Alguns comentários sobre René Guénon – Olavo de Carvalho

“Eu tomei conhecimento dos livros de Guenon na década de 70 e creio que por volta de 1981 ou 1982 já havia lido todos, acompanhado muitos números da revista Étude Traditionnel e também lido os livros de outros autores ligados de alguma maneira a ele, como Schuon, Tito Burckhardt, Seyyed Hossein Nasr etc. Esta acumulação de informações foi o que me levou mais tarde a tentar articular o que era a “doutrina” expressa pelo Guenon com o que era a prática nas Tariqas, porque ele mesmo disse que o aprendizado teórico era somente uma condição preliminar indispensável, ou seja, ele estava dizendo claramente que se você leu todos os livros dele e entendeu tudo, você nem começou alguma coisa, pois só vai começar quando você, de fato, entrar no processo iniciático. Segundo: ele informa que todos os seus escritos não são ideias dele, são ensinamentos recebidos de autoridades qualificadas das tradições orientais. A que tradições orientais ele se refere?

A adoção do Islã como religião externa pelo Guenon já data de quando ele tinha passado de quarenta anos. Porém, aos dezoito anos ele foi iniciado numa tariqa por seu amigo John Aguelle, que era um emissário do Sheik El-Kebir da Argélia. O Sheik Elish El-Kebir ao qual depois é dedicado o livro de Guenon: Simbolismo da Cruz. Então ele era membro de uma tariqa desde a adolescência, e como não tinha poderes iniciáticos, não podia iniciar discípulos, só podendo realizar o trabalho de exposição doutrinal, e só. Podia somente escrever e explicar. Não podia passar os ritos para ninguém, não podia receber membros na tariqa. Mas Guenon deixa muito claro em tudo o que está falando que não é ele que o está fazendo realmente, é o Sheik que está falando.

Desde o início. Primeiro, esta ideia de que Guenon se converteu ao Islã, não é bem assim… Há páginas e páginas onde o Guenon explica que dentro da esfera esotérica não há conversão, isto não existe. Conversão é uma noção puramente exotérica. Então ele pode adotar uma forma, adotar a outra, passar pelas várias formas sem nenhum problema. Por uma questão até de facilidade expositiva, ele prefere usar os termos da doutrina hindu para explicar seus ensinamentos. O que não quer dizer que ele esteja representando. O ensinamento dele vinha exatamente da tariqa do Sheik Elish El-Kebir.

Quando ele coloca essas coisas, que o ocidente tinha três saídas, a que ele se refere precisamente? Note bem que eu estava falando agora mesmo que uma coisa é você compreender um conceito, uma ideia, e outra coisa é saber a que aquilo se refere no mundo real. Para fazer isto você primeiro terá que fazer esse trabalho imaginativo que eu disse. Por exemplo, o que ele (Guenon) está entendendo sobre catolicismo tradicional. Aí tem um trabalho imaginário a fazer, e depois esse trabalho imaginário tem de ser conferido com os dados históricos e com o restante dos escritos do Guenon. Ele deixa muito claro que o catolicismo na sua integridade é apenas um exoterismo, portanto, uma religião popular. E que o lado esotérico, o lado interior, a parte principal, está nas iniciações cristãs e que só há, a rigor, duas iniciações cristãs: a companheiragem, que era uma iniciação das comunidades de ofícios, e a maçonaria. Portanto, quando ele fala em restaurar o cristianismo tradicional, significa colocar isto na devida ordem, o esoterismo em cima e o exoterismo em baixo.

