A percepção passiva é tudo, fora dela só existe o que se chama de atividade mental – Olavo de Carvalho

“Quando eu percebo uma coisa de maneira vaga e difusa, não saio dali. Eu volto, e volto, e volto, e volto, até saber exatamente o que foi que percebi. E deixo para exercer a análise crítica muito tempo depois. É isso o que explico no texto da “Contemplação amorosa” e em outros textos de mesmo teor. A percepção passiva é tudo. Fora dela, só existe o que se chama de atividade mental, a criação mental do ser humano. Mas se a nossa atividade de estudo é voltada não para ideias ou palavras, mas para realidades da vida mesma, é claro que teremos de voltar a essas percepções até que a linguagem adequada para falar delas apareça delas mesmas.

(…) Note bem, não diga que você tinha percebido de maneira difusa. Diga o seguinte: “eu não me lembro direito. Eu percebi isso, mas não me lembro direito”. Parece-lhe difusa agora, mas se voltar, verá que aquilo era muito claro. Acontece que você tem dois níveis de atenção, um contínuo, onde funcionam percepção e imaginação, e outro descontínuo, que é o nível da atenção reflexiva, em que você reflete, critica etc. etc… O primeiro é muito mais eficiente, muito mais exato e muito mais claro do que o segundo. Nós achamos que o segundo é mais claro porque temos o domínio mental dele; embora ele seja descontínuo, fomos nós mesmos que inventamos aqueles pensamentos. No primeiro caso você não tem domínio, porque está percebendo a própria realidade, a qual não foi inventada por você. Nós confundimos aquela sensação de poder com a clareza e a nitidez. Isso é básico. As coisas mais importantes da vida, nós já as percebemos em algum momento. Já sabemos, mas sabemos naquele nível contínuo que a nossa atenção reflexiva, por ser descontínua, não consegue captar. Por isso é preciso domar essa atenção reflexiva, para que ela aprenda humildemente a aceitar os dados daquilo que já foi percebido.

(…) A percepção e a atividade imaginária são contínuas – menos contínuas do que a própria realidade, evidentemente, e menos contínuas do que esse conhecimento mais profundo que eu chamo de conhecimento por presença, que é o que vai lhe dar a consciência do ser. É o descontínuo que tem de se adaptar ao contínuo, pois a descontinuidade é puramente mental. Já a realidade não pode ter descontinuidade, ela não é suspensa, tampouco tem intervalo. A unidade do real também não tem intervalo. Ela está aí o tempo todo e com toda a densidade possível. Mas a nossa mente funciona de maneira descontínua. Por exemplo, quantas vezes por dia você consegue pensar conscientemente nesses assuntos de que eu estou falando? Poucas.

Há, pois, uma curiosa inversão, uma vez que aquilo que é contínuo, denso e está permanentemente presente e diante de nós parece-nos vago e difuso, enquanto aquilo que é puramente mental, inventado e descontínuo, isso nos parece muito claro e muito firme. É claro que há um engano nosso! É a mente que tem de se adaptar à realidade. Se ela não quiser, é claro que ela não é obrigada a fazer isto. Mas se você quer ser um filósofo, é isto o que você terá de fazer. E, note bem, não estou falando de uma realidade externa, mas de uma realidade que você já percebeu internamente. É o que chamo de método da confissão, quer dizer, chegar à realidade por admissão do que você já sabe. Não digo nem que seja anamnese, porque ela supõe um esforço de rememoração e estou falando apenas de deixar que essas coisas apareçam, de você se disciplinar para tornar-se discípulo da realidade, saber que quem fez a realidade foi Deus, fazendo disso uma forma de devoção. Tudo isso é também inspirado no Gênesis: Deus fez isso, fez aquilo e daí viu que era bom. O que é que o próprio Deus faz? Ele consente que essa realidade que ele mesmo fez se mostre, ele admite-a, diz que é boa; não discute com ela. Ao praticar esse método da confissão ou da admissão, você estará fazendo um prolongamento da obra divina, aceitando a criação. É exatamente o contrário do que o gnóstico faz, que é a crítica da criação. Nós aceitamos a criação.

