Hoje em dia, não apenas existe a ruptura entre a cultura dos homens cultos e a chamada cultura de massas, mas existe ainda o senso comum fabricado – Olavo de Carvalho

“Hoje em dia, não apenas existe a ruptura entre a cultura dos homens cultos e a chamada cultura de massas, mas existe ainda outro fenômeno no qual vocês têm que prestar muita atenção porque define uma das condições básicas da nossa vida hoje em dia que é o senso comum fabricado. É uma coisa que nunca existiu na história humana, que só começou a existir a partir do século XX.

Quando, no século XII, XIII ou IX, o Papa dava uma ordem, emitia um decreto, quanto tempo levava até chegar ao último padre que estivesse na região mais afastada? Levava anos ou décadas. Isso significa que o imaginário das pessoas, os seus sentimentos de base, a cultura da razão espontânea, por assim dizer, ou o “senso comum”, como chamaria Antonio Gramsci, era de formação muito lenta. Levava gerações e gerações. Ninguém tinha controle sobre este processo. O senso comum se desenvolvia ao fio da experiência real das pessoas. A partir da hora em que inventaram um negócio chamado “meios de comunicação de massas”, isto quer dizer que um número reduzidíssimo de pessoas, de técnicos, é capaz de povoar o imaginário das pessoas com o que eles quiserem e com um impacto muito maior do que qualquer experiência real terá. Essa é uma das condições básicas que define a nossa vida hoje.

E uma das consequências que isso deveria ter para os estudantes de filosofia é o reconhecimento de que nada que é crença comum pode ser aceito mais, pois em tudo se encontra o dedo da fabricação do senso comum postiço, tudo! De certo modo, voltamos a uma situação quase primitiva, na qual nós temos que elaborar nossos próprios símbolos a partir da experiência real e a cultura está nos ajudando muito pouco a fazer isso (pelo menos a cultura de massas).

Ora, é muito fácil ficarmos revoltados com a cultura de massas e falarmos mal dela. Mas nós temos que entender também que ela é um elemento absolutamente necessário para a economia moderna. A economia moderna, a partir do surgimento do processo de produção capitalista, ela, como dizia Karl Marx, liberou forças produtivas imensas, que a humanidade jamais conheceu, e melhorou assombrosamente a vida das pessoas. Não há comparação entre a condição material de uma pessoa sob o capitalismo e qualquer dos séculos anteriores. Então, é claro que nós não podemos desistir disto. E é claro, também, que dentro do processo de produção capitalista, a velocidade das transformações econômicas e sociais é tal, que é impossível você esperar unificar mais ou menos a sociedade mediante aquele processo de formação espontânea do senso comum como havia antes, não dá tempo. Se não houver um elemento como a cultura de massas que cria um imaginário para as pessoas, então a sociedade vai se desintegrar muito rapidamente. Então, o que acontece? Existe essa integração forçada, por assim dizer. Integração fabricada pela classe dos publicitários, dos intelectuais, dos jornalistas, dos cineastas, do pessoal de teatro e cinema, etc.

Então, nós não podemos dispensar a cultura de massas. Mas, é claro que nós que estamos estudando e que pensamos um pouco mais a longo prazo, não temos porque aceitar que a situação social, momentânea, ainda que inevitável naquele momento, deva durar para sempre ou tenha o valor de uma autoridade na qual todos nós devemos confiar. Nós podemos pensar em alternativas. Nem tudo tem que ser do jeito que está sendo. O que está sendo agora foi uma solução encontrada mais ou menos a toque de caixa para uma situação criada pelo desenvolvimento da economia. Não é necessariamente o que é melhor para os seres humanos e nem é a única maneira de fazer as coisas, pode haver alternativas, sobretudo pode haver alternativas para nós.

Ora, nenhum ser humano pode aprender tudo por experiência própria: nós sempre dependemos do legado da cultura. No entanto, se o legado da cultura se torna duvidoso, problemático ou até destrutivo, o que é que podemos fazer? Bom, nós podemos simplesmente nos desaculturar. Não vamos renegar esse material que estamos recebendo, mas vamos sim ampliar o nosso campo de referência para aprender com pessoas de outras épocas, de outros lugares, de outras situações sociais e podermos ter meios de comparação para que possamos ter um repertório de alternativas um pouco maior e saber que as coisas não têm que ser necessariamente do jeito que estão sendo agora. Então, esse processo de desaculturação, longe de isolar você do meio social, – quer dizer, você não vai rejeitar a cultura de massas que está aí, você vai aceitá-la como ela vem – fará com que você se coloque dentro de um campo de referência maior onde possa fazer escolhas. Como eu já expliquei em outra aula, o seu diálogo não será mais só com o meio social imediato ou com a cultura que chega até você, mas vai ser com todos os homens de todas as épocas e lugares representados pelos seus tipos mais notáveis que deixaram obras dignas de serem conhecidas até hoje.

