Nosso pensamento tem que ser o mesmo pensamento do seu Zé da Esquina, só que elaborado em alto nível – Olavo de Carvalho

“Eu ia ver o texto do Camões para exemplificar a vocês, mas eu sugiro que vocês leiam. Leiam as redondilhas Sôbolos rios que vão por Babilônia e vocês vejam o seguinte (é um dos poemas mais conhecidos de Camões): onde ele se coloca na posição do judeu que está lá escravo na Babilônia se lembrando da sua pátria. E a medida que ele vai narrando isto, ele vai fazendo um paralelo entre o judeu que se lembra de Sião e o ser humano em geral que se lembra da pátria celeste platonicamente.

Uma coisa vai se convertendo na outra. A linguagem do poeta é exatamente a linguagem da população da sua época. Na época de Camões ninguém tinha dificuldade de ler isto aqui. Claro, hoje nós podemos ter alguma dificuldade por causa da passagem do tempo, algumas construções se tornaram esquisitas, mas era a linguagem do tempo dele. Então, isso quer dizer que uma pessoa comum lendo isto ela podia, sem romper com a sua sensibilidade, com a sua imaginação usual certa, subir até o mundo da filosofia platônica sem grande dificuldade e isto é que dá a unidade da cultura.

Nosso trabalho deve sempre se inspirar no que foi feito nessas épocas. Nós buscamos uma transparência igual. Isso é muito difícil na época de hoje. Porque a linguagem dos intelectuais e o imaginário deles são contrários do que o povo pensa. Mas, note bem, a nossa vantagem é que nós estamos próximo do povo do que esses sujeitos. Na medida em que nós acreditamos na razão espontânea, está certo, na eficácia da sensibilidade, da espontaneidade etc. Nós estamos mais próximos do que a maioria das pessoas pensam do que tudo que esses fulanos com ideias esquisitas. Por exemplo, você imagina o filósofo desconstrucionista querendo convencer o frentista do posto de gasolina de que um texto significa um outro texto. Então, está lá o sujeito com a nota do posto de gasolina: sim tem que pagar tanto. Não dá para o senhor pagar isso com outro texto, quero é dinheiro está entendendo?

Agora, se nós acreditamos que os textos se referem a experiências imaginativas que, por sua vez, se referem a dados da realidade, então nós pensamos o que todo mundo pensa.

Um dia se puderem, leiam o livro do Chesterton sobre São Tomas de Aquino. Chesterton não era filósofo profissional e, quando ele escreveu esse livro, que era o maior conhecedor de São Tomas de Aquino no mundo, disse: eu daria um braço para ter escrito esse livro. Toda a ideia do Chesterton é esta: o São Tomas de Aquino era um homem comum daquela época, só que mais inteligente. Ele não era diferente. Do mesmo modo, Camões era um homem comum daquela época, só que com um talento verbal extraordinário. Então ele dizia o que as pessoas diriam se pudessem. Ele não diz uma coisa diferente. Então, esse é o teste. Você dizer aquilo que está no fundo, na alma das pessoas. E não dizer uma coisa esquisita. Agora o que você diz pode parecer esquisito para o sujeito que está totalmente com a cabeça feita por essa cultura de massas, para a pseudocultura universitária. (…) Agora as pessoas simples que as vezes não tem sequer os instrumentos para entender o que você está escrevendo, você está dizendo o mesmo que elas. O mesmo que elas diriam se tivessem o seu recurso linguístico. E tão logo elas entendam a expressão verbal que você está usando, elas vão se reconhecer ali.

Isso é o que eu tenho feito, isso é uma experiência repetida. O número de pessoas que me escrevem dizendo: pô! Você tirou as palavras da minha boca, mas era exatamente isso que eu queria dizer. Eu não estou querendo dizer uma outra coisa. Eu estou querendo dizer o que todo mundo está vendo. O que qualquer pessoa norma vê. Então, a vantagem está do nosso lado nesse aspecto. Podemos deixar a leitura desse poema para depois, mas hoje realmente não dá.

Vamos pegar um verso a esmo:

“Terra bem-aventurada,

se, por algum movimento,

d’alma me fores mudada,

minha pena seja dada

a perpétuo esquecimento.”

Quem não entende isto? Há alguma dificuldade para entender? Há alguém que não entende isto? Não. Se eu me esquecer da Terra de onde vim, Sião ou a Pátira Celeste, que tudo que escrevi seja jogado no lixo. Tem alguma dificuldade para entender? Não!

É a linguagem do próprio povo português, só que elaborada com todas as técnicas que Camões dominava. Nós temos que fazer a mesma coisa. Nosso pensamento tem que ser o mesmo pensamento do seu Zé da Esquina, só que elaborado em alto nível, mesmo que ele não entenda. Você não está querendo conquistá-lo, está expressando em nível de alta cultura uma coisa que ele também diria se pudesse. Não estamos querendo mudar a cabeça das pessoas.

O que me dá satisfação imensa é quando as pessoas me escrevem: eu achei que estava ficando louco, mas agora eu vi que eu sou normal. Mas é isso que eu queria, lhe reforçar na sua posição. Você não é louco não, você está vendo a coisa exatamente certa, porém há pessoas querendo lhe enganar.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 20, 22/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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