O exercício de perguntar o que é você conhecer alguma coisa – Olavo de Carvalho

“Hoje eu quero passar dois exercícios que não é para vocês fazerem uma vez; é para que se tornem uma espécie de prática que pode ser repetida em vários níveis e com vários resultados ao longo do tempo. Ambos são baseados na distinção entre o que é compreender seus próprios pensamentos e o que é compreender alguma coisa. A maior parte das operações que nós fazemos durante o nosso processo educacional — seja na escola primária, secundária ou no curso universitário — se refere exclusivamente ao mundo dos seus pensamentos; tem pouquíssima ligação com a realidade da experiência. Logo que um indivíduo compreende um conjunto de pensamentos — que lhe são transmitidos pelo professor, ou que ele captou num livro, ou que ele mesmo pensou — ele acha que compreendeu alguma coisa. Compreender uma ideia é uma coisa; compreender uma coisa, uma entidade real, é outra completamente diferente.

(…) O primeiro exercício é perguntar o que é você conhecer alguma coisa. Não vá me dar uma resposta teorética, pelo amor de Deus! Não é isso que eu estou perguntando. Você vai pegar uma pessoa que você conhece e outra que você apenas viu, ou que nunca viu, e você vai examinar, na sua experiência, qual é efetivamente a diferença entre uma coisa e outra. Note bem, eu não quero uma explicação teorética: “Conhecer é isso assim, assim, assim, assim…” Eu quero que você descreva para si mesmo, não precisa nem ser em palavras — e no começo você não vai mesmo conseguir explicar em palavras, isso vai lhe aparecer muito confusamente na sua consciência, mas é preciso que você reflita inúmeras vezes isso —, a experiência de conhecer alguma coisa e não conhecer alguma outra. Você pode fazer isso com relação a uma pessoa, mas você pode fazer isso também com relação a uma máquina que você diz que conhece e outra que você não conhece. Qual é precisamente a diferença? Ou digamos a diferença entre um livro que você leu e um que você não leu. Você imagina alguma coisa a respeito do que está no livro que você não leu, se você nem ouviu falar, você não teve notícia dele. Imagine um livro que você leu, que você gostou muito, e do qual você se lembre bem. Qual é a diferença entre este livro e outro que você não leu?

Qual é a diferença em termos da sua experiência real? Você verá que esta diferença não pode ser descrita só no nível da informação, porque não resolve o problema você dizer “Olha, a respeito do livro que eu li eu sei mais do que o do livro que eu não li”. Não é disto que eu estou falando. Porque isto não é uma resposta, é a própria pergunta. É claro que o nível de informação é maior, mas não é disto que estou falando. A diferença da relação do que você conhece com o que você não conhece não está só no nível da informação, mas também está no nível do poder, quer dizer, daquilo que você pode fazer com este conhecimento. E também está no nível da afeição. Com este exercício vocês verão que existe um elemento em todo conhecimento que normalmente nós não associamos com o conhecimento – mas apenas com as relações humanas – que é o elemento de intimidade ou de proximidade, onde você sente que aqueles elementos conhecidos já não estão só no objeto conhecido mas fazem parte de você. Nesse sentido, como você os incorporou e eles são valores para você, são elementos da sua vida, não é só mais o objeto que é responsável por eles, mas você também. De certo modo, você responde por aquilo. E você não responde pelo que você não conhece. Então, existe o elemento de intimidade, o elemento de identificação, e o elemento de responsabilidade. Por exemplo, você não assume responsabilidade por uma pessoa que você não conhece. Chega um sujeito e diz para você: “O seu vizinho está querendo comprar o meu carro e diz que vai me pagar em três meses. Você conhece o cara? Será que ele vai me pagar mesmo? Se você conhece bem o sujeito e confia nele, você diz: ‘Não, pode vender, pode confiar.’” Agora, se você não conhece, você vai assumir? Não! Então, o que o sujeito conhecido tem que o outro não tem? Qual é a diferença da sua experiência, da sua vivência? O que acontece na sua alma com relação à coisa conhecida? Se você não meditar sobre isso, e não fizer esse exercício mil vezes, não adianta você ler mil livros de teoria do conhecimento ou de epistemologia, porque você nunca vai entender do que eles estão falando. Então, qual é a diferença entre conhecer e não conhecer? O que aquele objeto conhecido – seja uma pessoa, uma ideia, um livro, um equipamento, uma máquina, um bicho – tem que os outros não tem? Por exemplo, você tem um cachorro, você conhece seu cachorro. Agora, tem um outro cachorro na rua que você não conhece. Qual é a diferença?