(…) Tão logo você obteve esse plano de referência, você não está fora da cultura de massas, mas está imunizado contra o que ela pode ter de incapacitante e de estupidificante, que é o que interessa. O que interessa não é você lutar contra a cultura de massas, é a coisa mais absurda lutar contra a cultura de massas, não se pode lutar contra uma coisa que é absolutamente necessária dentro da economia. Veja que todos os críticos da cultura de massas sempre acabam criando uma cultura de massas pior ainda. Eu observo, por exemplo, esse pessoal esquerdista que fala da cultura de massas do capitalismo, e digo: meu filho, o que é a cultura de massas no capitalismo comparada ao que é no socialismo, onde é tudo uniformizado e onde se você vê uma mentira oficial não existe alternativa àquela mentira oficial? No capitalismo pelo menos você tem diversas mentiras diferentes e você pode escolher (pelo menos você podia até algum tempo atrás, agora está ficando cada mais difícil, pois tudo está sendo centralizado). Mas, por exemplo, entre diversas propagandas enganosas de diversas marcas diferentes, você pode confrontar as mentiras umas com as outras e ver qual é a menos prejudicial. Então, os críticos da cultura de massas acabam criando uma cultura de massas infinitamente mais opressora, então não é isso que nós devemos fazer. Nós não estamos aqui a fim de criticar a sociedade, nós estamos apenas a fim de nos preservar, a nós pessoalmente, dos seus efeitos intelectualmente daninhos. É só isso que nós temos que fazer.

À medida que se amplia o seu campo de referência, à medida que você torna presentes esses elementos da grande cultura de outras épocas, você vê que a sua libertação da cultura de massas agora não é nem um pouco dolorosa, não vai te deixar num isolamento psicótico, não vai tornar você maluco, mas pode fazer com que você tenha muitas ideias que ao seu meio social parecerão estranhas. E, ao mesmo tempo, qual seria a sua participação neste meio social? Se você desejar a aprovação dele, você vai ficar numa situação muito difícil. Se você tentar virar as costas para ele, você vai virar um ermitão. Então, vai haver aí uma tensão entre você e o meio social. E esta tensão só se resolve no instante em que você entende que está colocado neste meio social para ajudar outras pessoas, não para receber o que quer que seja. Você vai receber da cultura de outras épocas, não da sua cultura presente. Você não vai se alimentar da Folha de S. Paulo, da Rede Globo, da USP, mas sim de Aristóteles, de São Tomás de Aquino, de Dante, de Goethe, de Shakespeare, mas sim do que houve de melhor, porque, no fundo, a cultura é isso, como MathewArnold dizia: “aquilo que foi feito de melhor pelos homens melhores”. Esse vai ser o seu campo de referência e é a estas pessoas que você tem que prestar satisfação. Aos outros, você não tem que prestar satisfação nenhuma, você pode ajudá-los e se eles não quiserem ser ajudados, mande-os lamber sabão, porque você não vai perder nada, quem vai perder serão eles.

(…) Todos vocês estarão nesta mesma posição mais dia menos dia. Se continuarem estudando e se fortalecendo, vão ficar exatamente nesta posição. E eu garanto a vocês que esta posição é muito melhor do que a de um membro comum da sociedade, que precisa ser aprovado por ela, etc, e também muito melhor do que a do marginal, ermitão, que está contra todo mundo. E também infinitamente melhor do que a do revolucionário que pretende mudar toda a sociedade. Nós não estamos aqui pretendendo melhorar a sociedade, nós estamos pretendendo melhorar pessoas. Nós podemos até ter uma ação transformadora sobre as pessoas, mas são indivíduos humanos. A nossa pretensão não será a de reformar a sociedade inteira, ninguém tem capacidade de reformar a sociedade inteira. Todo mundo que tenta fazer só dá caca, vocês sabem perfeitamente disso. (…) Então, nós nunca somos superiores à sociedade. Nós podemos, vamos dizer, nos tornar independentes, imunes, a certos males que existem nela. Mas algum serviço você vai ter que prestar a ela para justificar a sua existência. E você também não pode se colocar acima de todo o julgamento que todas as pessoas farão. Você vai se colocar acima de certo tipo de julgamento que é o julgamento a partir de estereótipos, de preconceitos, etc, mas também é só isso.

