O que nós chamamos de realidade jamais é constituído somente da presença estática dos corpos, mas é constituído de um sistema imenso de dinamismos e possibilidades que estão latentes naquele momento mesmo, prontas a acontecer – Olavo de Carvalho

“Há mais outro motivo pelo qual a imaginação é tão importante para o conhecimento do real. Vamos supor que você vem caminhando por uma rua e vê um cachorro deitado: ele pode, quando vê você, abanar o rabo, não ligar para você, começar a latir, atacar ou pode fugir. Mas ele não vai sair voando, não vai cumprimentá-lo em alemão, e tem uma série de coisas que ele não vai fazer, ou seja, na hora em que você percebe o cachorro, existe esse conjunto de expectativas quanto ao que ele pode fazer e é esse conjunto de possibilidades que faz com que ele seja um cachorro, porque se for um cachorro empalhado não será um cachorro e você sabe que ele não fará nada. Você sabe a diferença entre perceber um cachorro empalhado e perceber um cachorro. Por que você sabe que é um cachorro? Porque ele tem forma externa, figura de cachorro? Não, porque um cachorro empalhado também a tem. Você percebe que é um cachorro porque ele tem as potências de um cachorro, quer dizer, há um dinamismo dentro dele, e esse dinamismo mostra várias possibilidades de ação que ele pode realizar no instante seguinte. E você percebe isto imediatamente, é por isto que você sabe que é um cachorro.

Isso quer dizer que o que nós chamamos de realidade jamais é constituído somente da presença estática dos corpos, mas é constituído de um sistema imenso de dinamismos e possibilidades que estão latentes naquele momento mesmo, prontas a acontecer. No instante seguinte – ora, se você fosse privado da percepção destas potências, você não entenderia nada do que está acontecendo em volta – estaria completamente fora da realidade. Através da imaginação você capta este conjunto – não ele inteiro, evidentemente –, mas um conjunto imenso de possibilidades, inclusive com relação ao seu próprio corpo. Como é que você percebe o seu próprio corpo? Como simples presença tridimensional agora ou como potência, como possibilidade? Por exemplo, eu posso fazer esse gesto. E se eu mandasse minha mão se mexer e ela não se mexesse? Seria muito esquisito. Isto quer dizer que a percepção do mundo real é a percepção de um conjunto imenso de dinamismos e potências e não a presença, a percepção simplesmente de corpos estáticos. Ou seja, amputado da dimensão do potencial ou do possível, o mundo real não é mais mundo real, é uma fantasmagoria estática que nunca existiu.

Veja a profunda estupidez que existe em pensar que o mundo real nos é dado pela percepção sensível, e o resto, tudo o que vem da imaginação é irreal, é criação nossa. Não, isto não é uma criação nossa, é o ajuste da nossa consciência à estrutura do mundo real. É pela minha antecipação do que o cachorro pode fazer que eu sei que ele é um cachorro. Se eu não conseguir antecipar nada eu não posso distinguir um cachorro de um cachorro empalhado ou de um gato. Vendo o cachorro ali deitado eu sei, com certeza absoluta, que ele não vai miar, nem fazer piu-piu, nem conversar comigo em inglês ou português ou alemão. Eu sei que ele não vai fazer nada disso. Esta expectativa que eu tenho é só expectativa, existe só na minha mente? Como existe só na minha mente? Se eu não percebi este potencial no cachorro eu não percebi o cachorro, mas se o cachorro não tiver este potencial ele não será um cachorro! Isto não está na minha mente, está nele! As possibilidades que eu percebo não estão em mim, estão nele! E é porque eu as percebo nele que eu sei que é um cachorro, e é porque ele possui estas possibilidades que ele é um cachorro. Esta antecipação não está criando nada, isto é a percepção.

Por que nós não podemos dizer que existe a percepção sensível e em cima a imaginação que cria um monte de coisas? Porque o momento presente, que pode ser percebido exclusivamente por sensação, não está separado do seu momento seguinte, que só existe como potencial. O potencial está presente nele. (…) Se eu fosse reduzido apenas aos meus cinco sentidos eu não perceberia nada, absolutamente nada! Nada! Nada! Ora, qual é o correlato objetivo das sensações? É a presença material. Ou seja, um mundo que fosse constituído de presenças materiais seria absolutamente irreal, porque ele não teria o potencial. Do mesmo modo que se eu percebesse só com os sentidos, e não tivesse antecipação, eu nada perceberia de real. As próprias coisas, se elas fossem desprovidas do seu potencial e tivessem apenas sua presença corporal, não poderiam existir de maneira alguma, seriam apenas conceitos. Onde existe um objeto composto apenas de suas propriedades físicas dadas e onde existe uma pura percepção sensível no ser humano? Só no mundo dos conceitos. Isto é um produto mental.