Mas, note bem, não é que digamos que a criação é perfeita. A criação não pode ser perfeita. Agora mesmo estou estudando este caso das discussões teológicas que surgiram a partir do séc. XVIII, em que as pessoas diziam assim: “se Deus é bom, como pode a criação ter tantos defeitos, deformidades e monstruosidades?” A criação, vista por um lado, é uma coisa maravilhosa, mas vista por outro, é uma coisa monstruosa e o pior é que nós não conseguimos separar o lado maravilhoso do monstruoso, eles estão inextricavelmente juntos. Houve imensas discussões a esse respeito e é justamente daí que surge o naturalismo teológico de que fala Cornelius Hunter em três livros absolutamente brilhantes. O naturalismo surge como uma postura teológica, não científica, e diz que a criação tem tantas imperfeições que não é possível que ela tenha sido obra direta de Deus. Deus cria as leis naturais e daí elas funcionam sozinhas e fazem o resto. Esta é uma crença que Charles Darwin e todos os naturalistas têm. É uma ideia da teologia e não da ciência: nenhuma ciência jamais pode comprovar uma coisa dessas. Ela está totalmente fora da possibilidade de comprovação por uma ciência, tanto que, ao contrário, é a base de certas investigações científicas que são feitas tomando-a como pressuposto. Mas toda essa teologia da qual sai o naturalismo teológico é uma teologia de fundo de quintal. Todos aqueles teólogos – sobretudo protestantes – que discutiam isto, não conheciam nem Aristóteles, muito menos São Tomás de Aquino e Duns Scot, não tinham aquela sutileza. Já para um sujeito com formação escolástica, era óbvio que a criação não pode ser perfeita, porque a perfeição é de ordem divina. Deus simplesmente não pode fazer uma coisa perfeita, pois esta coisa seria tão perfeita quanto ele. Isto é absurdo! A criação tem, necessariamente, um coeficiente de absurdidade dentro dela, o que é representado pela serpente do Paraíso. No Paraíso, estava muito melhor do que agora, mas lá já havia uma serpente. E o que era a serpente? O germe do mal, que já estava lá e tinha de estar ali. Então, para que discutir isso de “como é que um Deus bom fez um mundo que tem tanta imperfeição?”. Justamente porque Ele é um Deus bom é que o fez, caso contrário teria feito um outro Deus igual a Ele – e isto já seria um problema. Esta é uma questão tão elementar que não vejo nem por que se criou tanta discussão, nem por que as pessoas ficaram tão assustadas. Curiosamente, o naturalismo teológico tinha dois tipos de argumentos em favor dele. Uns alegavam que a natureza é perfeita em si mesma, que é tão perfeita que tem em si sua própria explicação; e usavam isto em favor do naturalismo teológico. Outros diziam que a natureza está cheia de imperfeições e isto é a prova de que ela não foi criada diretamente por Deus, mas se desenvolve por si a partir das leis naturais. Ou seja, é o per fas et per nefas, você usa os dois argumentos contrários para provar a mesma coisa. Então, esse negócio de naturalismo teológico é uma bobagem, um problema mal colocado e, portanto, mal resolvido.

Essas coisas começam a se resolver à medida que se vai baixando a bola da atenção reflexiva e, sobretudo, do pensamento construtivo, do pensamento lógico, adequando-os a uma realidade contínua. É uma coisa terrível chegar a pensar, como Kant, que a realidade é toda feita de fragmentos e é a sua mente que unifica tudo aquilo. Como pode ser a minha mente, se eu frequentemente acordo e não sei onde estou? Você nunca acordou com essa sensação de não saber onde está e depois olhou e viu que estava no mesmo quarto do dia anterior? A realidade externa restaurou o senso de unidade da sua mente. A sua vida biológica, por exemplo, é absolutamente contínua, ela não teve um segundo de interrupção, senão você estaria morto. E a sua vida mental – mesmo a mais intensa, mesmo a imaginativa – não pode ser tão contínua assim. Tudo o que é mental é descontínuo, mas a realidade é contínua. O descontínuo não pode abarcar o contínuo, mas pode modelar-se por ele, pode ser fiel ao contínuo. E, na verdade, é isto o que as pessoas fazem na vida prática, elas adequam-se a isto. Na aula passada, vocês viram que a coisa mais espantosa da vida humana é como, na vida prática, as pessoas aplicam as categorias com enorme precisão e não se confundem.

Essas pessoas que estudam esse negócio de inteligência humana e inteligência animal entendem como inteligência somente a capacidade silogística, raciocinativa, a qual em qualquer computador é infinitamente mais poderosa do que na minha mente. Há um tempo atrás, surgiu – acho que na revista inglesa Prospects – um artigo em que um matemático lamentava-se de que hoje em dia as ciências utilizam-se de computadores que fazem operações matemáticas tão complexas que ninguém pode conferir o resultado delas. Para você conferir manualmente o resultado dessas operações levaria séculos. Então, ou você confia no computador sem saber direito o que ele fez, ou você desiste daquele cálculo. Isto para você ver como a mente humana é descontínua e como a capacidade de raciocínio silogístico não é uma propriedade exclusivamente humana; qualquer bicho – e até uma máquina – tem. Já a percepção e a aplicação das categorias nenhuma máquina tem: isto é você que tem de botar na máquina e, mesmo assim, não pode colocar inteiramente, mas só os resultados disso. Você não pode ensinar o pensamento categorial a uma máquina porque o pensamento categorial pressupõe a percepção. E não só pressupõe a percepção, mas também a ação, a responsabilidade humana, os temores humanos etc. etc., ou seja, propriedades de seres humanos reais. Quando, em vez de levar em conta somente a mecânica silogística, você leva em conta o efetivo funcionamento da inteligência humana, você vê que ela é incomensurável com a de qualquer animal. Há uma distinção infinita. Não há uma diferença de grau, mas de espécie.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 019, 15/08/2009.


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