Muito bem. Quando se rompe a unidade da cultura e os representantes da alta cultura já não possuem a mesma linguagem das pessoas comuns, então acontece que a cultura, a alta cultura, tende a se tornar artificial, inteiramente desnecessária. Ela já não diz nada a ninguém. Como é que nós podemos corrigir isto? Nós podemos corrigir porque, primeiro, a ruptura nunca é total. Alguns elementos da antiga cultura unitária sempre permanecem. E segundo, se você estudar, você descobre como eram as coisas no tempo em que a sociedade tinha uma cultura mais unificada e você pode falar às pessoas, não para a consciência que elas têm no momento, mas para aquele resíduo de recordação ou de aspiração que sobrou da herança histórica da cultura unificada. Então, isso quer dizer o seguinte: o cidadão de hoje pode ser uma mente totalmente deformada pela cultura de massas, mas é só a sua razão refletida que está deformada, a razão espontânea continua funcionando do mesmo modo. É claro que as pessoas podem estar tão divididas (se a cultura é dividida, as pessoas ficam divididas também), tão afastadas da sua razão espontânea, que preferem uma mentira que elas mesmas inventaram, antes que uma realidade percebida. Ou podem preferir a mentira que elas compartilham em comum com outras pessoas, a uma verdade que elas perceberam sozinhas. Ou seja, nós chegamos ao ponto da negação da razão espontânea. E daí a razão espontânea começa a aparecer só inconscientemente. (…) Então, aí nós temos que ajudar estas pessoas a se aprofundar um pouco dentro de si mesmas, a diminuir o ritmo do seu falatório mental, para que elas possam voltar a perceber coisas que já sabem. Isso leva algum tempo.

(…) Eu vou dar um exemplo de como se deforma a cabeça das pessoas de hoje, de como é fácil esta deformação. Veja: quando começou a surgir a imprensa popular, a partir do século XVIII, XIX, o número de órgãos de imprensa era imenso, imensamente variados. Então, por exemplo, aqui nos EUA cada cidadezinha tinha 2, 3 jornais. Isso já no tempo do Velho Oeste. A partir dos anos 30 e 40 do século XX começa uma unificação dessa mídia, ou seja, os maiores começam a comprar os menores. Então você tem, por exemplo, redes de jornais no qual um sujeito, uma mesma empresa tem 400 jornais e com isso os jornais pequenos vão fechando, eles não aguentam a concorrência. Ora, se você compra vários jornais, não vai manter 400 redações diferentes, você vai demitir 80% da redação e você vai ter uma central, que distribui a notícia para todos os jornais, e só tem lá mais 2 ou 3 redatores para dar lá um toque local, para fingir que o jornal é local, quando na verdade ele é igualzinho ao jornal da capital. Mesma coisa com canais de televisão e estações de rádio. (…) Você pega o jornal de interior aqui e vê que quase todas as notícias deles vêm de uma central. Ou vem das mesmas agências de notícias, ou vem do jornal matriz que distribui para vários. Uma empresa que começou a fazer isso no Brasil foi a Folha de S. Paulo. A Folha de S. Paulo comprou um monte de jornais e os jornais só diferiam no título. O título e a primeira página, o conteúdo interno era o mesmo conteúdo da Folha, diminuído e recortado. Então, eu me lembro, por exemplo, quando a Folha comprou o Última Hora, que era um jornal enorme. Lembro-me da antiga redação da Última Hora ali na Anhangabaú, era imenso, centenas e centenas de pessoas. A Folha comprou o Última Hora e começou produzi-lo com 20 pessoas. Tinham o mesmo título, mais ou menos a mesma capa, mas o conteúdo todo era o conteúdo da Folha. Só mudava um pouco a primeira página. A mesma coisa nos canais de televisão. Essa centralização permite que um número reduzidíssimo de empresas fabrique o senso comum. Como é que fabricam? Dizendo a mesma coisa desde fontes aparentemente diferentes que no fundo são a mesma fonte. Então aparecem 400 publicações, aparentemente diferentes, concordando no mesmo ponto. Não é concordando no sentido de que houve um debate e eles tomaram um lado, não, não tem debate. A conclusão já é afirmada previamente ao debate.

