O culto da razão terminou na total destruição da razão e na sacralização da opinião dominante – Olavo de Carvalho

“Nós sabemos que a maior parte das pessoas vive num mundo onde tudo é constituído de dúvidas e de incertezas. O sujeito jamais pode afirmar nada a partir de sua experiência real porque ele está persuadido de que tudo são apenas aparências e de que as ideias que ele forma a respeito são apenas opiniões; quem o ensinou a pensar assim foi a escola, o ensino. Isso é uma opressão do intelecto, uma escravização da inteligência. Isso é a destruição da inteligência porque você perde a confiança no intelecto já no primeiro passo que dá. Se você perde a confiança no seu próprio intelecto, qual é o padrão de certeza que você pode ter na vida? Você pode viver na incerteza total? Jamais. Ninguém consegue viver na incerteza total. Você vai se apegar à opinião do seu professor, do seu grupo.

Hoje em dia, quase todas as pessoas dizem que não há verdades absolutas, que tudo é relativo; mas experimente questionar uma única opinião delas: elas ficam bravíssimas no mesmo instante. Elas querem dizer: “Não existe nenhum conhecimento objetivo de nada, a única autoridade sou eu e o meu grupo, a minha turma.” Este é o modus raciocinandi que se usa hoje em dia, o único admitido em todas as discussões públicas. Não pode haver teste objetivo do que quer que seja; só existe o valor da opinião dominante. Nós estamos num estado de opressão mental como nunca existiu na história humana. Esse é o resultado do iluminismo. O Iluminismo começa a dizer que nós temos de seguir a razão, que nós não podemos seguir o argumento de autoridade; mas, passados dois séculos, eles criaram o argumento de autoridade mais indiscutível, mais inquestionável, mais dogmático que existe no mundo, no qual a simples hipótese de você dizer “não” já o configura como doente mental. Não há mais teste racional de coisíssima nenhuma. O culto da razão terminou na total destruição da razão e na sacralização da opinião dominante. Experimente, contra uma opinião dominante qualquer, levantar qualquer fato comprovado; um fato. Vão dizer que você é louco. Isto é assim em todos os domínios. E será que isto é assim só entre os populares, mas existe uma camada de intelectuais que raciocina independentemente? Não, são justamente os intelectuais os que impõem este tipo de coisa.

Se for para aceitar isso, você desistirá da sua condição de animal racional e se imbuirá do espírito da horda e jamais chegará a enxergar algo com seus próprios olhos. Aquela famosa pergunta de Groucho Marx — “afinal, você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?” — já está respondida de antemão: você tem de acreditar no que dizem; jamais nos seus próprios olhos. O que se criou hoje e está sendo imposto ao mundo inteiro pela mídia praticamente universal, é um conjunto de dogmas absolutamente imbecis que implicam, realmente, na destruição total e, provavelmente, irreversível da inteligência humana. É por isso que nós atravessamos hoje, não um problema histórico, mas uma crise de dimensões antropológicas. Se nós não tratarmos de preservar as capacidades de cujo exercício esta turma está querendo nos privar, essas capacidades desaparecerão mesmo!

Mesmo as pessoas mais inteligentes, hoje em dia, ficam aterrorizadas quando começam a pensar uma coisa diferente do que sai na mídia. Elas sentem que ficaram loucas, que perderam o chão. Mas o que é isso, minha gente? Ao longo de toda a história humana, sempre existiu gente que percebia o que os outros não percebiam. (…) Note bem: tudo o que foi descoberto no mundo — absolutamente tudo — foi descoberto por indivíduos. A descoberta coletiva é impossível, pois seria necessário um sincronismo maior do que todas as loterias do mundo. Quem descobre uma coisa, descobre algo que os outros não sabem. Absolutamente tudo o que o ser humano sabe foi assim: alguém percebeu antes que os outros tivessem percebido, depois vem outro, e outro; e, no fim, todo mundo fica sabendo daquilo. Isso é simplesmente um processo natural; processo que está sendo detido hoje. Podemos dizer que as pessoas estão fazendo isso por boa intenção? É claro que não! Quem está nos impondo isso são psicóticos — gente perigosíssima —, mas estão cheios de dinheiro no bolso para comprar um monte de consciências; e as pessoas servem a isso porque não são capazes de medir as consequências.

(…) Vejam até que ponto este império da opinião dominante se tornou uma coisa estupidificante — e perigosa mesmo — para a inteligência humana. Se as condições mínimas para a investigação e entendimento de qualquer coisa lhe são negadas, o capítulo seguinte é você simplesmente desistir de saber o que está acontecendo, baixar a cabeça e dizer: “agora eu vou ser dirigido por fatores desconhecidos, mas eu confio neles, eu tenho fé neles”. Eu também sou dirigido por uma coisa que eu não vejo e na qual tenho fé: é Deus. (…) Eu não estou exagerando quando digo que isso é uma crise de dimensões antropológicas: isso é a abdicação geral de capacidades e direitos humanos fundamentais.