Não é para verbalizar isto aqui, não verbalize nada. Só tentem recordar e ver qual é a experiência que você tem de um, e a experiência que você tem de outro. Verbalizar só daqui a seis meses. O sujeito que conseguir verbalizar isso na primeira é o William Shakespeare. Não vai dar para verbalizar. Mas note bem: como é que William Shakespeare terminou sendo William Shakespeare? Como é que ele poderia verbalizar coisas que ele não percebeu ou que só percebeu num relance e em seguida esqueceu? Se não há esse aprofundamento memorativo da experiência, muito menos você vai conseguir repetir aquela experiência, ao ponto de dominá-la e conseguir verbalizá-la. Então, é importante você ver que de toda a imensidão de percepções, sensações, pensamentos, tudo o que se passa dentro de você, você só consegue verbalizar uma coisinha mínima. E você consegue recordar uma coisinha mínima. Mas note bem: onde está o depósito da sua inteligência senão aí mesmo? E se você quer ser inteligente, bom, é ali mesmo que você tem que buscar. (…) Você sabe mais do que você sabe que sabe; você compreende mais do que você sabe que compreende; você percebe mais do que você sabe que percebe. Aonde você vai buscar uma intensificação da sua inteligência? É ali mesmo, no que você já tem. E este é o sentido do que Sócrates e Platão falavam da anamnese. O que é a anamnese? É você recordar o que você já sabe. A explicação que Sócrates dá é mítica, poética. E não obstante, está tudo ali. Quer dizer, o depósito do seu conhecimento já está em você. É que a nossa atenção reflexiva passa rapidamente sobre esse fundo de conhecimento e vai embora, vai pensar em outras coisas.

Em geral, a nossa atenção reflexiva é dominada pelos assuntos que estão em discussão fora de nós, na sociedade, que as pessoas falam. Ou seja, para onde as pessoas chamam a tua atenção, é lá que a tua atenção reflexiva vai funcionar. Ela vai pensar mais sobre o que os outros estão falando do que sobre o que você já sabe, e é aí mesmo que você fica burro. Então, o segredo é você fazer com que essa atenção reflexiva se volte para dentro e puxe desse fundo o que você já sabe, o que você já percebeu. Só que, cuidado, se você volta a atenção reflexiva para dentro e começa fazer análise crítica, ou começa a querer verbalizar, você destrói tudo. Você precisa domar a sua atenção reflexiva para que ela lide com esses seus materiais internos de maneira delicada, cuidadosa e humilde. Então, como a atenção reflexiva é a parte que fala, socialmente, ela se acha muito importante, e quando ela vai lidar com a memória, a imaginação, ela entra que nem um touro numa loja de louça destruindo tudo. Então, o que é que sobra? Sobra em você só a parte falante. E você vira, digamos, o Contardo Calligaris, o que não é a pior desgraça; com um pouco mais de treinamento você vira o Emir Sader. Quer dizer, a única parte que opera na pessoa é a máquina falante, a máquina de pensamento crítico. Fala, fala, fala, analisa tudo, destrói tudo, e não sabe nada.

Você tem que entender que existem dentro de você camadas que funcionam de uma maneira mais discreta, porém muito mais rápida, e que sabem mais do que você sabe. Então, não adianta você procurar o seu guru interior, porque não tem guru interior nenhum; é você mesmo. Se você tentar puxar de lá de dentro o que você já sabe – como, por exemplo, a distinção entre o conhecido e o desconhecido. Quando você encontra uma pessoa conhecida você tem uma reação, quando é um desconhecido, reage de outra maneira. Quer dizer, você sabe fazer esta diferença. Na relação entre o conhecido e o desconhecido, note que você sabe toda uma constelação de reações altamente complexas que entram em ação sem que você sequer pense nisso. Quando vê o conhecido vem a memória das coisas vividas em comum, valores e afeições compartilhados, a lembrança de terceiros que estão associados. Tudo isso aparece sozinho, olha quanta coisa você está sabendo. Nunca precisei pensar para saber nada disso. Para fazer este exame, é necessário que a sua atenção reflexiva seja humilde, e que em vez de operar ditando regra, ela entre para pegar e receber aquele material, sem analisá-lo criticamente, e sobretudo sem criticá-lo, sobretudo sem espremê-lo, e nem mesmo tentando verbalizá-lo.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 19, 15/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui para ver todos os fragmentos do Curso Online de Filosofia.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: