Você deve permanecer fiel à ordem objetiva ainda que você não a conheça – Olavo de Carvalho

“Que o universo constitui alguma ordem, isto é a coisa mais óbvia do mundo. Há elementos de desordem e de caos — mais tarde, quando estudarmos a metafísica, vocês vão ver por que o elemento de caos e de absurdo tem de estar presente também na ordem total — mas de modo geral há uma ordem objetiva que não depende absolutamente do ser humano, ela já vigorava muito antes [dele existir] e é dentro dessa ordem que ele surge. Ele não precisa compreendê-la, no mais mínimo que seja, para que ela continue vigorando, e a própria capacidade que ele tem de compreender algo dessa ordem faz parte da própria ordem, está previsto na própria ordem. Para você poder continuar exercendo a sua vida intelectual de maneira frutífera, você tem de acreditar realmente que essa ordem existe e não esquecer que ela existe, ainda que ela não tenha nada a ver com o que todo mundo está dizendo a respeito dela. Essa ordem implica a existência da racionalidade humana como um de seus componentes e implica algum diálogo entre a racionalidade humana e a própria ordem, ou seja, o fato de que o homem seja capaz de compreender pelo menos aspectos desta ordem, ou de compreendê-la em termos muito genéricos, faz parte da própria ordem.

Isto quer dizer o seguinte: o universo não é incompreensível, mas também não é totalmente administrável. Você deve permanecer fiel à ordem objetiva ainda que você não a conheça. Você não precisa saber de nada à respeito dela, basta saber que ela existe. E isto é o que você percebe, na experiência que nós falamos, da presença do ser. Essa experiência basta, por exemplo, para você tirar de uma vez por todas a ilusão de que a sua mente ordena os dados do exterior. Se a sua mente for privada da presença do universo objetivo e físico durante uma única fração de segundo, ela se desmantela. Por exemplo, vocês sabem o que acontece nos experimentos de privação sensorial: prende-se o sujeito dentro de um lugar onde não chega nem som e nem luz. Basta privá-lo disso que a cabeça do sujeito esfarela. Basta essa experiência para você entender que sua mente não ordena nada. Nada, nada. A sua mente se organiza a si própria a partir de padrões que lhe chegam do exterior, do universo efetivamente existente, da ordem do ser. Como já diziam Platão e Aristóteles, existe a ordem do ser e nós podemos recebê-la, percebê-la e nos amoldarmos a ela. Se você permanecer fiel a isto, parcelas desta ordem vão se revelando a você, na medida das suas necessidades.

Quando, por exemplo, Stephen Hawking diz que o nosso propósito é obter uma descrição completa do universo existente, ele está absolutamente louco. O que significa uma descrição completa? No instante em que você terminou a sua descrição parou de acontecer coisas? E se tiver alguma pergunta que você não lembrou de fazer? A capacidade de fazer perguntas vai acabar? A descrição completa significa que é a resposta universal para todas as perguntas, nenhuma pergunta mais é concebível. Ou seja, toda esta atividade dessa ideologia científica é baseada na ideia da descrição total, do conhecimento total e do controle total. Esta ideia é eminentemente psicótica. Ela não é realizável, mas ela é vendável aos seres humanos e pode exercer fascínio e terror sobre as pessoas. Se você se deixa fascinar ou aterrorizar por elas, pronto, você é mais um trouxa.

(…) E essas pretensões, como as do Stepehn Hawking ou do Richard Dawkins, que fez uma coletânea de teratologia científica monumental e diz que agora que temos a biologia — sobretudo a que ele mesmo pratica —, não precisamos depender da superstição para responder a perguntas como: qual a finalidade da existência ou o que fazemos aqui. Ou seja, a biologia nos promete responder a todas essas coisas. Agora, pergunte a um biólogo por que existem as pedras. Eu não creio que isso dependa da biologia. Essa pretensão da explicação de tudo é, em si mesma, psicótica e prova um nível de ignorância das questões elementares tão imensamente grande, que é claro que é uma forma nova de barbarismo. O indivíduo que não entende que a ignorância com relação a partes imensas da realidade faz parte da estrutura mesma da realidade não entendeu nada. O homem é um ser finito e dura um certo tempo. Para ele obter um conhecimento de tudo precisaria ter uma vida infinita, evidentemente. O que significa você ter um conhecimento total durante uma fração de segundo? Significa não ter conhecimento nenhum. “Ah! Tive uma visão do todo e depois esqueci”. Então, que todo é esse? Um todo que durou somente aquela fração de segundo, portanto, é somente uma fração do todo, ou seja, não é compatível com a estrutura da existência humana. A descrição total da ordem do cosmos não é compatível. A ordem cósmica existe e revela para nós alguns aspectos, conforme a nossa necessidade e conforme a conjuntura do momento. Você entrevê, tem uns clarões que mostram o todo? Não. Só é revelado aquilo que você precisa no momento, e isto é tudo a que podemos aspirar.