Então, evidentemente, a Igreja Católica reencontrará o seu caminho na medida em que ela seguir as orientações da maçonaria. A companheiragem já passou por várias tentativas de restauração, mas não existe mais historicamente. Isso que dizer que o segredo esotérico do catolicismo está com a maçonaria e o catolicismo inteiro é apenas um exoterismo. Então o Papa tem de chegar para o mestre maçom e perguntar o que deve fazer. É claro que isto é empulhação, não há outra maneira de dizer isto, por quê? Supor que existe uma doutrina cristã exotérica ensinada pelo Cristo e que foi passada pelos Apóstolos desde o primeiro dia até hoje, formando o que se chama de sucessão apostólica e que existe outra doutrina interior, mais profunda, que foi passada para a maçonaria, isso é empulhação. O próprio Cristo assegura: “Eu nada ensinei em segredo, tudo o que eu disse foi em praça pública e estão aqui os discípulos que ouviram”. Agora, dizer que existiu uma subcorrente esotérica que só foi aparecer no século XVIII na maçonaria? O que é isso minha gente? Isso é um truque, isso é uma empulhação. Isso é absolutamente inaceitável sob todos os aspectos possíveis.

Mais ainda, o Guenon se trai nesse aspecto quando ele trata do caso do São Bernardo. Ao longo de toda a sua obra, ele insiste que a mística é um fenômeno de ordem puramente sentimental, exotérica e popular, sem relação com as iniciações e que o verdadeiro esoterismo está nos antípodas do misticismo. Mas quando Guenon comenta sobre a obra de São Bernardo de Clairvaux (Claraval), por um lado informa que São Bernardo era o mestre da Ordem dos Templários e reconhece os Templários como uma ordem iniciática, das mais altas que já houve no Ocidente. Por outro lado, ele diz que a obra de São Bernardo é essencialmente mística. Opa, espera aí, mas isto é uma contradição tão óbvia, mas tão óbvia, que um autor meticuloso e sério como Guenon não pode ter cometido isto por distração. Com este trecho ele está destruindo tudo o que disse a respeito da relação entre mística e esoterismo. Ou seja, ele está supondo que figuras como, por exemplo, Santa Teresa, que conversava com Jesus todos os dias, tinha apenas um conhecimento místico e sentimental comparado com o conhecimento espiritual direto que um mestre maçom tinha.

O que é que é para fazer com um sujeito que diz uma coisa dessas? É dar-lhe um tapa na cara. Guenon está mentindo. Embora seja uma figura intelectual de nível altíssimo, ele se deixa trair pelos objetivos não declarados da obra dele. E quando o Schuon volta da Argélia, transformado em Sheik da tariqa fundada pelo Sheik al-Alawi, e diz: “Eu vou islamizar a Europa”, Guenon disse: “Este é o primeiro e único resultado obtido pelo meu ensinamento”. Portanto, o catolicismo que ele queria restaurar era o catolicismo maçônico. Ora, isso aí é absolutamente inaceitável. Você supor que é a maçonaria que tem o verdadeiro segredo interior do cristianismo, e que toda a sucessão dos santos, mártires, místicos, etc. conhecia apenas a parte exotérica. Não faz sentido. Mesmo porque Guenon vai dizer que a obra de São Tomás de Aquino é aquilo que mais se aproxima da pura doutrina esotérica hindu no Ocidente. Mas isso está tão desengonçado que não é possível uma distração, o cara está mentindo mesmo. É uma situação muito bem arquitetada, mas profundamente desonesta.

(…) O que você tem de fazer com uma obra como a do Guenon é buscar os pontos de coerência interna. Só buscando a sua coerência interna profunda é que você vai entendê-la como conjunto. Toda a exposição doutrinal seja filosófica, teológica, etc., tem uma espécie de hierarquia de credibilidade interna. Você tem algumas coisas que são cridas porque outras já foram cridas antes, que são mais fundamentais.