O famoso mundo material que constitui a realidade é puramente mental, só existe como conceito, não existe como realidade. Existe como conceito porque nós conseguimos abstrair, então nós supomos que, numa percepção real qualquer – percepção preenchida de todos os seus elementos – eu posso mentalmente, retroativamente, separar, na minha mente, o que é um elemento de antecipação, um elemento de imaginação, um elemento de sensação. Não é que eu posso separar, eu posso distinguir, mentalmente, mas não posso separá-los na realidade, nem por um único momento. Isso aqui é o suficiente para entender que qualquer sujeito que diga para vocês que é um materialista é uma besta quadrada. O sujeito que é materialista não examinou o problema por dois minutos e não é capaz de fazer isso. O materialismo é uma simples doença mental; não é uma doença mental, é uma doença do intelecto, uma falta de inteligência. O mundo real não é composto de matéria, ele é composto de uma infinidade de dinamismos, de potencialidades que estão se desenrolando o tempo todo, e que chegam a nós não através da percepção sensível, mas através da imaginação. Ou seja, nós vivemos dentro deste mundo imaginário, por assim dizer, dentro deste conjunto de possibilidades, deste conjunto de tensões. Eu estou falando com vocês agora, eu nem estou vendo a maioria de vocês, mas eu sei que vocês estão ouvindo e que o que eu estou dizendo tem algum efeito em vocês: desencadeia ideias, associações de ideias, imaginações, reações emocionais etc. Toda esta tensão está aqui presente. Se eu me esquecer disto e imaginar que estou aqui apenas falando sozinho dentro de uma sala, eu estarei na realidade? Não, aí é que eu terei fugido da realidade. Toda esta presença de vocês é, para mim, no momento, “apenas” imaginária. No entanto, é ela que é a realidade desta situação.

Toda essa primeira etapa do nosso curso se destina a fazer vocês tomarem posse desta capacidade que todos nós temos de percepção do mundo como coisa real, como coisa viva, presente, atuante que se desenrola no tempo, e que contém a cada momento, além dos dados já presentes, um conjunto de tensões e potenciais que marca a sua verdadeira presença. Em nenhum momento da sua vida, mesmo um momento infinitesimal, você esteve diante de um mundo estático constituído apenas de presenças corporais. Mesmo que estivesse em um deserto, onde só há areia e pedras, você sabe que no instante seguinte o sol pode assá-lo. Se não tivesse consciência disto, você saberia que estava no deserto? Só porque está vendo areia e pedras? Não, você estaria fora da situação real, estaria apenas vendo uma aparência ilusória de areia e pedras e não um lugar real e efetivo chamado deserto. A mudança da temperatura… Você acha que a temperatura vai ficar estática? Todo mundo sabe que, num deserto, de dia é um calor infernal e, de noite, é um frio temível. Você sabe disso, sente a mudança da temperatura e sabe que ela vai mudar depois. Se não soubesse disso e imaginasse somente a temperatura atual como uma coisa estática… Pergunto: existe temperatura estática? Não, temperatura é mudança de temperatura. Temperatura estática jamais poderia ser percebida. A temperatura é percebida através das suas modificações. Mais ainda, a temperatura é percebida porque a temperatura do ambiente não é a mesma do seu corpo, há uma diferença, senão você não perceberia.

Perceber o mundo real é perceber possibilidades, tensões, expectativas. É assim que nós percebemos no mundo real, mas os professores de filosofia não, eu acho que eles percebem de outra maneira. O próprio conceito de materialismo não é enunciável sem autocontradição, não pode nem mesmo ser pensado como hipótese. Você pensa que existe o mundo material, e, como nós temos um cérebro, inventamos outras coisas para além do mundo material, porém tudo isso que nós inventamos é exatamente a presença do mundo material. Se reduzido às suas propriedades “materiais”, o mundo não poderia sequer ser material. Porque o que você chama de material é apenas uma seleção abstrativa de certas propriedades dentre as inúmeras que você percebe e que hipoteticamente você chama de materiais, mas que não são percebidas separadamente. Jamais são percebidas separadamente. Todo o conhecimento que nós possamos adquirir da Epistemologia, da Teoria do Conhecimento deve ser obtido através da análise da percepção real, da análise do conhecimento real, e não através de hipóteses artificiosas. O conhecimento real é aquele que é obtido na experiência real, na experiência efetiva e não na experiência hipotética.

O que é uma experiência científica? É uma experiência hipotética montada dentro do campo da experiência real e que só tem validade dentro do campo da experiência real. Quando um sujeito, baseado em uma experiência científica, nega a consistência da experiência real, pretendendo que a experiência científica tenha mais validade cognitiva que a experiência real, ele está incorrendo em uma autocontradição monstruosa. Se ele realizou efetivamente esta experiência, ele não a realizou só dentro laboratório, mas dentro da realidade. Onde estava o laboratório dele? Se ele realizou realmente a experiência, ele a realizou dentro da realidade. Ela só tem validade quando inserida dentro desse campo da experiência real. Sem esse campo ela não tem validade nenhuma, não significa nada! Nada! Nada! Jamais uma ciência em particular ou os resultados delas todas se podem sobrepor à percepção comum e corrente que nós temos da realidade. Jamais! Nós podemos apreender, mediante o exame analítico da recepção comum, mas nós não podemos superá-la. Onde vamos superá-la? No mundo hipotético ou no mundo real? Aquilo que o Husserl chamava o Lebenswelt — o mundo da vida — na verdade eu acho esse conceito demasiado tímido, porque o Lebenswelt é o único mundo que existe, e eu asseguro a vocês: o mundo da experiência científica, considerado em si mesmo, não existe. Ele só existe como uma parte do Lebenswelt, que você decidiu olhar separadamente, você está distinguindo mentalmente, mas não está separando de fato. Isso quer dizer que, sem uma Ontologia e uma Epistemologia baseadas no exame da experiência real nenhuma ciência vale nada, elas só adquirem valor se devidamente inseridas dentro deste esquema geral da realidade.

