Karl Marx não entendia de economia, porque ele mesmo no começo d’O Capital diz que o instrumento que ele vai usar é precisamente a abstração – Olavo de Carvalho

“Veja, houve aqui uma pergunta que chegou hoje e parece que a pessoa leu os meus pensamentos. Olha aqui: “Durante o meu curso de economia, numa aula de sociologia, uma prova me pediu como resposta a identificação no mundo real de um conceito sociológico.” Ora, uma vez no curso de economia pediram para descobrir no mundo real um conceito sociológico. Uma vez! Como é que você faz para identificar isso no mundo real? Resposta: você não pode fazer isso. Porque nenhum conceito sociológico ou econômico pode corresponder diretamente a nenhum fato do mundo físico.

Eu vou mostrar para vocês como é que você chega a ter uma percepção da sociedade humana que lhe permita mais tarde saber a que corresponde aos conceitos econômicos, sociológicos, etc. Então, você vai ficar sentado na sua sala, no escritório, pode ser na cozinha, no banheiro, vai pegar uma folha de papel e fazer uma lista de todos os objetos que tem ali. E daí você vai pegar cada um daqueles objetos e perguntar assim: “Como foi que isto veio parar aqui?”

(…) Quando você tiver feito essa listinha e chegar no décimo objeto, você vai ver a imensa complexidade de ações humanas que foram necessárias só para você ter aquelas coisinhas no seu ambiente, nesse instante você vai perceber porque é que o socialismo não funciona. Porque você imagina se pode existir um escritório central onde alguém coordena tudo isto, não para os objetos que estão na sua sala ou na sua cozinha, mas para todos os objetos fabricados pelos seres humanos. É uma ideia tão imbecil, que ninguém jamais deveria ter pensado. É claro que essa imensidão de ações humanas, essa trama enormemente complicada de ações humanas, necessárias para que você tenha um copo, uma garrafa, uma mesa, um cigarro etc. etc., não pode ser administrada por ninguém. Porque isso é a variedade inteira das ações humanas. Ou seja, administrar a economia é administrar o universo. Ninguém pode administrar isso aí, só Deus pode.

(…) Agora, é curioso que o próprio Karl Marx, que dizia que a coisa essencial na vida é o processo de produção – quer dizer, a transformação humana da natureza -, como é que ele pôde pensar nisso e terminar na ideia socialista? Mas é um jumento mesmo. Ele não pensou isto que nós estamos falando; ele pensou só os conceitos abstratos. Ele não lembrou que cada uma daquelas coisas tinha que ser feita. Agora, você imagina na fabricação de uma coisa dessa o número imenso de percalços que pode ter.

(…) Eu concordo com Karl Marx: é claro que uma coisa importantíssima da vida humana é a transformação da natureza em objetos que nos servem. Não tenho a menor dúvida. Só que por isto mesmo eu sei que isto não pode ser administrado. Por exemplo, você acha que cada uma dessas empresas – que fabricou essa garrafa, que perfurou o buraco para tirar a água, que fez esta mesa etc. etc. – é perfeitamente administrada? Será que nenhuma delas perde dinheiro? Meu Deus, para administrar uma já é um desastre… Olha aí, a General Motors acabou de falir; é um negócio grande demais, complexo demais. O que é que eles fazem? Inserem essa máquina complexa numa outra mais complexa ainda, que se chama Governo.

Então, esse é um exercício que Balzac fazia. Balzac foi o verdadeiro guru de Karl Marx. Balzac entendia como funcionava uma economia; Karl Marx não entendia. Porque ele mesmo no começo d’O Capital diz que o instrumento que ele vai usar é precisamente a abstração. Ou seja, ele cria um conceito e passa a trabalhar com aquele conceito. Este é o modo certo de não entender nada. Porque uma coisa é a economia dos conceitos; outra coisa é a economia quando ela funciona realmente. A economia é uma trama inabarcável de ações reais humanas praticadas em cima de objetos reais encontrados na natureza. E essas ações humanas se encavalam e se entrecruzam umas com as outras, vindo de direções completamente diferentes.

