Aquilo que nós chamamos de percepção sensível nunca existe separadamente, porque toda e qualquer percepção sensível está sendo completada pela imaginação e pela memória – Olavo de Carvalho

“Vamos ver um pouquinho como é que funciona este negócio da imaginação: Tome qualquer percepção sensível que você tenha; por exemplo, agora estou aqui e olho pela janela. Vejo uns carros, uma árvore etc. Tudo o que eu vejo, vejo necessariamente por um lado só, que é o lado de onde eu estou. Eu não estou vendo o outro lado, mas tudo tem outro lado, até uma folha de papel tem outro lado, e a gente nunca vê o outro lado, mas sempre sabe que ele existe. Isto quer dizer que eu só estou percebendo um lado e que o outro eu “invento”, eu “crio” na minha imaginação?

No começo da filosofia moderna as pessoas tiveram exatamente essa impressão, quer dizer, os dados sensíveis só nos dão uma parte do que nós percebemos, e o resto nós completamos com a nossa mente, com a nossa imaginação etc. Aos poucos eles foram vendo que a quantidade de informações sensíveis era mínima, e daí chegaram à conclusão de que a quase totalidade daquilo que nós pensamos saber sobre o mundo exterior é invenção nossa. Isso aí justifica, portanto, todo o Idealismo moderno.

O fato do qual o Idealismo moderno parte é muito importante, mas a conclusão que é tirada a partir daí, de que o mundo não é propriamente percebido, mas é inventado, criado pela nossa mente, é cem por cento errada. Como é que eu sei disso? Eu sei disso porque noto que o meu olhar tem a capacidade de visão tridimensional, ou seja, ele vê as coisas em profundidade. No entanto, cada objeto que eu pego, só o vejo de maneira chapada, só o vejo por um lado, de modo que minha visão tem uma capacidade a mais, que os objetos presentes, de certo modo, não satisfazem. Embora eu só possa ver as coisas por um lado, o meu olhar, instintivamente, naturalmente, ultrapassa esse lado e vai para além. Embora exista a barreira… Por exemplo, eu estou vendo a Isabela só por um lado, mas por acaso eu imagino que ela é uma figura bidimensional, uma ilusão do meu entendimento? Não, eu sei que a presença corporal dela tem uma densidade, uma tridimensionalidade. Eu sei disso porque meu olhar tem a capacidade da visão tridimensional, portanto é natural que o próprio olho complete a percepção de cada objeto com uma espécie de expectativa de sua tridimensionalidade. Ora, o meu olhar tem tridimensionalidade, mas os objetos também têm tridimensionalidade independentemente do meu olhar. Um cego pode perceber a tridimensionalidade através do tato, e nós sabemos necessariamente que os corpos só são corpos porque são tridimensionais, senão seriam apenas figuras num plano.

Aí há uma maravilhosa coincidência, um maravilhoso ajuste entre uma capacidade perceptiva que eu tenho, que é a tridimensionalidade, e uma propriedade dos próprios objetos. Portanto, o olho com capacidade de percepção tridimensional está maravilhosamente ajustado à estrutura real dos corpos. Isto quer dizer que aquilo que o olho não pode perceber diretamente, porque o exercício desta capacidade de percepção tridimensional é barrado pela própria presença do corpo opaco — que não pode ser atravessado —, então isso é completado na imaginação. Mas acontece que eu disse que o olhar é tridimensional e o corpo é tridimensional, mas no exercício da percepção efetiva esta tridimensionalidade não se cumpre inteiramente na esfera do puro olhar, pois o olhar é completado pela imaginação. Mas ele é completado pela imaginação segundo as propriedades dos próprios objetos percebidos, ou seja, nada foi inventado. Há apenas um ajuste da minha percepção à realidade do mundo percebido. E nós sabemos que esta tridimensionalidade estará presente em todos os corpos porque ser um corpo é ter uma tridimensionalidade e, portanto isto se aplica a tudo aquilo que existe no mundo.

Nós sabemos que, para além daquilo que o nosso olho enxerga, existe ainda presenças corporais tridimensionais em número ilimitado, e que não há intervalos nessa tridimensionalidade. Mesmo o que nós imaginamos como bidimensional, por exemplo, desenhado numa folha de papel… bom, você não diria que uma folha de papel é bidimensional! Ela tem uma espessura, porque uma folha de papel sem espessura não existiria, logo mesmo o que nós imaginamos do bidimensional é tridimensional. Nós concebemos o bidimensional como uma abstração mental, só por abstração mental, nós não podemos perceber nada bidimensional. Ou seja, a nossa percepção é forçosamente tridimensional porque a realidade é tridimensional. E o que nós chamamos de bidimensional é apenas a separação de uma parte das propriedades do mundo real que nós podemos conceber separadamente das outras partes, mas que não pode existir separadamente das outras partes. Estou dizendo isso para vocês verem a imensa adequação que existe entre a nossa imaginação e as propriedades do mundo real. A imaginação completa, de fato, a percepção, mas não o faz de acordo com a sua própria inventividade, e muito menos não completa simplesmente obedecendo à estrutura do nosso pensamento, da nossa percepção, mas obedecendo às propriedades reais que permitem a existência e a presença dos corpos.