O Jean Piaget, no livro Sabedoria e Ilusões da Filosofia, diz o seguinte: só o que dá conhecimento efetivo são as ciências, a filosofia dá apenas um senso de orientação e de valores. Medite sobre esta frase. Ele acha que conhecimento efetivo é aquele que foi dado pelo experimento científico e, ao lado do conhecimento, existe um enfeite, o qual é um senso de orientação e de valores. Acontece que, para saber se esse experimento científico é verdadeiro e se é válido – isto é uma questão de orientação e de valores. Onde existe conhecimento científico exceto dentro do campo de orientação e de valores? Ele nunca existiu em si mesmo, ele é apenas uma invenção da mente. Ora, se o senso de orientação que permite você julgar um experimento científico não é em si mesmo conhecimento, o resultado do experimento científico também jamais poderá ser conhecimento. Cá entre nós, eu sempre considerei o Jean Piaget uma besta quadrada. O que ele fez de malefício para a psicologia e a educação é imensurável. É um autor que, sinceramente, da primeira a última linha que ele escreveu eu jogaria no lixo. Tudo! Não sobra nada! É tão cheio de preconceitos, tão cheio de erros monstruosos de observação que não espanta que ele tenha adquirido, na educação brasileira, a importância que ele adquiriu, porque brasileiro só gosta do que não presta.

Quando Jean Piaget acerta alguma coisa, ele sempre acerta dentro do contexto errado. E ele faz isso por quê? Por presunção, é um homem presunçoso, metido. Eu acho que a profissão acadêmica faz bem para umas pessoas, mas faz mal para outras. A umas, ela inspira uma modéstia, um cuidado, uma prudência, mas a outras ela infla de tal modo, que o sujeito acha que ele é mesmo o representante do conhecimento objetivo, e que os outros têm apenas opiniões, imaginações etc. Na hora em que o sujeito pensou nisso, ele já ficou psicótico, porque conhecer a realidade é próprio do ser humano em geral, é próprio até do mais burro dos seres humanos — até o Lula conhece a realidade, gente! Conhecer a realidade não é nenhum privilégio.

Eu lembro que anos atrás eu li um livro de lógica que era muito usado no ensino universitário brasileiro, do autor Louis Liard. Ele começava por dizer o seguinte: que é muito difícil conhecer as essências das coisas, que você só pode conhecer através de um longo exame analítico. Se eu não conheço a essência daquilo que eu estou examinando eu estou examinando o quê? Como é que eu poderia, através do exame de várias aparências, obter uma essência? Uma essência é aquilo que uma coisa é. Mas se eu não sei o que as aparências são, o que eu posso examinar delas? Por exemplo, eu examino várias aparências de gato para chegar à conclusão de uma essência gato. Porém, a aparência de gato também não é uma essência? A aparência de gato é alguma coisa. Ora, se para eu chegar à essência de gato eu preciso examinar várias aparências de gato, e se as aparências de gato, por sua vez, não são essências, eu precisaria examinar vários componentes, até chegar à essência chamada aparência de gato. Por exemplo, aqui tem a cor do gato, jeitão de gato, miado de gato; cada um desses componentes eu teria de examinar para chegar a montar uma essência chamada aparência de gato. Porém, meu Deus do céu, cada um desses componentes também não é uma essência? A cor de gato não é cor de gato? Ela é uma essência. Isso significa o seguinte: se eu não conheço as essências dos objetos na primeira, instantaneamente, eu jamais as conhecerei, jamais chegarei a essência alguma. Essência das coisas é a primeira coisa que você conhece que é o que as coisas são. Eu sei que um gato é gato, sei que cor de gato é cor de gato e que aparência de gato é aparência de gato e, no entanto, esta besteira descomunal foi ensinada – este livro é do século XIX – durante um século. Esta coisa foi usada no ensino secundário e até universitário. O que acontece com a cabeça humana quando ela é convencida disso? “Ah, eu não conheço a essência de nada, só conheço aparências. As essências eu só conhecerei se eu estudar o livro do Louis Liard e depois estudar o Bertrand Russell, estudar não sei o quê, para aí conhecer as essências, depois de muito trabalho.” O que acontece com a mente convencida disso? Primeira coisa: ela acabou de cortar relações com a sua própria percepção do mundo real. Ela está fazendo uma coisa — o processo cognitivo dela que está se desenrolando neste mesmo momento é um — e o que ela pensa a respeito é outra coisa completamente diferente. Nesse mesmo instante ela perdeu a capacidade de examinar a experiência real. E, se não tomar cuidado, perdeu para sempre.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 021, 29/08/2009.


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