O raciocínio epidemiológico está errado na base, quando ele não leva em conta a comparação entre os riscos – Olavo de Carvalho

“O defeito intrínseco da abordagem epidemiológica é que ela não se aplica a nenhum caso concreto. Quer dizer, eu me lembro da história do Darcy Ribeiro que estava lá com câncer e daí vieram informar que, no caso dele, havia 30 por cento de chance do câncer ser remissivo, isto é, curar sozinho. Aí o Darcy falou: “Tô nessa”, saiu do hospital, foi pra casa e viveu mais de 40 anos. Mas ele estava nessa porque ele decidiu? Ele podia estar nos 70 por cento, mas estava nos 30.

Em segundo lugar, você precisa ver que a avaliação de risco é uma coisa enormemente arriscada, sobretudo quando você avalia esses riscos isoladamente, e não os compara com outros. Por exemplo, essa semana mesmo eu estava falando no “True Outspeak”, quantas pessoas morrem de câncer por ano? São seiscentas mil. Quantas morrem por causa da medicina, por causa de erros médicos, causas iatrogênicas? Um milhão. Então a medicina já ficou mais perigosa que o câncer. Então, na verdade, a medicina nos EUA é a maior causa de morte que existe. Agora, se você fumar, você tem um risco de 0,0001% de morrer. É, mas se eu for me consultar com você eu tenho um risco muito maior. Então o risco estatístico, o que é uma probabilidade? Uma probabilidade é uma necessidade limitada. Isso é uma coisa que tem que acontecer, mas não sempre. Acontece com uma frequência X. A probabilidade tem que ser quantificada, porque probabilidade não quantificada significa nada.

A probabilidade só tem significado concreto se for comparada a outros riscos. Porque o risco em si, o risco abstrato, não tem o menor sentido porque parte do princípio de que o normal é não sofrer risco nenhum. Agora, existe alguma vida humana sem risco? Não. Então, isso quer dizer que se você tem um risco de 1%, 2%, 3%, esta estatística em si mesma não significa nada. Um risco só vale alguma coisa em comparação com outro risco. Por exemplo, por que nós sabemos que é perigoso viver no Rio de Janeiro? Porque nós sabemos que vivendo em outra cidade você corre menos risco. Agora, se o Rio de Janeiro fosse a única cidade do mundo, você não poderia dizer que aquilo é perigoso, porque não teria padrão de comparação. Você estaria arriscado a levar uma bala perdida na cabeça porque seria da natureza das coisas levar uma bala perdida na cabeça. Sabe aquele negócio de que para morrer basta estar vivo? Qual é o risco de morte que nós sofremos? É de 100%. Então quer dizer que isso não significa nada. Agora se tem outro lugar onde as pessoas estão vivendo um pouquinho mais, então começou a significar algo.

Acontece que esse pessoal da epidemiologia vive hoje de buscar riscos hipotéticos, e pra isso se aloca verbas de pesquisa enormes. Então quer dizer: para se obter a verba você precisa provar que existe o risco do risco, e que vale a pena estudar aquilo. Então o resultado toda hora é que eles estão produzindo riscos e mais riscos e mais riscos e mais riscos. Espera aí! E a comparação, quando é que vocês vão fazer? Não vão fazer nunca. Então, meu filho, se você come feijão, você corre o risco de x%, então, opa, é melhor não comer. Se você come açúcar, então corre o risco daquilo. Então espera aí! Soma tudo e veja os riscos, então você vê que algumas coisas que ele está chamando de riscos não são riscos de maneira alguma. O dado estatístico isolado de outros dados estatísticos é uma debilidade mental, é uma deformidade mental. Tudo o que é estatístico é, por natureza, comparativo. Agora, se você está comparando o risco de x% com a hipotética ausência de risco, então você está supondo que ninguém corre jamais risco algum, somente as pessoas que estão dentro daquele caso. Essa é a falha metodológica fundamental. Não existe risco de 1, 2 e 3%. Só existe risco comparativo. Neste sentido o maior risco é submeter-se a qualquer tratamento médico de qualquer natureza que seja.