Ora, isso significa que a verdadeira relação do ser humano com a ordem universal tem de ser uma uma relação de confiança, paciência e modéstia. Isto é tudo o que é possível fazer. Sócrates e Platão já sabiam disso, como é que estes caras puderam esquecer? Essas pessoas, como Dawkins, não são capazes sequer de ler um livro de São Tomás de Aquino. Eu lhes asseguro: ele não é capaz de acompanhar o pensamento de São Tomás de Aquino ao longo da Suma Teológica. Não é capaz. Como um sujeito desse aparece com a ideia de que ele agora vai ter todas as explicações sobre a finalidade da vida? Enfim, descemos a um nível de barbarismo que há apenas alguns anos era absolutamente inaceitável.

(…) É a sua total obediência e conformidade com a ordem da realidade objetiva que lhe permitirá se sobrepor às pseudo-ordens que estão sendo vendidas para você pela cultura contemporânea. O exercício que eu falei da presença do ser, você tem de fazer muitas vezes para você lembrar que para além de o todo blabablá de Stephen Hawking e Richard Dawkins existe o universo objetivo e a presença do ser. Ela não é substancialmente diferente daquilo que Sócrates, Platão ou Lao Tsé viram. E essa presença objetiva, essa presença do ser não se confunde com a presença de um universo físico e material, mas ela o inclui.

(…) Quando a ciência efetivamente conhece algum processo da natureza objetiva, ela o conhece porque há uma equivalência, há um diálogo entre a inteligência humana e a estrutura da realidade objetiva. Não é que tem um caos do lado de fora e a sua mente o põe ordem. Ora, se você é um componente da ordem do real, e a ordem do real é um caos, como é que esta parte, especificamente, conseguiu botar ordem na outra? Como é que a parte conseguiu colocar ordem no todo? Quer dizer, se o mundo é um caos, sua mente teria de ser um caos também. Então, alguma correspondência, algum diálogo, existe. Mas esse diálogo é necessariamente incompleto, não só por causa das famosas limitações da nossa mente, mas porque a incompletude faz parte da própria natureza do real. A ordem cósmica jamais pode ser completa porque estão acontecendo coisas o tempo todo e uma coisa só está completa no fim. O princípio de incompletude, de imperfeição, está imbricado na própria existência de ordem natural. A ordem natural não pode ser perfeita, porque perfeito só Deus. Perfeito só o infinito. O finito nunca pode ser perfeito. Perfeito quer dizer “aquilo que está acabado, está fechado”. O infinito pode ser perfeito sem ter fim, agora, o finito, não. Se ele tem um fim é porque acabou. Essas experiências fundamentais que nos revelam parcelas, relances da ordem natural, têm uma correspondência com a realidade, porém, essa correspondência nunca é perfeita, e por isto é que nós precisamos sempre das figuras de linguagem. Nós entendemos uma coisa por outra, por uma semelhança, mas essa semelhança não pode ser total, porque se fosse semelhança total seria igualdade, identidade.

