Os nossos pensamentos são coisas que nós criamos e que idealmente representam a realidade – Olavo de Carvalho

“Você só consegue verbalizar o quê? Aquilo que você mesmo pensou. Nós não conseguimos dizer o que nós vemos, o que nós sentimos, o que nós experimentamos. Nós temos que transformar isso em símbolos, em esquemas da memória e os esquemas da memória são, por sua vez, transformados em conceitos verbais e aí você fala.

Ou seja, nós só falamos o que nós pensamos. Nós não falamos o que nós percebemos. E esse é o grande problema humano. A vantagem é o seguinte: por trás do que eu penso, está o que eu percebo e por trás do que você pensa, está o que você percebe. Nós falamos coisas diferentes, mas nós percebemos a mesma. Por quê? Porque nós estamos realmente no mesmo mundo. O simples fato de eu falar com uma pessoa já subentende que estou no mesmo mundo que ela e que nós temos a experiência em comum.

Se nós prosseguirmos a discussão somente com base no nosso pensamento, a dificuldade vai ser muito grande e provavelmente não chegaremos à conclusão alguma. Mas se nós formos capazes de recuar para o fundo de experiência que nos é comum, aí provavelmente saberemos do que estamos falando.

Quando Santo Agostinho diz aquele negócio do tempo: quando não me perguntam, eu sei. Quando perguntam, eu não sei mais. Isso acontece não só dentro de um cérebro humano, mas também entre pessoas. Quando você não discute certos assuntos com elas, vocês se entendem perfeitamente. Quando começam a discutir, não se entendem mais. Por que é que isso acontece? Porque a sua razão reflexiva não funciona na velocidade e com a eficácia da razão espontânea.

Qual é o segredo? Se nós tentarmos explicar tudo bonitinho, tudo certinho, tudo com conceitos estabilizados, nós vamos nos prender no plano da razão reflexiva e vamos perder contato com a razão espontânea, que é o plano no qual nos entendemos uns aos outros.

Ora, o único meio de expressão que nós temos da experiência espontânea é a expressão analógica e simbólica através da linguagem poética ou literária. Não há nenhuma outra. E a expressão poética ou literária tem a seguinte característica: os significados nela não se estabilizam. Eles estão continuamente se movendo conforme o contexto e conforme o momento da leitura. Se eu leio num momento eu percebo de uma certa maneira, num outro eu percebo de uma outra. Mas eu sei que eu estou me referindo sempre à mesma coisa. Essa riqueza de possibilidades e essa sutileza semântica da linguagem literária é o único meio de acesso que nós temos a uma comunicação sobre a experiência. As outras linguagens, como a filosófica e a científica, não descrevem a experiência. Elas só falam dos nossos pensamentos, e os nossos pensamentos não são a realidade. Os nossos pensamentos são coisas que nós criamos e que idealmente representam a realidade, mas representam a realidade só para quem nos entende e teve a mesma experiência que nós e, portanto, reconhece aquilo do qual nós estamos falando. Esse reconhecimento depende do quê? Da riqueza e flexibilidade da linguagem de cada um. Depende da compreensão linguística de cada um. Se o vocabulário do sujeito é pobre e a sua capacidade de elaboração verbal é deficiente, como é que ele vai poder, por trás das pobres criações da minha razão reflexiva, saber a que experiências eu estou me referindo? E como é que ele vai poder, por trás da diferença entre nossos discursos, captar a unidade da realidade sobre a qual nós estamos discorrendo? Ele não vai poder fazer isso.

É por isto mesmo que o aprendizado da literatura e das letras é o primeiro aprendizado humano. É a primeira coisa que você deve fazer. Você pode ser um sujeito muito inteligente sem saber fazer contas. Isaac Newton e Albert Einstein não sabiam fazer contas. Alguém tinha que fazer as contas para eles. Mas ninguém vai dizer que eles não tinham inteligência verbal. Então, a capacidade de percepção todos nós temos. A razão espontânea, todos nós temos. Muitas pessoas que, no plano da razão reflexiva não são grande coisa, são muito boas no plano da razão espontânea. E a gente vê isso pela adequação entre as ações dela e a realidade. Às vezes não são nem pessoas. Até animais têm isso. Uma vez eu estava conversando com um jogador de pólo e ele me disse o seguinte: “Quem joga não sou eu. É o cavalo. É ele quem sabe onde está a bola. Eu nunca sei.”. Então, até um animal pode ter isso até certo ponto. Alguma forma de razão espontânea o cavalo tem.

