As pessoas que são contra a mentalidade revolucionária, na maior parte dos casos, fazem a burrada de aderir a um movimento revolucionário para parar outro – Olavo de Carvalho

“Desde que começa a época das revoluções, você precisa ver que uma política revolucionária sempre existe. Sempre existe algum – um ou dois ou três movimentos revolucionários em ação. E um movimento anti-revolucionário nunca existiu. Existem valores anti-revolucionários. Ou crenças anti-revolucionária ou atitudes anti-revolucionárias. Mas o movimento nunca existiu.

Isso quer dizer que todos os movimentos políticos que você vê são de ordem revolucionária. Existem iniciativas anti-revolucionárias aqui e ali. Isso quer dizer que o tecido da história moderna é o choque de uma corrente revolucionária com outra corrente revolucionária. E as pessoas que são contra a mentalidade revolucionária, na maior parte dos casos, elas fazem a burrada de aderir a um movimento revolucionário para parar outro, sem saber que, com isso, estão apenas incentivando, fazendo a roda girar mais depressa.

Um exemplo característico: no tempo da segunda guerra mundial, o Papa Pio XII estava fazendo o que podia para ver se salvava o maior número de judeus. Leia o livro do rabino Daniel Dalin, The Myth of Hitler’s Pope: Pope Pius XII and His Secret War Against Nazi Germany, que desmente a história do papa de Hitler, que é uma calúnia desgraçada. Mas não se pode dizer o mesmo do alto clero alemão. No começo, eles tomaram algumas medidas contra o nazismo, como, por exemplo, recusavam a comunhão aos membros do partido e assim por diante. Então, no começo, eles fizeram a coisa certa. Porém, depois, à medida que o governo nazista vai adquirindo maior poder, eles vão cedendo, cedendo, sob a desculpa de que o nazismo iria parar o comunismo. Assim, você está querendo combater Satanás com a ajuda de Belzebu. Isso sempre dá errado! Sempre! Então, o que é necessário fazer é que a consciência anti-revolucionária se torne mais explícita e mais permanente, de modo que você consiga sempre transitar livremente entre essas tendências e esses entrechoques.

(…) A partir da hora em que começa o movimento revolucionário moderno, tudo fica extremamente perigoso. Toda atitude política se torna extremamente perigosa. Isso quer dizer que devemos pular fora e não tomar nenhuma atitude política? Não, alguma atitude você tem de tomar. Mas tem de tomar de tal maneira que você não favoreça um movimento revolucionário para combater outro. Você tem de boicotar os dois.

Então, era essa a ideia. Por exemplo, Churchill tinha essa ideia. Ele dizia o seguinte – a longo prazo se mostrou certo –, ele estava discutindo não sei com quem e o sujeito disse “mas a gente lutando do lados dos russos, eles vão tomar metade da Europa”, como de fato tomaram. E Churchill disse: “bom, mas depois de você comer, vem a digestão. E eles vão ter uma indigestão.” Mas é batata! A União Soviética conseguiu manter os territórios ocupados? Não conseguiu! O problema é que até ela vomitar os territórios ocupados, passou quase meio século e foi um morticínio desgraçado. O cálculo do Churchill não estava errado: “podemos entregar para a União Soviética porque ela não vai conseguir segurar”. Bom, ela come e depois vomita, mas do que ela vomitar, primeiro precisa ver se ainda vai haver alguma coisa ali para conservar. E, em segundo lugar, quanto tempo vai demorar e qual vai ser o custo disto? Na verdade, nós não sabemos. É muito difícil você se colocar na posição de um estadista legitimamente conservador e reacionário como Churchill. Tudo o que ele queria fazer era conservar intactas as democracias ocidentais, conservar o sistema dos direitos adquiridos, tudo certinho. E, naturalmente, ele teve de negociar. Eu não sei o que eu faria no lugar dele. O fato é que as forças armadas alemãs eram muito poderosas. Veja quanta gente teve de se juntar para enfrentá-los. A União Soviética sozinha não podia, os Estados Unidos sozinhos não podiam, a Inglaterra e a França, então… eles tomaram a França em uma semana! Agora, o que Churchill não sabia – e eu acho que esta foi a raiz do erro de cálculo – foi que a Alemanha só tinha se tornado tão poderosa graças à ajuda da União Soviética. A União Soviética foi fomentando o rearmamento da Alemanha desde a década de vinte, muito antes do pacto Ribbentrop-Molotov. Então, as forças armadas alemãs são uma invenção de Stalin. O mesmo raciocínio que Churchill fez com a União Soviética, Stalin fez com relação à Alemanha: “os alemães vão tomar tudo mas eles não vão conseguir segurar. E na hora em que eles soltarem, nós pegamos”. E batata. Aconteceu isso mesmo. Mas, também, a pergunta é: quanto tempo vai levar e qual vai ser o preço dessa brincadeira?

