Se o indivíduo não sabe a origem de suas ideias, ele não sabe a sua própria história interior – Olavo de Carvalho

“O que minha experiência me diz quando você pergunta de onde é que um sujeito tirou alguma opinião, qual é a história daquela opinião, como é que aquilo chegou até a sua mente, como é que se elaborou, etc. — invariavelmente a pessoa responde com argumentos em favor da opinião. Ela confunde origem com fundamento. Eu perguntei a origem e ela me responde com um fundamento, que na maioria dos casos foi inventado na mesma hora. Quando eu espremo a pessoa ela confessa que não sabe como é que aquilo veio parar na mente dela. Tudo que você possa argumentar em favor de uma ideia que você não sabe de onde veio é um remendo que você fez depois. A coisa está caindo e você coloca lá um durex, uma fita adesiva, é isso que as pessoas fazem. Isso é o pensamento na base da gambiarra.

Se o indivíduo não sabe a origem de suas ideias, ele não sabe a sua própria história interior, não tem consciência de quem ele é intelectualmente. Se ele não tem consciência de quem ele é, então suas ideias são produtos soltos que não tem raiz nem dentro dele nem dentro da experiência e que, por isso mesmo, não significam absolutamente nada. E para que discutir ideias que não significam absolutamente nada? O resultado é que o ensino atual está transformando as pessoas em monstrinhos, em deformidades intelectuais formidáveis. Depois essas deformidades aparecem nos debates públicos.

Outro dia eu vi uma discussão — até comentei no True Outspeak, apenas como notícia política e não analisando a coisa mais seriamente — entre o articulista da Folha de São Paulo, Contardo Calligaris e o poeta Ferreira Gullar. O Ferreira Gullar tem dois filhos esquizofrênicos e sabe o que é isso. Já houve desastres na casa dele por causa dos filhos, já o agrediram, etc. Se você tem um maluco em casa sua vida está desgraçada, essa é a verdade. Ele bravamente tem suportado isso há trinta anos, quando aparece esta lei que regulamenta a dificuldade para internar um maluco, seguindo a orientação da antipsiquiatria, que desde os anos 70 começou a demonizar a internação psiquiátrica. Em função disso houve uma discussão, o Ferreira Gullar defendendo a internação e o Contardo Calligaris, que, ainda que reconhecendo alguns excessos, defendia a antipsiquiatria dizendo que antigamente os psiquiatras eram agentes de repressão da sociedade autoritária, que depositavam nos hospitais, como prisões, as pessoas que tinham conduta divergente ou inconveniente; e a partir da antipsiquiatria as pessoas foram libertadas.

(…) Eu acompanhei aquela discussão até o fim e vi que nenhum dos dois tinha a menor ideia da origem da antipsiquiatria. Estavam os dois discutindo não uma realidade que é a antipsiquiatria como ela existiu no mundo, como um movimento que começou primeiro na Itália com o tal do Franco Basaglia, que depois veio para os EUA e liberou todos os malucos dos hospitais psiquiátricos, os devolveu para suas casas, enlouquecendo várias famílias também. Eles estavam discutindo o conceito de antipsiquiatria, mas o que ela é historicamente?

O que aconteceu historicamente foi o seguinte: se você pegar esta definição que o Calligaris fornece da psiquiatria antiga, que os psiquiatras eram agentes da sociedade repressiva que excluíam do convívio social as pessoas com conduta divergente, havia um lugar no mundo onde esta definição se aplicava literalmente: era a URSS. Lá os hospitais eram órgãos da repressão. Se o sujeito tinha uma ideia divergente ele era colocado em um hospital psiquiátrico, como foram colocados milhares de dissidentes, dentre os quais o Vladimir Bukovski, que passou, eu acredito, uns dez anos internado sem nunca ter sido maluco — e não sei como não ficou maluco lá dentro.

