A primeira coisa que temos de fazer, com todos os textos que vocês lerem, é transformá-lo de uma exposição em um drama, ou seja, articular o conflito – Olavo de Carvalho

“A primeira coisa que temos de fazer, tanto com esse texto como com todos os textos que vocês lerem, é transformá-lo de uma exposição em um drama, ou seja, articular o conflito. Onde não há conflito não há nenhuma especulação filosófica a fazer. Sempre há um conflito – subjacente ou explícito -, e é exatamente isso que vocês vão ter de reviver e reconstruir imaginativamente. Como no caso existe uma série de referências históricas a um tempo pretérito, isso quer dizer que os personagens do drama nos são desconhecidos, ou os conhecemos muito vagamente. Nós vamos ter de dar substância a esses personagens. Para isso, nós vamos ter de fazer, evidentemente, um trabalho de pesquisa em dicionários filosóficos, em histórias da filosofia e descobrir quem são esses vários personagens. Claro que não vamos ter de estudar tudo a respeito deles, mas somente aquilo que se refere, aquilo que é pertinente ao drama que está esboçado aqui.

Primeiro, nós vamos ter uma compreensão esquemática do drama, do problema; em seguida, vamos preenchê-lo do conteúdo informativo e histórico necessário; em terceiro, vamos remontá-lo já com seus conteúdos. Vamos partir primeiro de uma visão sintética do texto, em que nós vamos apenas captar a fórmula do que está sendo colocado; em seguida, nós vamos preencher de conteúdo cada um dos elementos que estão aqui mencionados; e em terceiro, nós vamos montar o drama inteiro, vamos recolocar esses vários elementos históricos separados, na articulação teórica que está dada no próprio texto. Então esse é um trabalho em três etapas. Não interessa o tempo que isso vai durar. Se você ficar seis meses lidando só com esse texto e conseguir fazer isso, você vai aprender mais sobre filosofia do que se ler vinte livros de filosofia. Então, um detalhe importante: livros de filosofia não são, evidentemente, como livros de ficção. Estes são um sonho acordado dirigido que em princípio não devem conter problemas de interpretação do próprio texto, devem ser mais ou menos transparentes para que o sonho transcorra sem ser interrompido. Se um livro de ficção, por exemplo, tiver um vocabulário muito difícil, você vai tropeçar na própria camada linguística e as imagens de sonho dificilmente chegarão a se compor. É um problema que acontece quando você lê João Guimarães Rosa, onde o elemento poético, no sentido moderno do termo, quer dizer, o elemento puramente verbal, se sobrepõe de tal modo ao elemento onírico que você não chega a compor o sonho. As pessoas se encantam com Guimarães Rosa por conta das sonoridades e não chegam a vivenciar o drama. É o que acontece, por exemplo, na literatura inglesa, na comparação entre John Milton e Shakespeare. As frases de John Milton são extremamente encantatórias, muito musicais e, por causa disso, você se detém nessa camada e fica em uma espécie de deleitação estética na camada verbal, e o drama que está sendo vivenciado no fundo aparece tênue. Ao passo que, em Shakespeare, é exatamente o drama que aparece em primeiro plano, quer dizer, as palavras facilitam o trabalho onírico. O que mostra que Shakespeare é um poeta enormemente maior do que John Milton, por maior que seja Milton.

(…) Para dar um exemplo, vou usar o verso de Fernando Pessoa. Ele dizia assim, se é que eu me lembro direito, pela ordem:

“Súbita mão de algum fantasma oculto

entre as dobras da noite e do meu sono

Sacode-me e eu acordo, e no abandono

Da noite não enxergo gesto ou vulto.”

Precisa dizer mais alguma coisa? O sujeito acordou de repente e sentiu uma presença maligna, sinistra. Com quatro linhas, Pessoa já o pôs dentro dessa situação, ou seja, a camada verbal não chama a atenção em si mesma, ela é transparente, por assim dizer, e por isso mesmo ela é muito bem feita. Porque se o que você quer é induzir no leitor a experiência dessa presença sinistra que aparece no meio da noite, então essa experiência não pode ser atenuada ou atrapalhada por considerações de ordem puramente verbal. É claro que existe uma construção verbal magnífica, mas ela não aparece no primeiro plano; no primeiro plano vem a experiência onírica. Nesta experiência também existem elementos verbais, é evidente, mas o que Fernando Pessoa está querendo transmitir é uma experiência muito concreta, muito viva, e ele consegue fazer isso passando direto pela camada verbal, e também fazendo com que o leitor passe.

No Brasil, justamente por incapacidade de chegar à segunda camada – a experiência onírica -, as pessoas têm uma tendência muito forte em ficar lambendo a camada verbal por si mesma. Por isso elas gostam das composições do Chico Buarque de Holanda, do Caetano Veloso, que têm lá uns trocadilhos, umas coisinhas assim. As pessoas as acham lindas porque fazem cócegas no ouvido, mas, quando você vai ver, qual a experiência que tem por trás? Quase nenhuma.

O que nós falamos de conteúdo no texto não é necessariamente referência ao mundo exterior, é uma experiência onírica, uma experiência de fantasia, experiência de sonho acordado dirigido ao qual você está sendo convidado. Quando você vai ver, nestes autores que as pessoas apreciam tanto, a experiência onírica é um nada, ela é muito pobre em relação ao esforço verbal despendido. Isso acontece até com Guimarães Rosa – não em todos os textos do Guimarães Rosa, mas frequentemente ele cai nisso aí.

(…) Agora, no texto filosófico, alguma referência história é absolutamente inevitável. É inevitável por quê? Porque todo texto filosófico é uma discussão com algum outro texto filosófico, ou com vários. Então, atrás do que está expressamente afirmado se perfila a imagem do adversário. Julián Marías dizia que a fórmula da tese, da afirmação filosófica não é A é igual a B; é A não é B mas sim C. Benedetto Croce também dizia: “para você compreender um filósofo você precisa saber contra quem ele está discutindo.” Quer dizer, o texto filosófico é necessariamente um diálogo, uma discussão, um debate com alguma coisa. Essa coisa pode estar expressamente presente ali ou pode estar apenas insinuada. Isso quer dizer que o conhecimento da história da filosofia é condição para você compreender qualquer texto filosófico. Lembrando aquele negócio do Jorge Luís Borges, que para você entender um único livro é preciso que você tenha lido muitos livros. Então isso quer dizer que, necessariamente, vai haver um período de leitura sem muita compreensão, que é o que acontece sempre no começo dos estudos; um período, vamos dizer, de impregnação confusa.

Quando eu dei o curso de história da filosofia lá na É Realizações, eu tinha consciência disso. Eu tinha consciência de que por mais claro que eu tentasse ser, o que eu estava tentando transmitir para eles jamais passaria de uma primeira impressão confusa. Essa impressão confusa faz parte dos materiais que você vai ter de acumular para depois você fazer uma leitura mais refletida e mais nítida.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 020, 22/08/2009.


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