Quando Hitler invadiu a Checoslováquia, houve um governante europeu que telefonou para todos os outros – telefonou para o Roosevelt – dizendo: “vocês não vão fazer nada para parar este louco?” Sabe quem era esse governante? Benito Mussolini. Ele viu que todo mundo pulou fora e pensou: “ah, está todo mundo com medo do alemão? Então, eu vou passar para o lado dele, porque ele é o mais forte.” Então, este foi o sujeito que quis agir no momento certo. Só que ninguém acreditou nele. Era preciso parar Hitler no começo e sem a ajuda da União Soviética. Se eles tivessem feito isso em tempo… Mas é o tal negócio: para agir em tempo, seria preciso ter uma consciência muito clara do que é o movimento revolucionário, e de que ele sempre se utiliza de forças opostas. Quando o movimento Nacional-Socialista sai de dentro do ventre do movimento socialista – como o próprio fascismo, por exemplo -, isso faz parte da dialética natural do movimento revolucionário. Ele se come a si próprio, se destrói a si próprio e cresce. É como no Timon de Atenas de Shakespeare, em que um sujeito pergunta “como vai o mundo?” e o outro responde: “destrói-se, mas continua crescendo”. Isto é o movimento revolucionário. Ele vive de se comer a si próprio e comer tudo o que está em volta. Essas divisões são o processo natural dele. Ele é a destruição. Ele é a inversão. Ali não existe o lado mais certo. Todos os lados estão errados. E você pode usar um para destruir o outro só se você tiver a garantia de destruir aquele também. Mas, se você não tem a perspectiva correta do movimento revolucionário inteiro, como você vai prever a longo prazo?

De fato, apoiar Satlin, o que custou? No total, o movimento comunista matou três vezes mais gente do que as duas guerras mundiais somadas. Então, claro, ele era um flagelo muito maior do que as duas guerras mundiais. “Ah, mas todo mundo que está morrendo é chinês, é russo, a gente não liga.” Isso é o que falou Daniel Pipes: “por que os caras prestaram mais atenção no nazismo? [Porque] eles estavam matando alemão! Alemão é um povo importante! Os outros estão matando russo, chinês… [ninguém] nem liga” Então, existe esse preconceito racista na escolha que os caras fizeram. Entre os vários perigos, qual é o pior? O pior é o que está matando gente mais importante. E quando pegaram os judeus? Não havia um judeu na Alemanha que não tivesse parente nos Estado Unidos. Cada um que matavam lá dava repercussão aqui. E chinês? Você não consegue distinguir um chinês de outro! E russo? Aqueles caras lá na Sibéria, bárbaros? Ninguém está nem ligando para eles. Então, isto foi um dos motivos pelos quais o pessoal achou que era certo se aliar aos comunistas para combater os nazistas. “Os nazistas estão matando gente nossa. E os outros estão matando os caras que nós nem sabemos que existem. Talvez seja até bom matar. Diminui um pouco a população.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 022, 05/09/2009.


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