(…) Agora, de uma maneira não literal, e sim metafórica, a coisa podia acontecer também no Ocidente. Havia casos, por exemplo, em que um sujeito estava querendo ter um caso com outra mulher, inventava que sua esposa era maluca e a internava. Isso aconteceu algumas vezes. Houve outros casos onde o sujeito não era realmente maluco, mas alguém decidia, por exemplo, em uma discussão de herança, afastar um sujeito. Caso houvesse vários herdeiros e um deles levasse a maior parte, então os outros poderiam decidir interditá-lo, mandá-lo para o hospital psiquiátrico, pegar um atestado de que o sujeito é louco e pronto, acabou. Você ficaria como o guardião da herança dele. Aconteciam essas coisas, mas aconteciam como exceção.

Ao mesmo tempo havia inúmeros casos em que a internação era benéfica, o sujeito era internado um tempo, levava os seus eletrochoques, tomava o seu haldol e saia relativamente bem. Os hospitais eram feitos para isso. Havia duas situações: uma onde a ideia da psiquiatria como instrumento repressivo era uma realidade material comprovada; outra onde ela podia ser aplicada como figura de linguagem.

Aconteceu que, quando essa coisa da psiquiatria política da URSS começou a ser denunciada no Ocidente, aquilo começou a virar um escândalo e logo veio o troco: pegaram aquela mesma descrição que se dava dos hospitais psiquiátricos soviéticos e aplicaram-na metaforicamente a todo o sistema psiquiátrico ocidental. Quem fez isso foi um sujeito chamado David Cooper, que era um agente da KGB. Eu sei disso por meio do depoimento de um colega dele, Ronald Laing. Na Itália, foi o Franco Basaglia, um membro do Partido Comunista e discípulo de Antônio Gramsci. No mundo de fala anglo-saxônica, David Cooper era materialmente um agente da KGB. Toda a antipsiquiatria foi um truque inventado pela KGB para desviar a atenção do fenômeno da psiquiatria política soviética usando as mesmas categorias descritivas para uma situação onde elas só se aplicavam metaforicamente. O metafórico virou literal e o literal desapareceu. Esta é a história da antipsiquiatria.

É claro que um movimento inventado com estes propósitos tem pouquíssima relação com a situação real do doente mental, o qual é usado como pretexto para uma operação política. Estavam os sujeitos discutindo, o Ferreira Gullar e o Contardo Calligaris, e nenhum dava a origem da ideia. Então o conceito ficava flutuando no ar como se fosse uma forma platônica e como se tivesse surgido do céu. É o caso de se perguntar o que alguém acha das internações psiquiátricas e então o sujeito dá a sua opinião; mas ele não tem noção do contexto histórico em que isso surgiu, que é o que dá o significado do que está sendo discutido. Em geral as discussões públicas, sobretudo no Brasil, são só de ideias, de produtos mentais. A conexão delas com a realidade torna-se impossível de restaurar depois, porque a discussão das ideias tem a sua dinâmica própria, ela vai crescendo, cria um novo contexto cultural. Quando você quer voltar ao contexto histórico, as pessoas dizem que isso é argumento ad hominem, que você tem de julgar as ideias em si mesmas e não os sujeitos que a produziram, como se a antipsiquiatria fosse somente uma ideia e não uma ação histórica efetiva. Seria como você discutir pena de morte sem levar em conta que as pessoas morrem. É claro que tudo isso é uma deformidade mental, uma incapacidade.

Eu gostaria que um dia houvesse discussões públicas no Brasil em que as pessoas estivessem conscientes daquilo que estão falando, mas se você não sabe sequer de onde surgiram as suas convicções pessoais, como você vai saber de onde surgiram as discussões públicas que estão aí? Você vai pegar os símbolos já estereotipados e prontos e vai discutir aquilo acreditando que está discutindo a realidade. Isso é como duas criancinhas de cinco anos discutindo a vida sexual de papai e mamãe. Elas não vão entender é nada, vão falar de símbolos remotos. É como a menininha, uma vez eu li, que perguntou: “Mamãe, o que é um orgasmo?”; ao que a mãe, após pensar durante um tempo, respondeu: “É como um espirro.”; e daí a criança vai discutir aquilo como se fosse um espirro. No fim todas essas discussões ficam apenas no plano, não têm a profundidade de contato com o real.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 19, 15/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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