Ora, o cidadão comum, vendo esta unanimidade, não tem nem imaginação para escapar disto. Ele acaba acreditando naquela coisa. Ora, sobretudo isso se faz hoje no que diz respeito à ciência. O cidadão comum acredita que existe um consenso científico que já estabeleceu certas coisas como verdadeiras. E quem quer que siga outras coisas, está contra a ciência. Ora, como se forma um consenso científico? Através da confrontação de hipóteses. A confrontação de hipóteses é o próprio método científico. Onde não houve confrontação de hipóteses, não houve investigação científica nenhuma. Portanto, eis aí uma recomendação: onde você vê uma conclusão científica oferecida para você, sem que tenha aparecido claramente a contradição, o confronto de hipóteses contraditórias, é empulhação. Sempre é empulhação! Não há uma única exceção. Porque se existe um noticiário científico verdadeiro, ele acompanhará as pesquisas científicas e as pesquisas são feitas de contradições. Se não apareceram as contradições, se você só receber o resultado final, é porque não houve o confronto anterior, ou o confronto anterior foi suprimido da mídia popular, pela razão de que, se fosse apresentado o confronto, o resultado final já não teria aquela certeza aparente, que é exatamente o que se quer vender.

(…) Eu não considero que seja defensável para um estudante de filosofia ele levar a sério nada da grande mídia. Nada, nunca mais! Vocês podem tirar o cavalo da chuva. Aquilo que parece razoável ao meio, ao ambiente de senso comum criado pela grande mídia, nunca pode ser usado como argumento ou como premissa de coisa nenhuma. Nunca, nada! Por quê? Porque os meios de comunicação de massas foram brutalmente unificados nos últimos vinte ou trinta anos e hoje, eles não têm mais nada a ver com noticiário, com informação, é só campanha publicitária em todos os domínios. Prestem bem a atenção! Eu mesmo, quando comecei a perceber isso, vários anos atrás, eu achei que era uma tendência vaga, uma coisa mais de tipo sociológico. Hoje entendo que não é, foi unificação mesmo. Nos Estados Unidos tem cinco empresas que mandam na comunicação de massas, então, graças a Deus surgiu a internet que permite você ter acesso.

(…) Então, esta segurança que as pessoas tem: Não, nós estamos em um meio onde existe uma classe de pessoas que sabe as coisas e nos informa. Esta certeza você vai ter que abandonar. Enquanto você não abandoná-la você não vai entender nada. Enquanto você não começar a conferir tudo o que vem da grande mídia – não é tudo, tudo você não pode conferir, mas tudo o que é uniforme -, quando aparecem todos os jornais dizendo a mesma coisa, aí é para você duvidar. Onde eles divergem é porque, se está tendo divergência, alguém está buscando a verdade. Um pode estar mentindo e o outro dizendo a verdade, mas quando todos dizem a mesma coisa aí, justamente, é que é para duvidar.

A análise da retórica publicitária confrontada com os procedimentos semânticos e estilísticos dos grandes escritores é uma das experiências mais formidáveis que você pode ter na vida. Porque aí você entende o que é realmente a alta cultura e quais são os problemas da alta cultura numa época de cultura de massas. E você entende também que o que pode sobrar de alta cultura em um determinado país depende, justamente, de que haja um círculo de pessoas imune à grande mídia, senão a alta cultura não sobrevive. Isso acontece aqui nos Estados Unidos. Aqui está cheio de intelectuais de primeiro plano que há vinte anos não leem o New York Times, o Washington Post, não ouvem a CNN, porque sabem que não vão aprender nada. Agora, no Brasil, a autoridade dos jornais, da mídia é uma coisa assombrosa! O simples fato de haver uma entidade como a rede Globo que tem 70% de audiência, isso garante o fim da alta cultura. Não há quem resista, é uma coisa impossível. Uma geração inteira de pessoas no Brasil, foi levada a acreditar que o Chico Buarque de Holanda é um escritor. Uma ou duas gerações! Isso nos Estados Unidos é impossível! Isso é a mesma coisa que dizer que Michael Jackson é um poeta. Aqui, nos Estados Unidos, todo mundo sabe qual é a diferença entre cultura de massas e alta cultura. O pessoal sabe e não tem jeito de apagar, por mais estupidificante que seja o impacto da cultura de massas, o círculo de pessoas envolvidas em alta cultura é grande demais.