O que é uma analogia? É uma síntese de semelhanças e diferenças. Tudo que nós entendemos, nós entendemos por isso. Por que? Porque nossa mente é imperfeita e não consegue captar a perfeição inteira da ordem natural? Não, porque a própria ordem natural é assim também. A própria ordem natural tem similaridades, tem ambiguidades, porque ela não é uma perfeição infinita. Isto quer dizer que a própria inadequação dos nossos conhecimentos é uma forma de adequação. A adequação dos nossos conhecimentos ao mundo exterior que nós descrevemos é uma adequação imperfeita que revela a própria imperfeição da ordem real existente. Então, o uso de metáforas, de figuras de linguagem não depõe contra o conhecimento, não depõe sequer contra a própria ciência, mas depõe contra o cientista que acredita que tudo o que ele está falando é literal e que acredita que a atividade dele, por ser mais exata etc., é infinitamente superior a de um poeta ou de um dramaturgo, quando não é. É exatamente a mesma atividade. Quando aumenta a perfeição das medidas, ela não aproxima você da realidade, porque você está apenas usando procedimentos matemáticos para tornar a sua analogia, a sua figura de linguagem, mais expressiva. Não o aproxima do real. Uma lei de física não é mais real do que um verso de Camões em sentido nenhum do mundo. Essa história das duas culturas, de que existe aqui a cultura das artes e existe do outro lado a cultura da ciência, isto é um mito criado por um charlatão chamado C. P. Snow.

Seria interessante vocês lerem um livro de F. R. Leavis sobre a famosa conferência do C. P. Snow sobre as duas culturas no qual ele reduz o sujeito a zero! Basta ter estudado um pouquinho a Teoria dos Quatro Discursos para ver que não existe uma coisa para um lado e a outra para o outro, existe uma gradação e os limites entre os vários discursos são fluidos. Não nos conceitos, estes são muito claros. Mas a passagem de uma linguagem para outra é problemática, porque ninguém usa uma linguagem que seja perfeitamente poética, ou perfeitamente retórica, ou perfeitamente dialética, isto é impossível. Há uma gradação com limites esfumados e isto é tudo que nós podemos alcançar. Então, não é exato, de maneira alguma, por exemplo, dizer que existem ciências exatas: elas podem ser exatas nas suas medições, mas não nos seus conceitos. Aliás, é contrário: o sujeito se prevalece da exatidão da medição só para poder continuar usando os conceitos que são totalmente elásticos e nebulosos, como por exemplo, o conceito de matéria.

Toda esta cultura da modernidade científica está tentando fazer da classe científica um novo clero que tem o direito de governar todo mundo, tomar decisões por eles, dizer o que você pode comer, o que não pode comer, tudo o que você pode fazer ou não. Em nome do que? De um conhecimento intransmissível, que é ao mesmo tempo intransmissível e é o critério de julgamento de todas as questões públicas. Mas que coisa mais louca! É claro que por detrás dessa desordem continua existindo a ordem. É só você olhar os processos naturais – não como as ciências os descreve – mas como você os observa a olho nu, e você verá que existe uma ordem, uma regularidade. Claro que se você observar esse mesmo processo numa outra escala ele deixa de parecer regular, porque se fosse a ordem total e perfeita em todas as dimensões, então teria de ter um Universo acabado onde não poderia acontecer nada de novo.

Então, uma das características da ordem é que ela não é plana. Ela tem vários níveis onde as coisas aparecem mais ou menos organizadas conforme a escala na qual você olha. Tudo isto são coisas que Sócrates e Aristóteles já sabiam, mas que hoje parecem bichos de sete cabeças. Então, o que nós temos de fazer é dirigir a nossa vida intelectual na base da fidelidade à ordem do real, ainda que nós não a conheçamos. Se você sair deste mundo sem ter compreendido nada da ordem do real, isto vai fazer alguma diferença para ela? Não! Olhe que reconforto que é isto! Se eu permanecer perfeitamente ignorante do Universo, isto vai impedir o Universo de funcionar? Não. Então, isto quer dizer que eu não preciso ter aquela avidez de responder a todas as perguntas, que é o problema desses malucos! Eles querem responder todas as perguntas porque eles acham que se eles não cuidarem do Universo, o Universo vai acabar, vai haver a entropia e vai acabar com tudo. É claro que isto é um delírio persecutório. Se o Universo estiver destinado a acabar, o ser não pode acabar. O total encerramento deste Universo aqui nada representaria na ordem do ser: não podemos compreender o ser senão na dimensão de infinitude e eternidade. Agora, esses camaradas, o que eles fazem? Eles pegam a existência do Universo espaço-temporal e a absolutizam.

