Teoria da conspiração – Olavo de Carvalho

“Quem denuncia — por exemplo, um político ou um governante de estar tramando tal coisa, ou qual coisa — é acusado de teoria da conspiração e, já imediatamente, a suspeita recai sobre o acusador. William Butler Yeats, o grande poeta, dizia que a capacidade mais poderosa e mais infame do jornalismo é a de repetir inúmeras vezes um nome associado a algo de ridículo ou de maligno. Basta fazer isso mil vezes sem prova e, sobretudo, sem discutir — a ideia não é colocar em discussão, mas dar aquilo como se fosse de domínio comum —; algo que nem chegou a ser discutido e que ninguém sabe, na verdade, é dado como se fosse já provado e de domínio comum — e um dos termos favoritos para isso é “teoria da conspiração”.

Como é possível que a acusação de teoria da conspiração tenha adquirido tanta eficiência justamente na época da história humana que usou do segredo como nenhuma outra anterior? Até o séc. XX, os serviços secretos só atuavam para determinados fins muito limitados, principalmente em situações de guerra; mas quando veio o séc. XX foi criado algo chamado KGB, que não era um serviço secreto como os outros. A KGB investigava e coordenava tudo: desde as atividades bélicas do inimigo até a vida particular dos próprios cidadãos — ela se tornou uma espécie de administração geral de tudo — e tudo isso era secreto. Vasili Mitrokhin, em depoimento para o historiador inglês Christopher Andrew, conta que ele era o gerente encarregado da mudança de edifício da KGB e que tudo que saía de um edifício para o outro tinha de passar por ele para assinar e carimbar. Havia dezoito bilhões de dossiês na KGB — a população da Terra, atualmente, acho que é sete, ou oito bilhões; naquela época, com população menor, já existia mais de um dossiê para cada ser humano — e, graças a isso, a mudança, tirar todos os dossiês daqui e botar em outro prédio, levou dez anos. Toda essa massa de informações só é acessível aos funcionários da KGB. Isso quer dizer que tudo o que se passou no mundo soviético, durante toda a duração do império soviético — e até hoje, na verdade — é secreto. Como, então, em uma época dessas, você pode ser contra as pessoas especularem conspirações se o próprio sistema normal de administração das coisas virou conspiração?

Hoje em dia, está surgindo, aqui nos EUA, o seguinte problema: dois trilhões de dólares foram distribuídos no chamado stimulus do Obama e o Federal Reserve se recusa, absolutamente, a publicar quem recebeu esse dinheiro. São dois trilhões de dólares em empréstimos secretos e você não pode falar de conspiração. Sem o conceito de conspiração — conspiração é tramar uma coisa em segredo —, nada no século XX, absolutamente nada, é compreensível porque as pessoas não só tramam em segredo, mas o segredo é oficial e a tentativa de vazá-lo é considerada criminosa. Eles tomam o seu dinheiro através de impostos, o dão para quem quiserem e você não pode saber? Isso não está acontecendo na URSS, é aqui nos EUA, terra da democracia e da liberdade de imprensa. É verdade que, essa semana, um juiz federal já decretou que na semana que vem o Federal Reserve vai ter que entregar o serviço, mas aposto que até o último momento eles vão se recusar, porque o presidente do Federal Reserve disse que isso pode ser catastrófico para as entidades que receberam dinheiro. É claro que vai ser catastrófico; mas, se ninguém souber qual é o segredo, vai ser catastrófico para quem pagou!

Esta é a época na qual nós vivemos. A dimensão da atuação dos serviços secretos — especialmente no mundo comunista e no mundo islâmico — é uma coisa monstruosa e você não pode entender uma só decisão política sem especular os elementos secretos envolvidos; é impossível. Toda a política do século XX é constituída de conspirações; a parte que é decidida em público, por razões transparentes, é mínima. No entanto, o público, quando vê alguém acusado de teoria da conspiração, já pensa que o sujeito é louco. Louco é quem não faz nenhuma teoria da conspiração. Hoje, para você descobrir tudo o que aconteceu, tem de especular o elemento escondido; senão você não vai entender. Pior ainda: quando você especula uma parte dos elementos escondidos, e a outra parte falta, você não entende nada.

(…) Este assunto é gravíssimo. É necessário muita seriedade e muita capacidade para poder orientar-se no meio disto e as pessoas, quando não têm esta retaguarda intelectual e se metem nisso, criam uma fantasia monstruosa e, aí sim, é teoria da conspiração. Por exemplo, o Armindo Abreu, no livro O Poder Secreto, descreve esses camaradas do Governo Mundial como “os controladores”. Você acredita que eles realmente controlam? Não, eles escondem, manipulam, mas não controlam, evidentemente. Ninguém pode coordenar coisas desse tamanho sem se atrapalhar e esse pessoal se atrapalha o tempo todo; ou você acha que eles, só porque têm muito dinheiro no bolso, têm um monte de intelectuais trabalhando para eles, eles agora viraram anjos, eles são forças cósmicas que controlam o curso da História? Este tipo de política conduzida através da ocultação se oculta a si mesma e perde absolutamente o controle do que está fazendo: quanto mais eles pensam controlar, menos eles controlam.

Kenneth Maxwell — grande historiador etc. —, no dia em que foi no CFR (Council on Foreign Relations) e assegurou que o Foro de São Paulo não existia, disse isso para umas trezentas pessoas — pessoas importantíssimas, pessoas de poder: presidentes de empresas, senadores, comandantes militares, chefes de ordens maçônicas —; e quantos, desses trezentos, sabem que o Kenneth Maxwell está mentindo? A maioria não sabe, então está aqui um controlador enganando os outros controladores. Em quê você acha que vai dar os planejamentos que eles fazem? E o que impede que um sujeito se levante do outro lado da mesa e conte outra mentira, na qual o Kenneth Maxwell vai acreditar? Não há ninguém controlando o fluxo de verdade e de mentira; isso é uma inter-manipulação de cegos, loucos, cheios de dinheiro no bolso, e com uma capacidade imensa para enganarem-se uns aos outros. E é esta gente que ‘dirige’ o mundo hoje.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 021, 29/08/2009.


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