Qualquer análise do fenômeno do poder tem que partir de uma premissa que é completamente ignorada por toda a brilhante ciência social contemporânea – Olavo de Carvalho

“E o que é poder? Poder significa a capacidade que você tem de fazer os outros fazerem o que você quer. O poder é exercido sobre os outros, é uma vontade que se sobrepõe a outra vontade. Qualquer análise do fenômeno do poder, por mais elementar que seja, tem que partir de uma premissa que é completamente ignorada por toda a brilhante ciência social contemporânea: o fenômeno da diferença de poder entre os seres humanos. A diferença de poder entre um membro da espécie e outro membro da espécie é uma das características mais constantes e fundamentais da presença humana no cosmos. Não há nenhuma outra espécie animal na qual dois membros sejam tão diferentes na quantidade e escala de poder que possuem quanto a espécie humana. (…) Esta diferença, por mais longe que você remonte na história, se observa. E a diferença chega a ser a diferença entre o tudo e o nada, quer dizer, o sujeito que tem todo o poder e outro que não tem nenhum.

Esta não só é uma constante da história humana, como uma outra constante — não estrutural e permanente, mas uma constante de desenvolvimento — é o aumento da diferença de poder. Porque uma coisa mais simples é você entender que poder significa diferença de poder. O poder que não é quantitativo não significa nada, porque o poder é uma noção quantitativa. Então, digamos, se o poder é a capacidade que um sujeito tem de fazer o outro agir da maneira que ele quer, então tem mais poder aquele tem uma influência mais profunda sobre o outro, aquele que é capaz de determinar mais ações dele, e que tenha esta influência sobre mais pessoas. Então, neste sentido, o aumento quantitativo do poder dos poderosos ao longo do tempo é um fato óbvio. Por exemplo, no século XX aparecem tipos como Hitler ou Mao Tse-tung ou Stálin que têm a capacidade de, num golpe de caneta, determinar a morte de milhões de pessoas e aquilo vai ser executado sem discussão e sem oposição. Então você imagine a diferença de escala de poder entre Stálin sentado na sua mesa com sua caneta, e o sujeito que está lá jogado no fundo do Gulag sem ter o que comer, sem poder dizer “ai” e sem poder determinar nada do seu destino: ele não tem poder sobre sua vida nos próximos cinco minutos!

Diferenças como essas sempre existiram; acontece que elas aumentaram em intensidade e extensão ao longo do tempo, e este aumento está muitíssimo bem documentado no livro de Bertrand de Jouvenel que se chama Du pouvoir, Do poder: história natural do seu crescimento — É uma leitura obrigatória, não agora, mas mais dia menos dia vocês vão ter que ler esse livro. Dentro deste desenvolvimento, mesmo os empreendimentos que são tentados para diminuir o poder dos governos sobre seus cidadãos, ou dos reis sobre seus súditos, mesmo esses movimentos acabam aumentando o poder. É exatamente o que aconteceu nos EUA, que foram fundados com a ideia do poder limitado, tanto que o poder central é criado pelos poderes estaduais, você tem vários poderes estaduais, que se aglutinam e combinam entre si criar um poder federal que só terá os direitos que aqueles lhe concederem explicitamente; quer dizer, não existe uma soberania federal sobre os estados, mas ao contrário, uma soberania dos estados sobre o governo federal. Decorridos menos de cem anos, este processo já se tinha invertido…! Quando chegou a Guerra Civil Americana você já vê um crescimento formidável do poder central, ao ponto que muitos historiadores chegam a considerar Lincoln uma espécie de ditador: ele institui a censura à imprensa, prendeu um bocado de gente sem processo nem nada. Encerrada a guerra, o sujeito que era o Presidente da Confederação, Jefferson Davis, ficou na cadeia um tempão sem processo nem coisa nenhuma. Aliás, ele pedia que o processassem, ele pedia que o acusassem formalmente para que ele pudesse se defender e nunca lhe deram esta chance. Então isso aconteceu em uma nação que foi concebida na base da limitação do poder central. Então mesmo esses movimentos que temporariamente parecem reverter o curso geral das coisas, acabam por fortalecer esta mesma tendência.

Então, esta diferença de poder que é um elemento estrutural na vida humana não é levada em conta em nenhuma teoria política existente. Eu considero um dos grandes escândalos intelectuais da humanidade o fato de que praticamente todas as teorias políticas considerem a existência da diferença de poder uma espécie de anomalia, uma coisa que poderia não acontecer. Mas, ao contrário, ela é um fator estrutural, constante, e é uma das condições que definem a própria presença humana no cosmos. Desde o início você vai ver essa diferenciação de poder. Junto com esta diferenciação de poder existe, também, automaticamente, a diferenciação de horizonte de consciência temporal. Quer dizer, o sujeito que manda tem uma capacidade de prever os acontecimentos na escala da sociedade inteira muito maior do que os membros da sociedade, que podem chegar ao ponto de ignorar totalmente qual será o curso das coisas no dia seguinte, ou no mês que vem, ou no ano que vem, ou seja, aquilo que está sendo planejado para eles. Este horizonte de consciência do planejador também vai aumentando ao longo dos tempos. O horizonte de consciência temporal quer dizer a capacidade de prever a longo prazo, e de agir coerentemente em vistas de objetivos de mais longo prazo. Quando nós chegamos entre o século XIX e o século XX esta ideia do longo prazo aumenta, e cresce de uma maneira quase impensável. Quando vem o marxismo, ele já tem a ideia de um Estado futuro a ser alcançado, e naturalmente ele convoca as pessoas para que trabalhem por aquilo que ele mesmo diz que é inevitável; tem um futuro inevitável e todos têm a obrigação de trabalhar para este futuro, e este futuro se define pela propriedade pública dos meios de produção e pela abolição do Estado.

“Abolição do Estado” significa o seguinte: como tudo será Estado, este não existirá mais como uma entidade diferenciada. Quando vocês ouvirem um sujeito comunista, marxista dizer “Não, o marxismo não é a favor do fortalecimento do Estado, ele é a favor da abolição do Estado”, essa é uma expressão ambígua. Ele não quer dizer que ninguém vai mandar em você. Ele quer dizer que não há nada fora do Estado, então o Estado não pode ser reconhecido como entidade independente. Quer dizer, o Estado não se perfila como entidade diferenciada em função de outros poderes, como por exemplo a Igreja, as tradições, as empresas, as famílias etc. Na sociedade atual ainda há uma série desses poderes intermediários — se bem que eles estão recuando cada vez mais. Então a ideia marxista “abolição do Estado” é a estatização de tudo. Isto supõe, evidentemente, no planejador marxista, no estrategista marxista a capacidade de ele prever as coisas a longo prazo, e de planejar as ações pessoais e coletivas no sentido de chegar a este objetivo.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 22, 05/09/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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