(…) Guenon diz que a exposição doutrinal não tem em si seu próprio fundamento. Por quê? O fundamento é dado pela intuição intelectual, a qual só será alcançada mediante as iniciações. As iniciações, por sua vez, só são válidas dentro de organizações que tenham continuidade histórica ao longo do tempo. Em última análise, o fundamento da doutrina de Guenon é o fundamento histórico, depende da continuidade histórica das organizações iniciáticas. E ao mesmo tempo ele vai dizer que a compreensão histórica é a mais baixa que existe. Isso é erro, é distração do Guenon? Não. Se até eu, que sou um idiota, percebi, como ele não vai ter percebido? Eu estou partindo do princípio de que Guenon é muito mais inteligente do que eu e de que o que eu percebi, ele também percebeu. Quando um sujeito desse tamanho não percebe algo, só pode ser por dois motivos, um de ordem patológica e outro de ordem moral – ele está mentindo. Hegel também é muito mais inteligente do que eu. Quando Hegel cai num tipo de contradição essencial – não numa simples contradição, pois isso pode acontecer a todos –, que não é só uma contradição verbal ou lógica, mas uma contradição ontológica, uma impossibilidade absoluta, então é porque ou ele ficou maluco, ou está escondendo alguma coisa. Como não ficou maluco jamais, então está escondendo alguma coisa.

(…) Então, de um autor como Guenon, primeiro, é preciso ler tudo, não pode faltar nada. Segundo, você precisa de uma série de elementos externos para dar-lhe apoio e saber a que ele está se referindo em cada parte de sua obra. Se ele diz que uma tradição só é completa quando seu exoterismo está fundado no seu esoterismo e que toda a Igreja Católica é apenas um exoterismo e que o esoterismo correspondente é a maçonaria, então eu sei que tipo de catolicismo ele quer. E isso é absolutamente inaceitável, isso contradiz as palavras do próprio Cristo. Quando Schuon sugeriu que havia um conteúdo iniciático nos próprios sacramentos católicos, Guenon ficou louco da vida, porque isso invalidava tudo o que ele tinha feito. E, no entanto, é claro que esse sentido iniciático do sacramento existe, porque eles são tudo o que há no cristianismo; não há mais nada além deles. O que você não obteve através dos sacramentos, não será através de um rito maçônico que irá obter. Fica claro, portanto, que Guenon não estava assim tão apaixonado pelo catolicismo quanto parece. E quanto à história da conversão dele, conversão é um conceito que o próprio Guenon invalida radicalmente, que não se aplica ao caso dele. Historicamente, nós sabemos que a iniciação dele remonta já aos anos da adolescência.

(…) Que essa pergunta fique como amostra de como pode ser trabalhoso o esforço de compreensão de uma obra relativamente pequena como a de Guenon, de vinte e poucos volumes. O que fazer com qualquer autor de ordem doutrinal? Primeiro, há que se buscar o ponto de coerência, a unidade daquilo. Buscar a unidade do pensamento é a primeira coisa a ser feita, pois suponhamos que esta unidade não exista, como no caso de Schelling, que teve quatro começos diferentes. Há evidentemente uma contradição, porque significa que o sujeito mudou de ideia. Mas como se deu aquela mutação? O que ele estava procurando em primeiro lugar, o objetivo que ele estava buscando permaneceu ou houve uma mudança radical? Ele tentou fazer quatro vezes a mesma coisa para só acertar no final ou houve uma mudança efetiva? Mesmo no caso em que exista essa intervenção de uma coisa que mudou biograficamente, mesmo aí você terá de buscar o ponto de coerência.

(…) O que eu recomendo a vocês que estão fazendo este curso é não aderir ou pôr-se contra nada disso. Vocês têm de ser a favor de uma só coisa, a filosofia, e a filosofia entendida nesse sentido, como unidade do conhecimento na unidade da consciência, ou seja, a filosofia como consciência responsável. O conhecimento, a aquisição do conhecimento, a transformação desse conhecimento em consciência e dessa consciência em responsabilidade: é só disso que vocês têm de ser a favor. Agora, decidir se vocês são a favor de René Guenon, de Karl Marx… Deixem isso para depois, vocês terão tempo!”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 19, 15/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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