergunta eu sei, quando me perguntam eu não sei mais”.

(…) Essas perguntas, que são produzidas por um estado de inquietação, insegurança, dúvidas, são elas mesmas, muitas vezes, um elemento paralisante. Muitas vezes nós não chegamos a compreender as coisas simplesmente porque nós queremos compreendê-las, ou seja, nós suscitamos perguntas e, como essas perguntas vêm de uma insegurança de base, a primeira coisa que elas fazem é criar uma distância entre você e o objeto, ou seja, para você se explicar para si mesmo, ou para outro, você precisa criar novos esquemas mentais. Note bem, os esquemas mentais são objetos da sua mente, não têm nada a haver com o objeto; é você quem os inventa. Aí você se afasta novamente do objeto para se fechar no mundo dos seus esquemas mentais e poder oferecer explicação, ou para outro, ou para você mesmo; e quanto mais tenta explicar, mais você vai se complicando.

Eu acho que uma das finalidades da educação seria ensinar as pessoas a contornar estas dificuldades e operar a inteligência da maneira mais simples e mais frutífera e com menos espírito crítico. O espírito crítico, que induz você a uma análise aprofundada, tem a função do suco gástrico na digestão: você ingere a comida e daí tem de ter o suco gástrico para te ajudar a digerir; mas se não há comida nenhuma e você libera suco gástrico continuamente, então você consegue uma úlcera. A maior parte das pessoas que eu conheço sofre de úlcera mental: o processo crítico-analítico funciona neles demais e com pouco material.

Isto começou acontecer sobretudo na minha própria geração de adolescente, quando havia muita gente que dizia que era contra a decoreba. Até a minha geração, eu peguei professores de estilo antigo que obrigavam, por exemplo, você a decorar a história. Eu tive um professor de história, chamado Francisco de Almeida Magalhães, que ainda usava este método, você decorava a história e depois disso você conversava a respeito. Daí entraram uns outros fulanos que diziam que esse negócio de decorar era errado e que você tem de ter é a compreensão crítica, então você lia duas linhas de história e começava uma discussão que não acabava mais e você não entendia era coisa alguma. Esta aparente apologia da compreensão terminava em total incompreensão, porque você não tinha material para discutir, você não tinha conhecimento suficiente dos fatos para que a intervenção do espírito crítico analítico pudesse dar algum resultado frutífero.

Este é um problema que se propagou de tal maneira por toda a sociedade brasileira que hoje, se você abre esses sites de internet, de discussão, o que você vê é um bombardeio de análise crítica sobre o nada. As pessoas estão lá, analisando, sem ter conhecimento do assunto, sem ter material memorizado suficiente sobre o qual pensar, sem ter experiência vital. Isso aí é demência. Nunca ninguém vai chegar à coisa nenhuma por este lado.

Por outro lado, eu perguntei a meu amigo Ahmed, que mora na China (aqui os camaradas que chegam da China tiram as primeiras notas em todas as escolas, chegam aqui e dão um banho em todo mundo; os técnicos chineses em tudo são os melhores do mundo, é algo impressionante) como é o ensino lá e ele me respondeu que é só decoreba. É claro que é assim, porque na língua chinesa, para você conseguir dizer mamãe, você já precisa ter decorado 5.000 caracteres! Uma coisa que eu reparei aqui nos EUA também é que a língua inglesa é uma monstruosidade, qualquer coisa pode soar de qualquer maneira. O resultado é que você tem de decorar tudo. A língua é tão ruim que as pessoas são obrigadas a ficarem inteligentes. Nas línguas latinas isso não acontece, está tudo arrumadinho, você liga no piloto-automático e a língua fala por si mesma. Aqui não, o sujeito ler uma palavra não significa que ele a conheça, ele precisa perguntar para alguém como soa esta coisa. Mesmo assim ele sabe que pode soar de um modo aqui, de outro acolá, em suma, ele vai ter que estar sempre atento a aquilo. Há um trabalho de atenção e memória monstruoso. Na China é a mesmíssima coisa. A língua é tão ruim, tão complicada, que você precisa decorar um monte de coisa antes de você poder começar a falar, escrever, etc. E isto torna as pessoas inteligentes.

Leibniz, o homem mais inteligente que apareceu no ocidente depois de Aristóteles — não há praticamente uma ciência ou um domínio da filosofia onde Leibniz não tenha feito contribuições absolutamente essenciais, indo desde a física até a jurisprudência, passando pela história, pela teologia, pela moral, pela química: tudo! —, dizia que o sujeito que tivesse visto mais figurinhas, ainda que fosse de coisas totalmente irreais, seria o mais inteligente. O tempo que vocês ficam analisando coisas, por que vocês não o usam colecionando álbuns de figurinhas? Dizem que, no Recife, antigamente, os garotos que vendiam jornal na rua anunciavam assim: “Jornal do Comércio! Quem não sabe ler vê figura!” Ver figurinhas e guardá-las na memória — muitas e muitas — isso era o que Leibniz recomendava. Ele devia saber o que estava falando.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 19, 15/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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