Se o sujeito começa a fazer uma análise crítica antes de ter feito a absorção imaginativa, ele desliza para fora do assunto – Olavo de Carvalho

“As pessoas, quando começam a estudar, elas têm muita avidez de adquirir conhecimento, de tornarem-se eruditas rapidamente, não é esse o problema. A erudição é uma coisa facílima de você adquirir a partir do momento em que possui os instrumentos mentais e a atitude mental correta. Forçar muito para adquirir erudição é bobagem. Em primeiro lugar, não acredito que ninguém possa render nos estudos estudando mais de três horas por dia. Isto é impossível. Eu não estudo mais que três horas por dia, é claro que eu tenho outras ocupações de ordem intelectual, escrevo para o jornal, escrevo o meu livro, mas estudo, mesmo? Duas a três horas por dia é mais do que suficiente.

O que importa é você continuar o resto da sua vida e nunca pular nem um dia. Nunca pule nenhum dia sem estudar um pouquinho, mas sempre um pouquinho e, outra coisa, não abra um livro, não pegue um texto se você não está disposto a guardar aquilo na sua memória. Não se trata de esforço de memorização, jamais, esforço de memorização nunca funciona. O que importa é o interesse efetivo que você tenha pelo assunto que você está estudando, e este interesse é despertado justamente na medida em que você monta este teatro mental. É o dramatismo da situação que faz com que você se recorde dela.

Se você assiste a um filme, ou vê uma peça de teatro que tem um grande impacto sobre você na hora, você não precisa fazer nenhum esforço para recordar aquilo: passam trinta anos e você recorda. Com a leitura é a mesma coisa, com a diferença de que o drama que está sendo observado terá que ser montado na sua imaginação. O escrito só te dá o roteiro, ele ainda não é a peça encenada: você tem que preencher aquilo com vida. Esta é precisamente a técnica que o Paul Friedländer usa para explicar o Platão. O que ele faz? Ele monta de novo as situações, pega o texto e remete aquilo às situações reais ou imaginárias que deram origem àquele diálogo, de modo que, como diz a expressão popular, “você sente o drama”. Se sentir o drama, está tudo resolvido, você nunca mais vai esquecer aquilo, e mais ainda: terá compreendido profundamente.

É claro que esta absorção imaginativa profunda, este “deixar-se impressionar” que eu estou tentando ensinar a vocês, isto não é todo o trabalho intelectual que você pode fazer em cima destes textos. Há outros trabalhos, mais adiante, que exigem uma atitude exatamente contrária, exigem um afastamento, um distanciamento crítico, e talvez hoje ainda eu mencione pelo menos um dos trabalhos deste tipo que nós podemos fazer com o texto. Mas este que estou mencionando agora é o primeiro e o essencial, porque este é a absorção do material. Se você não tem isto, você não tem nada. Por exemplo, se o sujeito começa a fazer uma análise crítica antes de ter feito esta absorção imaginativa, ele desliza para fora do assunto, acaba inventando outro texto e analisando o texto que ele mesmo inventou. Esta é a doença do nosso ensino universitário hoje em dia, sobretudo no Brasil, onde você vê as pessoas se perdendo num intelectualismo bocó por falta do material, quer dizer, eles estão analisando uma coisa que eles não perceberam, uma coisa que não está na posse deles. Garantir a posse da mensagem é o principal. Se você não tiver tempo, ou não tiver cabeça para fazer depois uma análise crítica, não tem importância: a absorção profunda está lá. Mais ainda, esta análise crítica – mesmo que você não a faça deliberadamente – se fará por si mesma ao longo dos anos. Você acaba percebendo coisas que não tinha percebido no primeiro momento, acaba fazendo analogias, acaba fazendo comparações, tudo isso é natural. Na verdade, o único esforço da vida intelectual é este, um esforço de autodomínio, controlar a sua mente emissiva, a sua mente criativa e, ao contrário, você se abrir para o que o outro está dizendo, tornar-se um bom ouvinte.

É como você estar num consultório de psicoterapia em que você é o psicoterapeuta. É claro que você tem suas ideias, tem seus problemas etc., mas naquele momento você tem que se esquecer de tudo isso e se abrir ao que o pobre do seu cliente está tentando falar. É exatamente disso que se trata. Esta absorção passiva só é passiva num sentido metafórico, inexato, na verdade há um esforço de autodomínio, de não deixar que, num primeiro momento, a sua mente construtiva crie raciocínios. Criar raciocínios é a coisa mais fácil do mundo; um computador, se você põe lá três premissas, ele cria um discurso inteiro; um macaco, se você der uma premissa, ele tira uma conclusão. Raciocinar é a coisa mais bocó do mundo, todo mundo sabe fazer isso, é uma coisa automática. O sistema silogístico é inteiramente mecanizável, portanto a diferença entre o sujeito burro e o inteligente não é que o inteligente pense melhor. Não, pensar melhor, ninguém pensa melhor do que o computador. A diferença é que o sujeito inteligente tem sobre o que pensar, tem materiais para pensar, logo o pensamento dele tem substantividade. Esse deve ser o seu grande esforço, pelo menos no começo da sua carreira: você acalmar a sua mente e deixar que os outros falem, deixar que o livro que você está lendo fale, que a pessoa que está tentando explicar alguma coisa fale, que as percepções falem, que a realidade fale. Esse é o grande trabalho, aí é que você vai preencher de conteúdo o seu pensamento. É o negócio do Leibniz sobre as figurinhas, durante bastante tempo você vai se ocupar somente de ver as figurinhas, você não vai julgá-las, não vai analisá-las, vai simplesmente guardá-las na memória. Mais tarde, você fará o trabalho analítico. Podemos comparar estes dois momentos à ingestão de alimentos e à sua digestão. Se não houve ingestão, você vai fazer digestão do quê? Com esta mania de querer ser intelectual que as pessoas têm hoje, elas imaginam que têm que pensar muito. O que elas vão fazer? Elas acabam digerindo uma coisa que elas não ingeriram, se comem a si mesmas.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 21, 29/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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