Matéria é uma metáfora, uma figura de linguagem, e continuará sendo uma figura de linguagem – Olavo de Carvalho

“Veja, também, esta ideia materialista. Até hoje ninguém definiu o que é matéria. Os camaradas acabam de dizer que matéria é um negócio que ocupa um lugar no espaço e no instante seguinte eles estão falando de neutrinos, de partículas que, não apenas não ocupam nenhum lugar no espaço, mas às vezes ocupam até dois lugares diferentes ao mesmo tempo. Ou seja, esse conceito não faz sentido nenhum.

Matéria é uma metáfora que vem da ideia de mater (mãe). De onde você tira isso? Você tira do seguinte: de que se compõe um óvulo? Compõe-se de sangue. E o espermatozoide fecunda o óvulo, quer dizer, desperta nele um potencial que ali não tinha antes, desperta nele um processo, que é a formação de uma vida, para o qual esse sangue entra como matéria. Então, você é feito do poder gerador do seu pai e do sangue da sua mãe. O que esses caras estão querendo dizer é o seguinte: é a matéria que se fecunda a si própria; é o sangue que se fecunda a si próprio, sem necessidade de um aporte exterior. Matéria está ligada a matrix que é útero; mater que é mãe; metro que é unidade de medida. Por exemplo, qual é o tamanho que o sujeito vai ter? O pai dele pode ter dois metros e dez, mas se a mãe for mal alimentada durante a gestação não vai haver sangue suficiente para fazer senão um sujeito de um metro e cinquenta. Então a matéria o que é? É a medida, é a quantidade.

A explicação maravilhosa disto está nos dois primeiros capítulos do René Guénon no Reino das Quantidades e o Sinais dos Tempos, que é uma coisa simplesmente magistral. Eu tenho todas as críticas ao René Guénon, mas tem alguns pontos ali que são maravilhosos. Em última análise é a ideia de forma e matéria de Aristóteles — Guénon não acrescentou nada à ideia de Aristóteles — mas explicada de uma maneira absolutamente magistral. A ideia de que a matéria em si tenha a capacidade de se autogerar é uma ideia que surge durante a Revolução Inglesa, porque, para fundamentar a ideia do espontaneísmo das massas revolucionárias era necessário ter um conceito científico que a fundamentasse, então a matéria passa a ter capacidades que antes não tinha. Isso foi uma chantagem política, e até hoje você não tem nenhum conceito de matéria que seja mais científico do que isso aí. Matéria é uma metáfora, uma figura de linguagem e continuará sendo uma figura de linguagem.

Ora, quando nós temos uma figura de linguagem nós podemos perguntar: mas a que realidade essa figura de linguagem corresponde? A figura de linguagem tem naturalmente vários sentidos, alguns deles contraditórios entre si, e você pode, decompondo as várias camadas de sentidos, saber a que é que aquilo corresponde na experiência, ou não corresponde. Para isto seria necessária uma análise filosófica do conceito de matéria. Porém, se você começa a analisar você vê que o conceito de matéria é inteiramente imaterial. É um conceito que chega a uma autocontradição. “Ah, mas nós queremos continuar operando com esse conceito.” Então, o que eles fazem? Eles formalizam o conceito, criando um critério de reconhecimento. Por exemplo, na hora em que o sujeito diz que matéria é uma coisa que ocupa um lugar no espaço — o que é uma definição meio primitiva —, isto não é uma definição, isto é um critério de reconhecimento. Se você disser que todos os processos que acontecem no mundo emergem da matéria, então você vai ter de dizer que esse conhecimento que você tem da matéria também emerge da matéria. Mas esse conhecimento, em si mesmo, não é material. Então, a matéria está agindo imaterialmente, quer dizer, no primeiro passo que você dá com esse conceito você já esbarra em absurdidades.

Agora, se você fizer a lista das metáforas e figuras de linguagem que são usadas na ciência, por exemplo, o conceito de informação: O ADN passa a informação. Mas, espere aí, ele é uma estação de rádio? Ele é um livro? É um ser humano falante? Não. Então, você quer dizer que aquilo que o ADN está passando não é exatamente uma informação, mas é algo que se parece com uma informação. Você está designando a coisa por uma analogia. “Ah, vamos tornar isto mais preciso!” Eu digo: não há como. Você vai continuar operando com essas figuras de linguagem.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 22, 05/09/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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