No Brasil, tudo foi destruído e vocês vão ter que reconstruir. Por isso mesmo vocês vão ter que ser espartanos. Cultura de massas não! A grande mídia não, nunca! Mesmo que ela diga tudo o que eu quero ouvir. Claro, você pode usar a cultura de massas como um instrumento de informação sobre o que a cultura de massas quer que você acredite; assim como você ouve um mentiroso só para saber qual é a mentira dele, mas é só por isto. No Brasil, o cinismo da grande mídia é uma coisa que não se compara com os Estados Unidos, porque está muito mais centralizado no Brasil e, fora da grande mídia, não há o mais mínimo capital para você fundar um jornal, uma revista. Nos Estados Unidos ainda tem muita coisa independente; no Brasil não tem nada! Ah, eu quero fazer um jornalzinho. Você vai conseguir fazer um jornal mensal que, se for um sujeito muito sortudo, vai entregar para duas mil pessoas. E mesmo os veículos de internet no Brasil estão muito mal usados porque não há independência mental suficiente para pensar fora dos parâmetros da grande mídia. Para pensar fora dos parâmetros da grande mídia, você tem que ter muita cultura, tem que saber muita coisa e é o que vai acontecer com vocês. Vocês vão aprender muita coisa e vão adquirir a verdadeira independência.

(…) Mídia vocês esqueçam; mídia é lixo, 100%. Vocês têm que acreditar em livros, em estudos científicos, mídia jamais! Onde você lê: uma pesquisa revelou, faça o seguinte, vai ler a pesquisa. Em 80% dos casos você vai ver que não é o que dizem. Hoje em dia já começa a acontecer um fenômeno pior, as revistas científicas estão sendo compradas também. O “Lancet” que é a revista médica mais famosa do mundo já começou a publicar umas matérias de propaganda. Porém, tem o seguinte, a alta cultura está pronta, você tem o legado dos séculos, nesta você pode confiar e é ali que você tem que ir; sobretudo, porque aquilo foi realizado em uma época onde não havia meios de manipulação de massas como há hoje.

Hoje o pessoal está tão maluco que começa a analisar os fenômenos históricos de outras épocas à luz do que se sabe da cultura de massas de hoje. Por exemplo: Como a Igreja Católica impôs suas opiniões por toda a Europa, mas ela não impôs nem a si mesma! Quando você vai estudar você verá que o Papa não tinha meio de impor sua opinião nem dentro da Igreja. Hoje tem. O negócio da infalibilidade papal foi no século XIX, se ele fosse fazer isso no século XIII tiravam ele de lá; ia surgir tanta discussão, tanta divergência. Não havia meios de moldar a cabeça das pessoas como existe a partir do advento da cultura de massas. Vocês têm que levar isso em conta. Isso quer dizer que em outras épocas, qualquer época da história que você queira, você encontrará mais variedade, mais divergência, e discussão mais livre do que você encontra hoje. Não se iludam! Veja você a história dos Concílios. Por que se chamava Concílio? Para conciliar. E se era para conciliar é porque tinha divergências; eles eram feitos só de divergências. No entanto, há pessoas que dizem: A Igreja Católica impôs sua doutrina monolítica e puniu os divergentes. Meu Deus, se fosse punir os divergentes tinha que punir todo mundo! (…) A imagem que se tem da história de outras épocas através da comunicação de massas é uma monstruosidade! É 100% falsa! E esta imagem se transmite através de figuras de linguagem, giros de linguagem, gracejos, piadas, floreios de retórica, e justamente por não ser afirmada explicitamente parece tanto mais verdadeira porque é senso comum, é uma coisa tão óbvia que ninguém precisa nem dizer. É justamente aí que você é enganado. 

(…) Mais do que nunca, nós precisamos de uma geração de pessoas capacitadas, com alta cultura e, portanto desaculturadas em relação ao seu meio social. Essas pessoas, no Brasil, são vocês. Aqui nos Estados Unidos tem de monte, mas no Brasil, só nós estamos tentando fazer isso. Cada um dos alunos do curso de filosofia não é um consumidor: estou pagando, quero ser atendido. Não é com esse espírito que vocês participam desse curso; é com espírito de missão e de obrigação. Obrigação para com seu país! Digo mais, vocês são a única esperança que tem, não há mais nenhuma; nada de positivo está sendo feito para o futuro do país, em parte alguma nada está sendo feito, por ninguém. É só este esforço aqui que existe. Então vocês metam a mão na consciência e saibam o quanto se espera de vocês.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 020, 22/08/2009.


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