Este trabalho todo da imaginação é uma condição indispensável para o estudo da Filosofia, porque um homem de mentira não pode conhecer a verdade – Olavo de Carvalho

“Onde é que o conhecimento que nós temos da nossa própria vida adquire unidade para nós? Onde é que esses vários dados que nós temos compõem uma figura, compõem um personagem e nos apresentam este personagem para nós mesmos? Só na imaginação, evidentemente. A memória, por si, não pode fazer isso. Além da memória, tem de haver um esforço de juntar as várias partes. Sem imaginação a pessoa não pode sequer se conhecer biograficamente, ela não sabe quem ela é, e este é o grande problema. Há trinta anos, pelo menos, eu escuto as pessoas me contarem suas vidas. Eu conheço as vidas de muita gente, não só por biografias que eu li, mas por narrativas que ouvi, que as pessoas me contaram, às vezes buscando uma orientação, um conselho, coisa assim. E uma das coisas que mais me impressionaram nesta experiência foi como as pessoas sofrem mudanças ao longo das suas vidas que elas mesmas não percebem.

Por exemplo, uma mudança de opinião: o sujeito pensava isso, passa a pensar aquilo, e ele não tem consciência da mutação que sofreu e muito menos de por que aquilo mudou. Ou seja, não tem consciência das influências recebidas, não tem consciência do impacto que as experiências tiveram e, sobretudo, não tem consciência de quando é manipulado de fora, por isso não pode realmente contar sua vida. O próprio apego que nós temos à nossa auto-imagem acaba sendo uma coisa letal para a consciência autobiográfica. Por querer conservar a sua auto-imagem intacta você quer mantê-la, quando de fato ela não corresponde mais à realidade; aí você se esqueceu de quem é passa a falar sobre um personagem imaginário.

Outro exemplo, o amor que nós temos à integridade da nossa pessoa faz com que a gente sinta como insulto a ideia de que nós somos influenciados, de que algo de fora mexeu conosco profundamente, talvez em estratos inconscientes, por isso nós gostamos de atribuir essa mudança a nós mesmos, como se nós fôssemos os autores de tudo. Resultado: nós acabamos não tendo uma visão real de quem nós somos, de quais são as influências que sofremos. E se você não tem uma ideia exata das suas fraquezas, você não tem ideia exata dos seus poderes; se você não sabe quais são os seus pontos vulneráveis, onde você pode ser facilmente atingido, manipulado, enganado etc., como é que você vai adquirir um domínio de si? As pessoas se apegam a uma autodefesa orgulhosa da própria imagem, que as torna ainda mais fracas e vulneráveis.

Desde o início eu sugiro que vocês se abram para este conhecimento, perceber onde foram sutilmente influenciados. Muitas vezes, quando se fala em influências, as pessoas pensam em influência positiva, uma imagem ou ideia que se impôs a você. Ora, é claro que as maiores e mais decisivas influências que você recebe não são deste tipo, não são como uma propaganda positiva de alguma coisa. Não, a influência decisiva é feita por supressão de dados! São os dados faltantes, aqueles que, jamais entrando em consideração, saem completamente do seu panorama, e a ausência deles determina o curso que o seu pensamento vai seguir. Ninguém pode entender a situação existencial de hoje em dia se não levar em conta este fenômeno da mídia, da comunicação de massa que nos influencia 24 horas por dia!

Ninguém está imune a isto, se você pegar o maior sábio do universo, ele não estará imune a esta coisa. A imunidade é impossível. Nós estamos permanentemente dentro de um meio linguístico, destes símbolos, palavras, termos que circulam o tempo todo, entram pelos nossos ouvidos sem que os tenhamos chamado, e todo o repertório do que nós pensamos vem daí. Você só tem quatro fontes: a) a educação familiar que você recebeu — todas as palavras que você aprendeu com seu pai e sua mãe; b) a influência da família; c) a influência da cultura de massas; e d) a influência da alta cultura. Só tem estas quatro fontes e não há mais outras de onde você possa aprender palavras. Onde você aprendeu as palavras que você usa? Basta você pensar isto aqui: foi você que as inventou, são criação sua? Não! Todas vieram de fora, absolutamente todas, e estas palavras são o instrumento que você possui para se expressar até mesmo naquilo que você tem de mais íntimo. Para conversar com uma pessoa com a qual você tem intimidade você usa as mesmas palavras que aprendeu com os outros. (…) Nós nunca, jamais estamos isolados deste meio cultural em nenhum momento, e mais ainda, sem este constante fluxo de símbolos e palavras em torno de nós, jamais poderíamos ter nos personalizado ao ponto de podermos falar com alguma consciência de causa a palavra “Eu”.

O seu “Eu”, a sua verdadeira identidade, não é uma coisa que está dentro de você, isolada deste meio cultural, mas ao contrário, ela também faz parte da cultura. É dentro da cultura e dentro deste diálogo cultural que você adquire uma personalidade. Portanto, vamos acabar já com esta ilusão de isolamento. É claro que cada um de nós tem uma personalidade efetiva, esta personalidade tem uma forma mais ou menos descritível, ela é relatável e reconhecível por outras pessoas. Esta individualidade não é um engano, não é em si mesma uma ilusão. Mas nós temos muitas ilusões a respeito dela, aquilo que nós pensamos a respeito da nossa individualidade pode ser falso, e aquilo onde acreditamos estar expressando a nossa mais autêntica individualidade também pode ser falso, na medida em que seja justamente o apego a uma auto-imagem que já não corresponde aos fatos, que já não corresponde ao seu estado atual.

Este trabalho todo da imaginação é uma condição indispensável para o estudo da Filosofia, porque um homem de mentira não pode conhecer a verdade. Se a sua personalidade está construída na base de falsidade, de ilusões, de enganos etc., a sua busca da verdade é tempo perdido, vai ser tudo fingimento. Acontece que o fingimento se incorporou de tal modo à cultura moderna que nenhum de nós pode escapar dele. Esta observação que a Luciane me envia, que sem esse trabalho da imaginação nós não podemos sequer ter uma consciência autobiográfica, quando li esta carta lembrei-me daquilo que dizia o Giordano Bruno: se insistirem neste negócio de materialismo, vocês vão acabar duvidando que vocês mesmos existem.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 021, 29/08/2009.


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