Eu inventei este curso para responder, não só a uma situação brasileira do momento, mas a uma crise antropológica. Dentro de um mundo de obscuridade geral, aqueles que conservarem, praticarem, fortalecerem essas capacidades serão pequenos pontos de luz e servirão como única orientação possível. Os próprios geradores da obscuridade também vão precisar dessa orientação, porque, sempre que você esconde alguma coisa, esconde alguma coisa que está sabendo, a não ser que a esconda tão bem que você mesmo esqueça — o que realmente acontece às vezes —, e na política, em geral, isso acontece com uma frequência assombrosa. Aquilo que foi escondido passa a ser esquecido pelo próprio sujeito que escondeu. E daí ele já não sabe mais o que está fazendo. Nós vivemos isso hoje com uma frequência assombrosa.

(…) A gente precisa lembrar o que dizia Hegel: “o medo de errar é, na maior parte dos casos, o medo de descobrir a verdade.” Às vezes a verdade é horrível, e às vezes ela é tão decepcionantemente ridícula, que o cidadão médio hoje tem medo de descobri-la; e a necessidade de encobrir, de manter mentiras, é uma coisa tão obsessiva, tão louca, que as pessoas estão aterrorizadas. O sujeito que se fecha dentro de uma mentira — sabendo que é mentira, mas tendo que defendê-la para não gerar insegurança, sobretudo insegurança dele próprio — está no fundo da loucura e ele está dizendo que o louco é o outro que está querendo saber a verdade. A coisa virou de cabeça para baixo, os loucos tomaram o hospício.

(…) Eu vejo, por exemplo, que a noção de prova objetiva — documentos primários — já desapareceu da mente das pessoas. Se eu chego para um sujeito e digo que ele me deve tanto, o cara me diz: “prove!”; e, quando eu mostro a promissória por ele assinada, ele diz: “isso daí é teoria da conspiração, porque ninguém acredita nisso”. A prova não vale nada mais: a opinião é que vale porque as pessoas têm medo de ficar sozinhas. Quando o ser humano tem medo do isolamento é porque a capacidade que ele tem de acreditar em Deus acabou. Você quer um sujeito mais solitário do que Jesus Cristo no alto da cruz, quando ele sentiu que até Deus Pai o abandonou — “Deus Pai, por que você me abandonou?” —, sem ninguém; todo mundo ali em volta está contra; os discípulos fugiram, deram no pé; a mãe dele, chorando lá embaixo, não pode fazer nada! E Deus Pai, cadê? Puxa, é o último e agora não tem nem esse? Isto é o modelo da nossa civilização. Esta capacidade de ficar absolutamente sozinho, sentindo-se desamparado até por Deus, é o essencial no ser humano e é o que garante a objetividade do seu conhecimento. Na verdade, você não vai estar sozinho: Jesus Cristo jamais foi abandonado por Deus Pai; apenas, naquele momento, Nosso Senhor Jesus Cristo deixou de ver por uma fração de segundo.

Sem a coragem intelectual vocês não vão a parte alguma; e, durante longo tempo, é preciso desenvolvê-la. Isso é mais importante do que o volume de conhecimentos que vocês vão obter. O volume de conhecimento é a coisa mais fácil do mundo de se obter, vocês não imaginam como; depois que você já está enquadrado, que sua personalidade está apta a isso aí, você descobre o que você quiser quase que instantaneamente e a sua capacidade de absorção de conhecimento é muito grande. A Isabela é minha testemunha, ela já me viu fazer isto: pegar um livro e em dois dias ler o livro inteiro, fazer um resumo do livro; em um, dois dias. Todo mundo pode fazer isso — para ler um trabalho acadêmico médio, você não precisa de mais de um ou dois dias —, você pode chegar a absorver um livro por dia, como Goethe, sem dificuldade, sem drama e sem esforço. Dá para fazer isso.

Tudo depende do seu começo. Você tem que permanecer perto daquilo que em você está vivo e é real; é só isso, porque é dali que vem a fonte de tudo. Você tem de aprender que a sua consciência tem um centro, o qual não é expressável em termos de autoimagem; ele não pode ser apreendido e de certo modo ele não pode ser conhecido porque ele é você mesmo. Esse centro não é para ser conhecido, é para ser realizado: é ali que você tem que estar e para isso você vai ter que jogar fora tantas autoimagens, tantas ideias erradas que você tem sobre você mesmo; praticamente você tem que jogar todas. Quando chegar a hora em que você disser: “não preciso mais saber quem eu sou; não me interesso mais por mim; eu quero saber alguma coisa!”, aí você entendeu o que é o ser humano, entendeu o que é você.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 21, 29/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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