Nós aprendemos por apreensão imediata das essências, senão não conseguiríamos aprender nada jamais – Olavo de Carvalho

“Eu não acredito que praticamente nada no aprendizado humano venha efetivamente por indução. A indução é o método de você testar conhecimentos, e não o método de adquiri-los. Por exemplo, como é que nós formamos os conceitos universais, os conceitos das espécies? Responde o Louis Liard — e com ele praticamente toda a psicologia experimental francesa (e tem muita gente que acredita nisso até hoje) — que nós pegamos vários objetos parecidos e montamos a espécie. Muito bem, você faz isso por comparação, mas o quê do primeiro objeto você compara com o segundo objeto? Por exemplo, você quer formar o universal gato: você pega a cor do primeiro gato e o formato do segundo gato, ou a posição do gato, ou a ação do gato? Aqui tem um negócio que é preto e lá tem outro negócio que está miando. É isto que você faz? Não, você compara o correspondente com o correspondente, a cor com a cor, o miado com o miado, a posição com a posição, e assim por diante. Você não poderia fazer isto se você já não tivesse apreendido o primeiro gato como forma, e esta forma é a essência do gato.

Quando você vê um objeto, a primeira coisa que você percebe dele é a essência dele; depois, quando você vê um segundo objeto parecido, você pode testar se esse objeto pertence à mesma espécie do primeiro ou não, mas você precisa pegar o conceito da espécie já no primeiro, senão você jamais conseguiria compô-la. Portanto nada foi obtido por indução. Por indução você pode corrigir possíveis erros, mas você não pode aprender por indução. Nós aprendemos por apreensão imediata das essências, senão não conseguiríamos aprender nada jamais. Mesmo porque se você pegasse uma qualidade isolada de um e comparasse com outra qualidade isolada do outro, o número de objetos nos quais essas mesmas qualidades apareceriam seria praticamente ilimitado. Por exemplo, o primeiro gato era preto, imagine o número de coisas pretas que tem para você comparar; o café, por exemplo. Então vamos dizer que o gato é uma espécie de café.

Se você fosse compor a imagem das espécies por experiência de similaridades, das duas uma: ou você está comparando formas integrais, e, portanto, essências; ou você está comparando qualidades isoladas. Se comparasse qualidades isoladas, você jamais poderia terminar. Então compara formas integrais, que são essências. Note bem, outra coisa muitíssimo interessante, no primeiro gato que você vê, não vê só a forma do gato, mas já percebe instantaneamente um conjunto de possibilidades que ele tem. Isto é instantâneo. Por exemplo, quando você vê o gato, já sabe que ele não voa, e se você vê um passarinho, é normal que ele voe. Não por experiência; a experiência jamais poderia lhe dizer isso. É pela coerência da forma: isto é muito importante. Esta forma deste bicho que eu estou percebendo permite que ele faça certas ações e outras não, porque a ação tem de ser co-proporcionada com a forma do corpo.

(…) A forma não é só figura, Aristóteles dizia isso. Por exemplo, sobre a noção de forma, eidos, ele dizia que uma mão cortada tem figura de mão, mas não tem forma de mão, porque forma é a fórmula da mão, e a mão foi feita para mexer, para agarrar, e se ela não pode mais fazer isto ela não é mais uma mão, ela foi uma mão. A forma é um conjunto de potências, e é isto que nós percebemos, nós não percebemos coisas estáticas às quais depois é acrescentado um dinamismo por experiência. Não, nós percebemos a coisa viva, presente agora. E aquilo que não se move? Tem forma de coisa que não se move. Eu estou vendo uma pia aqui. Eu sei que a pia não se move. O formato dela não é para se mover. Esta percepção é instantânea, e se não fosse instantânea veja o trabalho imenso que nós teríamos para compor a primeira essência.

Chega a ser espantoso um sujeito acreditar que o processo de apreensão dos universais é por indução. Não, o processo lógico de formação dos universais é por indução, mas não o seu processo psicológico real de conhecimento. O processo lógico é um processo normativo, ou seja, o fundamento lógico de certos universais é a indução, mas não quer dizer que o processo pelo qual você o conheceu é o fundamento lógico. É o mesmo que você confundir, por exemplo, a origem do dinheiro com o fundamento da sua validade. Ora, o meu dinheiro tem valor porque tem um governo que reconhece e diz que tem lá uma base, alguma coisa que justifica, certo conjunto de bens. (…) Basta eu saber isto para ter dinheiro no meu bolso? Não, a origem do meu dinheiro é o meu trabalho, é completamente diferente. Ninguém faz essa confusão na vida diária. Saber o princípio da validade do dinheiro não quer dizer que você tenha dinheiro. Mas em filosofia os caras fazem essa confusão, eles confundem o fundamento da validade de um conceito com a origem histórica real desse conceito. É uma coisa absolutamente primária, Aristóteles riria de uma coisa dessas, mas, no entanto, a partir do século XVIII, XIX, isso se tornou comum, porque o amadorismo se espalhou por toda parte. Esses caras são amadores, nunca foram filósofos. Ninguém pode ser filósofo se não domina as técnicas criadas por Platão e Aristóteles, e essas técnicas pressupõem a qualidade humana correspondente.

Veja, Sócrates morreu pela sua filosofia, e é por isso que ela vale alguma coisa. Não era uma atividade acadêmica, não era uma profissão, era simplesmente a personalidade de Sócrates. Claro que você pode exercer isso também como profissão, desde que seja a sua personalidade também. Agora, se o sujeito não é filósofo efetivamente, mas está exercendo a função de filósofo profissionalmente, ele é um usurpador, um vigarista, um ladrão. Ora, você exige isso de um sujeito que é jogador de futebol, não exige? Pelé, Maradona, Mané Garrincha, você fala que eles têm o futebol no sangue. Não é que eles estão jogando futebol, eles são jogadores de futebol. Eles não estão brincando, não estão fingindo. Por que você não exige a mesma coisa do filósofo? Eu tenho muito orgulho quando meu professor Stanislaus Ladusãns disse “esse menino está na filosofia como o peixe está na água.” Claro, eu não estou aqui para brincar. Se eu não tivesse vocação para isso, eu ia estudar outra coisa. E dizia o José Ortega y Gasset: “serán filósofos todos los que no puedan ser otra cosa”. Se você não pode ser outra coisa, se você está na filosofia porque não consegue sair dali, é isso que você quer; a sua vida é a busca do fundamento do conhecimento, você precisa disso, daí você é filósofo. Agora, se você não precisa, vá fazer outra coisa.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 21, 29/08/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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