O nosso conhecimento da unidade do mundo está inteiramente na imaginação. Não é uma percepção sensível, vai muito além da percepção sensível. Mas ela corresponde justamente àquilo que preenche de realidade a percepção sensível. Se pretendermos isolar aqui na nossa percepção tudo aquilo que é elemento imaginário e reduzi-la à pura estimulação sensível… Bem, nós sabemos que o olho humano só fixa um ponto de cada vez. Um, e um único. Se você está vendo uma paisagem enormemente complexa, o foco do seu olho está somente num ponto e o resto você está vendo de maneira difusa. Mas como este ponto se desloca, a unidade daquela paisagem aparece a você, mas não aparece de maneira sucessiva, não aparece aos poucos, aparece de maneira simultânea. O foco do olhar se desloca no tempo: um ponto, outro ponto, outro ponto, outro ponto etc., mas você está percebendo a paisagem como um todo. Pergunto eu: os elementos da paisagem existem de maneira sucessiva ou estão todos lá ao mesmo tempo? Eles estão lá ao mesmo tempo. Isto significa que o aporte imaginário que está completando o trabalho do seu olho é que dá a você o senso de realidade. Isto aqui é absolutamente fundamental.

Na cultura de hoje, está impregnada a seguinte ideia: nós existimos em um mundo físico composto de seres acessíveis aos sentidos, e tudo o mais é criação da nossa mente, individual ou coletiva, é criação cultural. Ah é, Zé Mané? Isto que você está chamando de mundo físico, acessível aos sentidos, isto jamais existiu. Se você somar todas as impressões sensíveis que você teve ao longo da sua vida, elas não compõem o mundo, elas são um nada; e você, assim, viveria num mundo absolutamente subjetivo composto apenas das suas sensações, que são, afinal de contas, coisas que acontecem no seu corpo. Quando você percebe uma imagem, um som, um gosto, um toque, onde aconteceu isso aí? Aconteceu no seu corpo. Se esta fosse a realidade você viveria cercado em um mundo inteiramente subjetivo constituído apenas dos estímulos que o seu corpo recebe. Você jamais teria ideia de uma constituição objetiva do mundo.

Nós chegamos à constituição objetiva do mundo através de quê? Através da imaginação, que completa a percepção. Longe de a realidade ser constituída das estimulações sensíveis e o resto ser tudo criação subjetiva humana, é ao contrário. A objetividade do mundo, a presença unitária do mundo é percebida pela imaginação. E aquilo que nós chamamos de percepção sensível nunca existe separadamente, nós só podemos falar de percepção sensível no sentido abstrativo, porque toda e qualquer percepção sensível está sendo completada pela imaginação e pela memória no mesmo momento, não existe uma percepção isolada, atomística. A concepção de percepção sensível, de sensação, é totalmente abstrativa. Não existem sensações, só existem sensações como componentes da percepção total, a qual é constituída, sobretudo, de imaginação. Ou seja, a imaginação nos instala na realidade usando vários elementos: alguns presentes, sensações recebidas; outros, anteriores, depositados na memória; outros, estruturados na sua imaginação imediatamente com esses dois elementos. Mas é isto que nos coloca no mundo real. O mundo real é essa totalidade do percebido, do imaginado, do antecipado etc., porque tudo isto é percebido, imaginado e antecipado de acordo com as propriedades reais dos objetos.

Se nós abstraímos tudo isso e sobrarem só as percepções sensíveis, bom, as percepções sensíveis não constituem um mundo de maneira alguma, constituem apenas o conjunto das alterações que o meu corpo sofreu. Ora, uma ameba tem sensações; a prova é que, se você a cutuca, ela se mexe. Este mundo subjetivo existe até em uma ameba, o que ela não tem é a imaginação. Ela não chega a captar esta dimensão de realidade, ela capta apenas a dimensão do que o Xavier Zubiri chama de estimulidade, ou seja, aquilo que afetou o corpo dela. Isso é a mesma coisa que dizer que o mundo da ameba é constituído exclusivamente do corpo dela. O que tem em volta é percebido apenas como alterações sofridas dentro do corpo dela. Para a ameba não existe mundo, existe somente ela! A subjetividade corporal dela. Se o mundo real fosse constituído apenas dos entes sensíveis, com as informações sensíveis que eles podem nos dar, nós viveríamos no mundo da ameba, só perceberíamos nossas próprias alterações. Se nós vivemos em um mundo real – nós sabemos que os objetos têm propriedades, têm presença, que eles se articulam uns aos outros, que formam a unidade da presença do ser – nós sabemos tudo isso porque temos imaginação. A imaginação não é feita para tirar você do real, mas para instalar você no real, meu Deus do céu!”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 21, 29/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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