Exercício de verbalização – Olavo de Carvalho

“Para chegar a esse exercício de verbalização, você precisa ter alguma prática na arte de imitar os escritores, e precisa ter alguns exercícios de formação de vocabulário. Formar vocabulário não é decorar o dicionário. Como é que você forma o vocabulário? É buscando as coisas que você já conhece, e cujo nome você desconhece, para em seguida buscar esses nomes. Quer dizer, você não partir das palavras para encontrar as coisas respectivas, mas, ao contrário, você vai partir das experiências que você tem e buscar os nomes que expressem aquilo. Por exemplo, um exercício muito bom é você olhar para a sala onde você está e ver se você sabe os nomes de todas as cores e de todas as gradações que existem ali. Em geral, a gente não sabe. Mas se você está percebendo estas cores, você sabe a diferença entre elas; você só não sabe dá o nome.

Então, a sua inteligência reflexiva, falante, tem que aprender com aquela outra mais básica, porque ela é sempre a mais burra. A percepção é enormemente inteligente, as sensações são enormemente inteligentes, a intuição é inteligente, a memória é inteligente, a imaginação é inteligente, só a parte falante que é burra; e é justamente a parte falante que a gente sempre segue. Na escola antigamente as pessoas faziam exercícios de descrição, mas eram exercícios tão esquemáticos e tão pobres, que não dava nem pro começo; mas hoje em dia eu acho que nem isso se faz. Dizem assim: “Onde já se viu obrigar a criança a descrever a realidade? Isso é limitá-la. A criança tem que inventar o que ela quiser”.

Muito bem. Se vocês entenderam este primeiro exercício, vou lhes passar um outro. (…) Você vai ficar sentado na sua sala, no escritório, pode ser na cozinha, no banheiro, vai pegar uma folha de papel e fazer uma lista de todos os objetos que tem ali. E daí você vai pegar cada um daqueles objetos e perguntar assim: “Como foi que isto veio parar aqui?” Não vale dizer que você comprou no Wal-Mart. Ah, bom, mas como é que foi parar no Wal-Mart? Parta do princípio infalível de que estas coisas não existiram desde sempre; por assim dizer, elas vieram à existência. Por exemplo, você pode rastrear como surge uma garrafa de água Perrier. Então, este negócio ajunta duas coisas absolutamente heterogêneas que jamais poderiam ter vindo do mesmo lugar: a água e o plástico da garrafa. Mais ainda, há umas letras impressas na garrafa. Água, plástico e letras não podem vir do mesmo lugar. Faça então o seguinte exercício. Tente imaginar a fonte onde o sujeito descobriu a água. Isso bastou? Não. O sujeito precisou levar a água até o laboratório para ver que propriedades aquele raio de água tinha. O laboratório também não surgiu do nada, alguém teve de construí-lo, e os técnicos que trabalham lá tiveram de estudar química, farmacologia etc. E daí o sujeito soube que tinha uma água maravilhosa, mas pensou: “Como é que eu faço para explorar isto aqui. Eu não tenho dinheiro.” Então, ele decide fazer um empréstimo num banco. O banco também não saiu do nada. Alguém teve de acumular uma riqueza que no começo pode ter sido roubada. Convenhamos, muitos bancos surgiram assim. Mas foi muito tempo atrás, a gente já não lembra essas coisas. Então, você tem aí toda uma história: a história da origem dos bancos. Daí, o sujeito vai ao banco e consegue convencer o gerente a lhe emprestar algum dinheiro. Agora, ele começa a pensar nos equipamentos para extrair a água e engarrafá-la. Você veja que coisa enormemente complexa, tudo para chegar a essa garrafinha aqui. E você vai tentar reconstituir para cada objeto que está ali a origem, o rastreamento todo, desde o seu estado de matéria-prima sem forma – ou com uma forma completamente diferente – até ter adquirido a forma atual. (…) Tudo isto foi feito, não é invenção sua! Para que isso chegasse aqui, tudo isso foi feito realmente. Você está reconstituindo na sua imaginação, mas esta imaginação está muito próxima da realidade, porque você está reconstituindo ações humanas que foram realmente praticadas.

(…) Quando você tiver feito essa listinha e chegar no décimo objeto, você vai ver a imensa complexidade de ações humanas que foram necessárias só para você ter aquelas coisinhas no seu ambiente, nesse instante você vai perceber porque é que o socialismo não funciona. Porque você imagina se pode existir um escritório central onde alguém coordena tudo isto, não para os objetos que estão na sua sala ou na sua cozinha, mas para todos os objetos fabricados pelos seres humanos. É uma ideia tão imbecil, que ninguém jamais deveria ter pensado.

(…) Então, esse é um exercício que Balzac fazia. Balzac foi o verdadeiro guru de Karl Marx. Balzac entendia como funcionava uma economia; Karl Marx não entendia. Porque ele mesmo no começo d’O Capital diz que o instrumento que ele vai usar é precisamente a abstração. Ou seja, ele cria um conceito e passa a trabalhar com aquele conceito. Este é o modo certo de não entender nada. Porque uma coisa é a economia dos conceitos; outra coisa é a economia quando ela funciona realmente. A economia é uma trama inabarcável de ações reais humanas praticadas em cima de objetos reais encontrados na natureza. E essas ações humanas se encavalam e se entrecruzam umas com as outras, vindo de direções completamente diferentes.

(…) Prossigam com esse exercício e vocês sairão desse mundo fictício. (…) Onde não há esse suporte imaginativo, não há contato com a realidade, porque é claro que você não poderá acompanhar fisicamente a fabricação de tudo o que existe, vamos dizer, dentro do seu banheiro. Se você mora dentro de uma quitinete, eu digo: dentro de sua quitinete tem um mundo, meu filho. A quantidade de trabalho humano que aconteceu para encher a quitinete de coisas é uma monstruosidade. Com isso, você acaba saindo daquele mundo fechado e morto, conectando-se ao mundo da história real.

(…) Tente imaginar não esquematicamente, tente imaginar dramaticamente, quer dizer, visualizando como se fosse um filme. Por exemplo, aqui tem uma mesa. Então, onde se encontra esse tipo de madeira? Nem toda madeira nasce em qualquer lugar, logo, o sujeito tem de achar essa madeira em algum lugar. Imagine o sujeito vendo a árvore, serrando, colocando no caminhão, empacotando… Tente fazer como se fosse num filme. E faça vários filmes que vão se cruzando, como se fosse um Balzac. Como Balzac fez a Comédia Humana? Ele foi cruzando. Ele inventava a história de um sujeito que cruzava com a de outro, que cruzava com a de outro… E o personagem reaparecia e etc. Acabou fazendo uma trama que simboliza a totalidade da sociedade francesa da época.

Você vai tentar fazer a mesma coisa sem escrever, porque se escrever isso já é um Balzac! Não estou pedindo isso para você. Invente os filmes e cruze os filmes. Lá vinha o sujeito trazendo aquele toco de árvore no caminhão e de repente o pneu furou. Então vem outro sujeito que furou a seringueira (hoje tem processos muito mais avançados, use qualquer um deles) etc.

Você vai reconstituindo como a história dessas várias pessoas vai se encaixando até que tudo chegue no seu quarto, na sua cozinha, em qualquer lugar.

Fazendo isso você pegará algumas qualidades morais que são indispensáveis para o bom cidadão. Se a pessoa não tem isso, não tem ideia do que os outros estão fazendo por ela, e não terá aquele sentimento de gratidão sem o qual você nunca respeitará ninguém.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 19, 15/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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