A unidade do real é uma unidade complexa que implica certas dimensões incomensuráveis que estão igualmente presentes – Olavo de Carvalho

“Quando eu defini a filosofia como unidade do conhecimento na unidade da consciência – note que não se trata da unidade do conhecimento no sentido teorético – isto não quer dizer que você fará uma teoria geral que abarque todos os conhecimentos. Essa teoria não existe e jamais existirá. O que existe é a tensão da consciência em direção a uma unidade da qual ela aproxima-se como se fosse uma assíntota: ela está sempre indo para lá e nunca chega, porque essa unidade só Deus tem. Mas nós estamos indo para Ele. Ao mesmo tempo em que se está indo para ele, esta experiência repetida da tensão em direção à unidade unifica a sua personalidade, a sua memória, a sua consciência. E é por isso mesmo que o exercício desta coisa não pode se distinguir da vida real do sujeito. Não se pode fazer disso uma atividade profissional que é distinta de sua vida, não dá pra fazer isso. Ou seja, o instrumento com o qual você filosofa é a pessoa real inteira.

A sinceridade de você para você mesmo é condição sine qua non deste negócio. É por isso que dá para você transitar entre todas as coisas, mesmo quando você não tem os elos teóricos. Por exemplo, se você me perguntar como sintetizar os princípios da química com os da gramática, eu diria que não sei e acho que é impossível. Trata-se de dois domínios distintos da realidade, sem conexão direta entre si, e que só estão conectados no nível da própria unidade do real. A unidade do real é uma unidade complexa que implica certas dimensões incomensuráveis que estão igualmente presentes. Então é uma unidade tensional. Quando eu dei a aula sobre a técnica eu disse que qualquer técnica de fazer qualquer coisa junta conhecimentos heterogêneos, ou seja, conhecimentos distintos que não podem ser reduzidos a um mesmo princípio, e lhes dá a unidade de um corpo material.

Então, por exemplo, essa garrafa tem um formato copiado das garrafas de vidro. Portanto, o formato pode ser exatamente o mesmo para uma garrafa de vidro ou de plástico, isto é, de petróleo. Você pode explicar o vidro e o petróleo pelo mesmo princípio? Não. E por esses princípios, seja o do petróleo ou do vidro, você não pode explicar as propriedades da água. Este objeto é cientificamente inexplicável. Ele tem uma unidade física e você o reconhece, mas ele não pode ser reduzido a um princípio científico. Ele apela a princípios científicos heterogêneos e incomunicáveis. E isto é um dado da realidade. A realidade se compõe de coisas assim. Ela unifica coisas que, em si mesmas, são heterogêneas. Por isso mesmo, não pode existir a teoria geral de tudo. O que pode haver é uma meditação sobre a unidade do real. Mas a unidade do real é o fundamento da própria atividade filosófica. A atividade filosófica não pode abarcá-la e explicá-la, porque senão você se colocaria acima da unidade do real, criaria uma supra-unidade teorética acima da unidade do real. Isto não só é impossível, como é uma besteira tentar fazer isso, uma bobagem. O nosso esforço é para nos adequarmos à unidade do real, não para inventar uma outra unidade teorética acima dela.

É curioso quando os grandes sistemas da metafísica clássica foram reconhecidos como deficientes, sobretudo por Kant, as pessoas ficaram muito assustadas. Não precisaria nem dizer que qualquer sistema que seja universalmente explicativo terá necessariamente que falhar. Ele teria que ter uma unidade interna superior à unidade do real, e isso não dá pra fazer, nem pelo próprio Deus. Se Deus fizer a Teoria da Unidade Divina, essa teoria tem que estar mais unificada do que Ele mesmo. Não só precisa inventar outro Deus, mas um outro Deus acima Dele mesmo. Tudo isto aí vem da ideia de criar um mundo mental superior à realidade. Quando, na realidade, a própria realidade é a nossa mestra. A criação divina é nossa mestra.

(…) A ambição de criar um mundo mental superior à própria realidade é essa exaltação imaginativa. Isto não é nem mania de ser Deus, é querer ser superior a Deus. É querer explicar o próprio Deus. Nós estamos aqui para explicar o que nos pareça contraditório e absurdo. Ou seja, a explicação destina-se a reinserir no real aquilo que está parecendo contraditório com o real. Não é para encontrar uma explicação acima do real, é só para inserir nele novamente. A unidade já vem dada como um pressuposto de todo conhecimento, você não tem que criar uma unidade. Somente aquelas partes que, momentaneamente, parecem absurdas, você as restaura dentro da unidade do real. E isto é tudo.

A vida seria um absurdo se nós vivêssemos realmente imersos num caos, onde tudo é tricotado e nós tivéssemos que criar a unidade do real em si. Seria uma trabalheira infernal! E pior, cada um que viesse teria que fazer tudo isso de novo. Você acha que é possível uma coisa dessas? Não, ao contrário: a unidade do real está dada, ela é o pressuposto, e nós estamos dentro dela. É na nossa mente que a percepção na unidade do real falha, de vez em quando. Então o que fazemos? Consertamos não o real, mas a nossa mente. Pegamos aqueles dados que pareceram absurdos, contraditórios e buscamos onde estão eles na unidade do real. E isto é tudo, a hora que você faz isso, acabou! Aquele problema está resolvido. Como a nossa mente é necessariamente descontínua, então sempre vão aparecer novos problemas.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 019, 15/08/2009.


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