(…) Então, a nossa mentalidade tem de ser exatamente a contrária. Nós temos de ter um reconforto na ordem do real, saber que ela não depende de nós. Eu já citei aqui o exemplo do sujeito que nadava na praia Vermelha, em Ubatuba. Era uma praia que tinha ondas de cinquenta metros e o cara ficava lá boiando em cima daquilo, perfeitamente confortável! Ora, a nossa vida é assim também, nós temos de ficar confortáveis em cima de uma onda de cinquenta metros. O nosso reconforto é na eternidade do ser. Prepare-se para a liquidação do Universo. O Universo será rasgado como uma folha de papel e isto em nada alterará a ordem do ser. É nisto que nós temos que pensar.

(…) Olha, o que esta mulher [Mary Midgley] leu de besteira para escrever este livro é impressionante! Um trecho escrito pelo geneticista John Burdon Haldane, que, salvo engano, foi Prêmio Nobel:

“Se é verdade, como ensinam as grandes religiões, que o indivíduo só pode alcançar uma vida boa conformando-se a um plano maior do que o dele próprio, é nosso dever perceber a possível magnitude desse plano, seja ele de Deus ou do homem. Ou a mente humana provará que seu destino é a eternidade e a infinitude, ou chegará um tempo em que o homem e todas as suas obras perecerão eternamente.”

Vejam que coisa: o sujeito está preocupado com a infinitude e a eternidade. Ele pega as sentenças das grandes religiões, ou seja, o homem só se realiza se ele estiver inserido na escala da infinitude e da eternidade, mas ele coloca essa infinitude e essa eternidade no futuro. Portanto, a espécie humana, no futuro, deve alcançar um domínio tal do cosmos que ela esteja na escala da infinitude e da eternidade. Mas e todos os homens que viveram antes? A mensagem das grandes religiões, pelo menos do cristianismo, é a seguinte: a sua vida tem um sentido eterno, infinito, agora, mesmo que você dure 10 minutos, e isso não depende do que a humanidade vier a realizar no futuro. Ao contrário: você vê que as previsões do apocalipse quanto ao que a humanidade vai fazer no futuro não são nem um pouco animadoras. A sua vida tem um sentido eterno porque você está dentro da eternidade. Nada que esteja fora da eternidade existe por um só minuto. Agora, pessoas que são incapazes de pensar a dimensão da eternidade a não ser no tempo, como Haldane, criam uma espécie de eternidade temporal a ser realizada no futuro. Ora, quer dizer que essas pessoas do futuro terão um privilégio eterno que nós não temos. Nós somos meros bichinhos, mas nós vamos gerar anjos e deuses daqui a dez mil gerações. Grande consolo! Longe de ser um sentido da vida, isto seria uma piada macabra. Ou seja, aquilo que ele enxerga como a coisa mais linda do mundo, vista na escala normal humana é de uma monstruosidade atroz. O curioso é que ele diz o seguinte: nós precisamos de um plano maior do que a escala da nossa vida. É o famoso sentido da vida do Viktor Frankl. Mas ele diz que pouco importa que esse plano seja de Deus ou do homem. Mas se você está se conformando com o plano que foi feito por um outro sujeito, esse sujeito também não é eterno, então você está apenas tendo uma existência temporal um pouquinho mais comprida, sendo procurador de um outro.

Mas isto não modifica em absolutamente nada a situação: ou existe o sentido eterno agora, porque a eternidade está presente e nada acontece fora dela, ou ele jamais existiu (eu já expliquei isto uma vez: aquilo que entrou no ser, jamais sai; nada que entrou no ser pode voltar ao nada, porque o nada jamais existiu). Se o vento balançou a folhinha, isto aconteceu de uma vez para sempre. Isto não desacontece. Na escala da eternidade tudo é eterno. Nada se dissipa! Nada! Nada! E é preciso entender que isto é absolutamente necessário. Agora, se você não consegue conceber esse plano de eternidade, se para você é tudo fluxo e transformação, então que raio de eternidade é essa? “Eternidade futura” é expressão absolutamente autocontraditória: se é futuro não é eterno. Como é que um sujeito que diz que é um cientista, um pensador, escreve uma besteira deste tamanho?!”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 22, 05/09/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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