Os grandes momentos da literatura universal só acontecem em meios onde a linguagem do escritor é mais ou menos a mesma linguagem da cultura em torno – Olavo de Carvalho

“Já que estamos falando da educação literária, precisamos levar em conta o seguinte: os grandes momentos da literatura universal só acontecem em meios onde a linguagem do escritor, do poeta, é mais ou menos a mesma linguagem da cultura em torno, da sociedade inteira. Apenas um pouco mais elaborada ou muito mais elaborada. Muito mais condensada e eficiente, por assim dizer. Isso quer dizer que o mundo imaginário do poeta, do escritor, não é muito diferente da imaginação do cidadão comum. É apenas mais rico e mais claro para ele.

É como se ele tivesse penetrado no mundo da razão espontânea que, certamente, é o mesmo nele e nos outros, com um pouco mais de atenção, ou seja, enquanto na maior parte das pessoas, a razão espontânea vai funcionando e elas vão esquecendo os produtos da razão espontânea, o poeta (tanto faz poeta ou filósofo, ambos deveriam fazer isto) se detém um pouco mais ali para fazer o exercício Socrático de tomada de consciência daquilo que você já sabe. Então, se você remontar à Europa do século XIII, você verá que o mundo de Dante ou de São Tomás de Aquino não é muito diferente do mundo do cidadão comum, do camponês medieval. O que eles acreditam é mais ou menos a mesma coisa. Os seus sentimentos de base são mais ou menos os mesmos. Apenas, o sábio sabe mais. Essa é a única diferença.

Porém, quando você dá um salto para a poesia moderna, você vê que o mundo de um Mallarmé ou até de um T. S. Eliot pode ser absolutamente incomunicável a um cidadão comum. Quer dizer que a poesia se tornou hermética. A filosofia então, nem se fala. Então isto significa que existe uma cultura para a maior parte das pessoas e outra para as pessoas de cultura. É claro que os produtos, tanto da literatura quanto da filosofia, não podem ter nessas épocas aquela força imensa que tinham, por exemplo, as obras de Platão ou o poema de Dante ou o teatro de Shakespeare ou a filosofia de São Tomás de Aquino. Por quê? Porque você já não personifica uma cultura inteira. Você personifica um grupo e fala a linguagem desse grupo. Ora, quer isso dizer que, nessas épocas onde a cultura já não tem unidade, está tudo perdido? Não dá pra fazer nada? Claro que dá. Por quê? Porque a fragmentação, a ruptura nunca pode ser total. Porque por baixo de tudo ainda existe a razão espontânea. Nós vamos dizer que nessas épocas mais favorecidas é como se a razão espontânea estivesse mais à mostra. As pessoas são mais sensíveis àquilo. É por isso que quando o homem sábio fala, o poeta fala, todo mundo o entende de algum modo. Porque ele está se reportando a experiências que as pessoas, no fundo, têm também.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 20, 22/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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