(…) A razão reflexiva é um produto cultural altamente deficiente e ela só funciona se estiver baseada em duas coisas: primeiro, a riqueza verbal de cada um e segundo, a razão espontânea. Na verdade, são três etapas: a riqueza verbal, o universo de símbolos conservados na memória e, por baixo disso, a experiência da razão espontânea. Aí sim é que nós nos entendemos. Nós nos entendemos não por causa da eficácia e das clarezas das nossas explicações, mas por causa da comunidade de experiências que nós temos no plano da razão espontânea, experiências que não chegam mesmo a serem expressas. São, no máximo, insinuadas.

Isso quer dizer que se o sujeito não tiver uma compreensão suficiente da linguagem, das sutilezas da linguagem, das infinitas sutilezas da linguagem, ele vai tentar resolver tudo no plano da razão reflexiva e, é claro, só vai chegar a contradições. Porque a razão reflexiva é apenas o que você constrói com seus próprios pensamentos. Ela, na verdade, o afasta do mundo. Quando você fala “nós funcionamos por abstração”, abstração é separar uma coisa da outra. A razão reflexiva é um instrumento absolutamente necessário, porque sem ele você não conseguiria sequer expressar as suas experiências e não poderia jamais entrar no tecido da experiência comum. Mas, por outro lado, é uma coisa muito perigosa porque ela o fecha para experiência real e o encerra dentro da experiência pensada. Puramente pensada. E, mais ainda, ela tende a funcionar de maneira lenta, travada e extremamente problemática. (…) Isso quer dizer o seguinte: nós não podemos nos livrar da razão reflexiva. Nós precisamos dela. Mas, nós devemos policiar o seu funcionamento. Quando ela começar a ir para muito longe da razão espontânea, você manda parar.

Agora, todo o nosso sistema educacional nos induz a esquecer a razão espontânea e a excitar a razão reflexiva o tempo todo. Ao ponto de que as pessoas preferem um erro que elas possam expressar verbalmente a uma verdade inexpressável. Mais ainda: preferem errar junto com os outros que acertarem sozinhas. É esse exatamente o procedimento contrário ao que eu estou tentando ensinar aqui. Vale mais você entender uma coisa realmente que você não possa explicar pra ninguém do que você conseguir explicar pra todo mundo e convencer todo mundo de uma coisa que está totalmente errada.

(…) Quando eu insisto que o aprendizado literário é o primeiro e, na verdade, o único que interessa, isso se deve ao fato de que se você tiver este, o resto você aprende sozinho. É o seguinte: compreender a linguagem humana com todas as suas sutilezas e as suas nuanças como uma experiência viva de intercâmbio com outras pessoas. Não como transmissão de conteúdos catalogados, dicionarizados e informatizáveis. Por exemplo, se você pegar os conceitos usados numa ciência: o ideal de uma ciência é estabilizar de tal modo os seus conceitos e seus métodos que um computador possa realizar o trabalho no lugar do ser humano. Só isso já mostra que tudo que nós chamamos de ciência é uma atividade intelectual inferior. Ela é automatizável. O ideal dela é tornar-se automatizável. Graças a Deus, nunca consegue. Quer dizer, ainda é preciso uma dose formidável de inteligência para a prática das ciências porque todas elas são imperfeitas. Porque, se fossem perfeitas, era só informatizar tudo e transformar num plano de computador e o computador fazia as pesquisas seguintes. Quer dizer, reduzir tudo a um protocolo repetível é o ideal das ciências. Esse ideal não é atingível, graças a Deus. Porque se ele fosse atingido, a ciência destruiria a inteligência humana no mesmo momento (a ciência no sentido atual, está certo? E que, na verdade, é um conceito falso de ciência).”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 20, 22/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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