(…) Na hora em que você começa a ver como a sua vida depende das ações de milhares de outras pessoas, então você começa a entender a verdadeira natureza humana. Entende o que Santo Agostinho quis dizer quando ele afirmou que a base da sociedade humana é o amor ao próximo, porque se tudo isso funcionasse na base da sacanagem, na base da luta de todos contra todos, não daria para furar o primeiro buraquinho para encher a primeira garrafa de água mineral. Tudo isso de que eu estou falando acontece na base da colaboração. São pessoas que se ajudam umas às outras. Note bem: o elemento de ajuda transcende tão infinitamente o elemento de vantagem e lucro, mas tão infinitamente, que o lucro passa a ser um elemento a mais, sem o qual o sujeito não sobreviveria evidentemente, mas o lucro é a parte de auto-ajuda que existe numa coisa que toda ela feita para os outros. Por exemplo, qual é a margem de lucro das grandes empresas? Quando chega a 2%, 3% ao ano, é uma monstruosidade. Se você pensa, por exemplo, na Apple ou na Microsoft, meu Deus, quantos computadores não fizeram! Quantas pessoas foram ajudadas por esses computadores?! É algo que já salvou milhares de vidas, que facilitou a vida de todo mundo, que veio para aliviar o trabalho dos seres humanos. E depois, quando chega o fim do ano: ganhamos 1,2%. E ainda chega um filho-da-puta para dizer que a base da economia é a exploração do homem pelo homem. O que é que é isso? É falta de imaginação; é uma imaginação desconectada da experiência real. São pessoas que nunca fizeram este exercício que eu estou lhes dizendo.

Eu, por exemplo, sei o quanto sou grato ao sujeito que inventou o computador e a fábrica de computadores, porque se não existisse computador jamais teria publicado qualquer livro. Os meus papéis, até o ano de 1990, estavam numa confusão tamanha que eu jamais conseguiria juntar aquilo para fazer um livro, nunca. Mas veio o computador, contratei uma garota e disse: “você passa tudo isto aqui para o computador”. De repente consegui dominar aquela selva, e só comecei a escrever livros porque existe o computador. Senão, eu nunca teria feito isso.

Mas se o sujeito no fim do ano ganhou 1,2 ou 1,3% de lucro… Coitado! Ele fez um benefício tão grande para tantas pessoas. O lucro dele é até injusto, ele deveria ganhar 10, 20, 30%, o que infelizmente não dá. A economia é assim. Mas chega o desgraçado e fala que é a exploração da mais-valia e etc.

O mundo de Karl Marx só tem duas pessoas: o patrão e o empregado. Não tem o consumidor. Isso é uma das coisas mais extraordinárias, quer dizer, ele leva em conta o processo de produção e diz que o valor da mercadoria é a quantidade de trabalho socialmente necessária para produzi-la. Mas ninguém compra essa porcaria?

Por exemplo, outro dia rifaram uma calcinha da Madonna. Um sujeito pagou dois milhões pela calcinha dela. Quanto trabalho socialmente necessário deu para produzir a calcinha da Madonna? Nada! Como havia um monte de milionário louco, fã da Madonna, aquilo passou a valer dois milhões.

É uma coisa extraordinária, porque no mundo da economia de Karl Marx ninguém compra nada, só se produz. Só existem burgueses e proletários. Isso é abstracionismo, é uma imaginação desconectada da realidade. O fato é que quando Karl Marx escreveu “o Capital”, ele até então nunca tinha visto um proletário. Nunca entrara numa fábrica, nunca conversara com um proletário. Só conhecia os líderes proletários, que já não trabalhavam mais, evidentemente. Eram que nem o Lula, que foi torneiro mecânico dois anos, entrou para o sindicato e hoje já não consegue distinguir entre um torno mecânico e uma vaca. E, também, como torneiro mecânico não devia ser grande coisa, pois torneou o próprio dedo. (O meu pai era aficionado por tornos, brincava com tornos desde moleque, tinha lá seu torno e nunca cortou o próprio dedo e muito menos a própria cabeça. No caso do Lula a cabeça foi junto). O Karl Marx conheceu apenas esse tipo de proletário, o ex-proletário, enquanto Engels tinha uma fábrica de tecelagem e via os empregados da própria fábrica.

(…) E chega um dia no qual o professor pede para relacionar um conceito com a vida real. Uma só vez o professor pede para você fazer isso! Olha que coisa extraordinária. Se for para relacionar neste momento a coisa com a vida real, então do que estivemos falando até agora? Estivemos falando de esquemas mentais!

(…) Veja que o elemento de desejo de riqueza e de cobiça entra ali. Mas é o seguinte, o sujeito que faz o pneu não pode ficar só pensando em desejo de riqueza, ele terá que pensar em pneu. E o que ele quer? Ele quer só o dinheiro, mas para isso ele precisa pensar em pneu, porque alguém precisa do pneu. E é do mesmo modo para todos os trabalhos que são feitos no mundo.

O que você ganha no final, o salário, o lucro, é apenas o efeito colateral. Não é nisso que você vai pensar, mesmo que você seja um banqueiro que só pensa em dinheiro, porque não é no seu dinheiro, e sim no dinheiro dos outros que você deve se concentrar. Por exemplo, se você emprestar dinheiro para uma fábrica, é do seu máximo interesse que aquela fábrica prospere. Então você terá que bombear aquilo para o negócio prosperar. Se você pensar: Não, eu quero o dinheiro todo para mim, e a fábrica que vá se ferrar… Então o empréstimo que eles pegaram com você não será pago.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 019, 15/08/2009.


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