Aqui nos Estados Unidos, as doenças que mais matam são o câncer e as doenças cardíacas. O número de pessoas que morrem com doenças cardíacas é aproximadamente metade das que morrem por doenças iatrogênicas. Agora, o pior é que nós realmente precisamos da medicina, não podemos jogar ela fora. Eu digo, bom, tem situações em que você pode evitar ir ao médico, mas tem situações em que você não pode. Então daí você tem um caso de risco altíssimo em comparação com outros riscos. Por exemplo, você vê campanhas contra armas de fogo. Agora se você pegar o número total de homicídios por armas de fogo, ele é 1% do que morre na medicina, então o risco de você ser assassinado por arma de fogo é muito menor do que de você morrer na mão do seu médico.

Então o raciocínio epidemiológico está errado na base quando ele não leva em conta a comparação entre os riscos, quando ele pega os riscos abstratos. Mas pegar riscos abstratos é a base da disputa por verbas de pesquisa. Então o sistema de produção do conhecimento está viciado. Mais ainda, estes riscos estatísticos, tão logo são descobertos, são usados em campanhas para o maior controle social. Então por exemplo, começou com o cigarro, depois foi para o fumo passivo e agora tem o fumo de terceiro grau, que o que é? O sujeito que fuma lá fora, mas traz partículas de nicotina na roupa, que pode matar as pessoas entorno. Há um risco de 0,00001%. Então, se você disser que há um risco de x%, por pequeno que seja, o médico é obrigado a prevenir você. Agora, ele não diz: “Você pare de fumar, porque senão você vai correr um risco grande; agora, se você der ouvidos a mim, estará correndo um risco muito maior”. Ele não vai dizer isso.

Então qual é o erro? O erro é a posição social da medicina como instrumento de controle social, e também a própria concepção do Estado como aquele que deve proteger a comunidade contra todos os riscos possíveis e imagináveis. Qual é o fator mais assassino no mundo depois da medicina? O Estado. Quem é capaz de matar tanta gente quanto o Estado? Ninguém. Aí é o caso de você botar a raposa pra tomar conta do galinheiro. E todo esse pessoal que está alertando contra riscos, está fornecendo argumento ao Estado para que ele crie novos instrumentos de controle social, e ele adora isto e por isso mesmo financia isto. Agora, se você aceita a proteção estatal contra estes riscos hipotéticos, logo vem outro, e outro, e outro, e outro e isso nunca acaba. Por exemplo, toda vez que eu entro aqui numa conferência, a conferência de “conservatives”, eu chego lá na porta e tem uma placa onde está escrito: esse edifício é “smoking free”. Veja, a expressão é invertida, dá a impressão de que está te oferecendo uma liberdade, mas na realidade está te proibindo. Portanto, se vocês são “conservatives” e já entraram no discurso invertido, aceitaram esse controle estatal sobre a conduta particular e querem me dizer que são conservadores, vocês já perderam a briga. Só aí já perderam, porque não é para aceitar nada nunca. Olha, a primeira proteção estatal que eu quero é a proteção estatal contra o Estado. Isto é à base da constituição americana. A constituição foi feita para proteger as pessoas contra os próprios autores da constituição, olha que coisa maravilhosa. Está que nem eu no meu programa “True Outspeak”, em que começo rogando a Deus não proteção a mim, eu rogo a Deus proteção aos meus inimigos contra mim, está entendendo? O Estado americano foi feito nesta base, rogando a Deus que protegesse as pessoas contra o próprio Estado. E isto é o principal. E o resto? O resto as pessoas se viram.

(…) Você olha a vida de Stalin, olha a vida de Fidel Castro, olha a organização que eles tinham nas suas famílias. Olha, a minha família é uma bagunça, mas não tem desrespeito, não tem um matando o outro, não tem isto. Se eu não tivesse nem isto eu não teria cara para comparecer diante de você pra falar um negócio desse. Agora, você vai ver lá, a filha do Fidel Castro fugiu pra Miami, o regime é tão bom que até a filha do cara foge, e são esses caras que querem dirigir a sua vida quando não são nem capazes de dirigir sua casa! Então basta um pouquinho de imaginação pra você perceber que essa ideia da regulação total é louca em si. Agora, uma regulação baseada em riscos estatísticos hipotéticos, o que é isto, meu filho? Quer dizer, eu vou querer que o Estado me proteja por risco hipotético. Se você já aceitou isso, você já se aviltou até o fim, sobretudo porque aquele que está te oferecendo, aquele que através do Estado oferece a proteção é ele próprio um risco. Quer dizer, eu já tinha visto isso no Brasil no tempo em que eu editava revista médica. O doutor Carlos da Silva Lacaster, que era um grande pneumologista, já tinha chegado a essa conclusão, falando: “olha, a coisa mais perigosa que tem é a medicina”. E isso nos anos 60.

Agora, aqui nos EUA, ainda tem uma coisa que é pior do que médico, que é o advogado. Está todo mundo louco pra processar o médico e meter ele na cadeia, e ele vai pra cadeia e mesmo assim ainda demora. Agora, imagina no Brasil, onde é impossível condenar um médico por qualquer coisa. As estatísticas de iatrogenia no Brasil deve ser um negócio assim, majestoso, mas essa estatística jamais vai existir. Eu acho que a última vez que alguém fez isso foi o Carlos da Silva Lacaster, que é um cara de quem todo mundo tinha medo, porque ele era um catedrático da USP, secretário de saúde, e ninguém falou nada. Ele publicou o livro e todo mundo fez de conta que não viu, mas ninguém falou mal. Eu imagino que a estatística de erro médico no Brasil seja um negócio esplendoroso, mas vão falar: “como é que o máximo fator de risco vai nos proteger contra os outros riscos?” Isso aí é como o socialismo. No socialismo, a criminalidade é baixa porque é preciso ter o monopólio estatal do crime, não é? E se deixasse o banditismo florescer? Vamos supor que na União Soviética acabou e agora está liberado o banditismo, você pode matar quem você quiser. Eles não chegariam a matar tanta gente quanto o Estado matou. O banditismo avulso nunca é tão produtivo quanto o banditismo estatal.

Então, vamos dizer, o próprio conceito epidemiológico está errado em si, por não ser de ordem comparativa. Então quando você vê, por exemplo, esse negócio do cigarro, eu realmente não gosto de falar disso, por quê? Porque eu sou um fumante inveterado, então as pessoas vão dizer que eu estou falando em causa própria, se bem que eu não ganho nada com isso e só gasto dinheiro com essa porcaria. Mas quando você vai ver, o fumo está associado a certas dependências, não quer dizer que ele causa, prova de causa não tem nenhuma, nenhuma, nenhuma, é 0,00%. Está estatisticamente associado a tais coisas, de tal modo que no fim das contas morre 400.000 fumantes por ano. Morrem mais ou menos na mesma idade dos outros, então pode até haver um risco, mas é tão remoto que só de você pensar nisso já é neurótico. Agora, vale a pena você neurotizar uma sociedade inteira e criar instrumentos de controle social extremamente draconianos para proteger as pessoas contra um risco indireto e hipotético? Mas quem tem direito disto?

Isso aí já é um risco. Você está dando autoridade, está dando poder a uma entidade que em si é mais mortífera do que aquele risco que você está correndo. Lembra o que eu falei minutos atrás de quando vem o mundo burguês? A base do mundo burguês é a busca da segurança. Então essa é uma das contradições do capitalismo, quer dizer, o capitalismo cria uma vasta classe média, pega os caras que estavam na miséria total, dá uma vida melhor pra eles, dá lá uma casinha, um carrinho, um bom emprego e daí o sujeito começa a ficar com medo de perder aquilo. E daí o que ele faz? Quer um governo que proteja contra aquilo e que intervenha em tudo, então quer a porcaria do socialismo.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 19, 15/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui e acesse o acervo referente ao Olavo de Carvalho.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: